INCLUSÃO E ACESSIBILIDADE DE PESSOAS COM DEFICIÊNCIA,
MOBILIDADE REDUZIDA, FAMILIARES E PROFISSIONAIS DO SETOR


 É rápido e fácil: Encontre as matérias já publicadas pela Revista Reação no ambiente digital

Clique em "Pesquisar" e filtre por editoria, palavra chave ou navegue abaixo e encontre reportagens, artigos de parceiros e notas das redes sociais.

Entrevista Adriana Buzelin

Conhecida na revista Reação como articulista, principalmente na área de esportes, ela tem muitas outras atividades que vão da edição de uma revista digital à militância política, passando pelas artes plásticas, o mergulho adaptado e como modelo para fotos.

Adriana Buzelin sempre foi uma mulher com muitos afazeres. Na época do acidente automobilístico que a deixou com um quadro de tetraplegia incompleta nível C5/C6, totalmente sem movimentos do pescoço para baixo por alguns anos, estava terminando seu primeiro curso superior na área de Comunicação Social, Relações Públicas, além de trabalhar como modelo publicitário.

Em uma noite de agosto de 1991, ela saiu de casa andando e só voltou sete meses depois. O carro em que estava com a mãe e um amigo bateu de frente em um poste. Enfrentou três paradas respiratórias, uma cirurgia para fixar o pescoço, uma grande escara na cabeça que chegava a tocar o crânio devido a uma tração de 10 Kg que precisou passar antes de operar e um programa intenso de reabilitação. Por ter sido uma lesão incompleta, com muita fisioterapia e dedicação conseguiu recuperar quase por completo os movimentos dos membros superiores. Apesar do processo ser doloroso, física e psicologicamente, Adriana acrescentou muitas outras atividades em sua vida,  fazendo novos cursos. Aprendeu a mergulhar, criou e edita a revista digital Tendência Inclusiva, entrou para um partido político, continua como modelo, agora na agência Kika de Castro, especializada em pessoas com deficiência. Redescobrindo sua real capacidade e recuperando a autoestima, tudo mudou. Um leque de opções se abriu para ela que conseguiu enxergar novas possibilidades em sua vida. Vamos conhecer e saber mais sobre essa mulher fantástica:

 

Revista Reação - Como foi enfrentar as consequências do acidente ?

Adriana Buzelin - Foi necessário o luto. Tive que chorar e lamentar pelo que perdi. Tive meu tempo para isto. Comecei a me enxergar neste novo corpo e entender as minhas limitações. Reaprendi a gostar de mim, precisei batalhar pela autoestima perdida e isto foi extremamente difícil, ainda mais careca e sem movimentos. Experimentei novas situações e precisei entender que o olhar do outro não poderia me deixar infeliz, além de compreender que era necessário mudar valores e conceitos. Descobri que muita coisa ainda era possível, redescobri minha capacidade.

 

RR - Os leitores da Revista Reação conheceram você em uma matéria da edição de julho/agosto de 2013, como a primeira mergulhadora tetraplégica mineira registrada. Seu mergulho a 23 metros de profundidade nas águas do Caribe venezuelano foi a foto de capa da revista. O que o esporte significa em sua vida e qual seu objetivo em escrever sobre o tema ?

AB - Desde criança pratiquei esportes. Na infância lutei judô e dancei balé clássico por 12 anos, parei na adolescência para lutar karatê onde cheguei à faixa marrom. Dança, artes marciais e natação faziam parte do meu dia a dia. Nunca sonhei em mergulhar ! O mergulho surgiu em minha vida da forma mais linda possível. Meu irmão, Márcio, estava de férias em Fernando de Noronha/PE. Mergulhando de forma recreativa, percebeu que a sensação era tão ímpar e singular que poderia me tirar deste universo terrestre onde enfrento tantos obstáculos físicos. Me ligou, me relatou como era fascinante estar submerso e me fez a proposta de ir tentar fazer o mesmo. Fui em busca de escolas e profissionais habilitados em mergulho adaptado. Pesquisei na internet e descobri a pessoa pioneira em mergulho adaptado no Brasil: Lucia Sodré. Conversando, ela me explicou que a Handicap Scuba Association (HSA), fundada em 1981, dedicou-se a melhorar o físico e o bem-estar social das pessoas com deficiência através do esporte de mergulho, tendo mergulhadores instrutores em alguns pontos do Brasil e um deles em São Paulo. William Palma Spinetti, instrutor credenciado da HSA, me tornou como sua primeira aluna com tetraplegia e a primeira mergulhadora do estado de Minas Gerais. Daí para frente minha vida mudou, fui me aprimorando e minhas viagens passaram ter o objetivo de mergulhar nos mares do mundo. Amante dos esportes, nada mais natural de que escrever sobre as inúmeras possibilidades que são abertas para pessoas com deficiência. A cada artigo, mais percebo que a vida continua apesar de ter uma deficiência física. O esporte é um grande veículo de integração, inclusão e descobrimento das nossas capacidades.

 

RR - Sua vida era bastante agitada antes do acidente e você continuou dessa forma depois dele, inclusive fazendo novos cursos. Quais foram suas principais dificuldades nessa questão da educação depois do acidente ? Quais os avanços que você vê na educação inclusiva no país ?

AB - Sim, era extremamente agitada. Sempre fui uma pessoa muito ativa e que acumula diversas funções. Nos dois primeiros anos eu só fazia fisioterapias no intuito de voltar a andar e fiz de tudo,  inclusive coisas que, com certeza, não dariam certo como comprar equipamentos que jamais funcionaram para mim. Acreditava em qualquer método que me diziam trazer de volta meus movimentos. Me frustrei, me entristeci, tive que compreender que era necessário nascer sob um novo formato. Não foi nada fácil. Após todo o processo de conquista de mim mesma comecei a perceber a necessidade de vivenciar novamente os estudos, afinal sempre fui amante do conhecimento e sentia falta dele. Comecei fazendo cursos de Artes Plásticas, História da Arte e Escultura, já que minha mãe é Arte Terapeuta. Com isto, criei a "Favela", uma escultura que fala da exclusão, do preconceito e da não aceitação da sociedade daquilo que lhe parece feio e pobre. A obra, feita em argila, surgiu das idas com minha mãe a estes aglomerados. Com o tempo, fiz muitas exposições, uma delas no Gabinete do ex-prefeito de Belo Horizonte/MG, na época Célio de Castro, e assim fui premiada com o Diploma de Honra ao Mérito pela Câmara dos Vereadores em 2002. Como eu já havia cursado Relações Públicas nas Universidades Newton Paiva, bastava ir até a Faculdade Promove e ingressar em qualquer curso da área de comunicação. Escolhi Produção Editorial e lá me deparei, pela primeira vez, com o despreparo de muitos professores quando o assunto é um aluno inclusivo. E foi assim também no curso de Design Gráfico da Universidade Fumec. ​Para muitos alunos e professores eu era "invisível", e quando não conseguia participar de alguma atividade me pediam para ficar observando no "cantinho da sala". A curiosidade de ter um aluno inclusivo na sala de aula era grande. Faziam perguntas, muitas perguntas... desde como eu pegava no lápis para desenhar, a como eu fazia para ir aos banheiros não adaptados, ou seja, ir ao banheiro era impossível. Para muitos outros alunos e professores eu era como qualquer outro aluno, apenas com particularidades diferentes dos demais. Estes sim eram solidários à falta de acessibilidade da escola. Tanto na Promove quanto na Fumec a administração tentava me encaixar para ter mais integração. Mudavam salas de andar, criavam mesas de desenho com as dimensões da minha cadeira de rodas e sempre se propunham a ajudar no que eu precisasse. Professores com posturas inclusivas me tratavam com igualdade e exigiam de mim o que exigiam de todos os demais alunos. Enfim, foi um grande aprendizado e sou muito grata a estes colegas e professores. A meu ver, a educação inclusiva no Brasil é ainda medíocre em informação e preparo dos professores. Poucos professores e escolas estão preparados para receber alunos com qualquer tipo de deficiência. A Lei Brasileira de Inclusão veio com mudanças em diversas áreas, como no trabalho e educação, mas escolas não estão capacitadas para receber pessoas com diversas deficiências. Há mesmo um grande despreparo do corpo docente e a acessibilidade é quase nenhuma. Infelizmente, não vejo avanços na educação. Não adiantam só leis inclusivas, multas para escolas que ainda negam matrículas, mas realmente investir na capacitação dos professores e na acessibilidade. Educação no Brasil é vergonhosa, educação inclusiva sequer existe realmente. É uma luta incansável para deixarmos um legado para futuras gerações.

 

RR - Em termos de trabalho, quais as principais dificuldades que você enfrentou ? Como analisa o mercado de trabalho para pessoas com deficiência hoje ?

AB - Essa questão, a meu ver, tem diversas nuances que vão desde a falta de capacitação da pessoa com deficiência ao mercado de trabalho à dificuldade de abertura deste mesmo mercado para pessoas com deficiência realmente capacitadas. No meu caso, voltar ao mercado de trabalho foi bem difícil. Só consegui trabalhar como freelancer e sem carteira assinada, a não ser que eu preencha a lei de cotas de uma grande empresa e trabalhe com qualquer coisa que não é minha área. Por conta disso, voltei de forma informal. Até mesmo seguir minha carreira como modelo se tornou impossível dentro das agências de Belo Horizonte. Aqui faço alguns trabalhos em campanhas publicitárias institucionais, ou seja, basta preencher o perfil procurado mesmo sem curso de capacitação que se pode ser escolhido. O que não ocorre na agência de modelos Kica de Castro Fotografias da qual faço parte do casting de modelos realmente capacitados e com estudos direcionados para a profissão.

Acredito que com o cumprimento da Lei Brasileira de Inclusão teremos mais adultos, daqui um tempo, profissionalizados e capacitados para estarem inseridos no mercado de trabalho que deverá estar atento à capacitação dessas pessoas e isto deve ocorrer através da igualdade de oportunidades de acesso à educação. As crianças com deficiência de agora serão os adultos de amanhã, por isso o ensino tem que qualificá-las para terem uma profissão, assim como todas as crianças que frequentam escolas neste Brasil.  Escola aberta à inclusão é a base de um mercado mais inclusivo. Sou a favor da Lei de Cotas. Ela é o primeiro passo para inserção das 'minorias' no mercado de trabalho. Sendo Lei, a contratação, no caso, se torna obrigatoriedade para empresas e, a partir do momento que esta inclusão se torne natural, não haverá mais necessidade da Lei, pois já estaremos inseridos e seremos respeitados pela sociedade. Não somos coitadinhos, longe disso, mas superamos obstáculos a cada dia e isto deve ser valorizado. Não é fácil ter uma deficiência no Brasil e lutar para mostrar capacidade e justiça. Não quero igualdade, quero justiça. A igualdade não respeita nossas particularidades, mas a justiça sim.

 

RR - Você foi candidata a vereadora em 2016. Por que optou pela política ? Como vê a representatividade das pessoas com deficiência nas diversas casas legislativas e no Executivo ?

AB - Eu não tinha nenhum interesse em entrar para política apesar dos convites. No meu primeiro curso superior adorava Marketing Político, mas nunca pensei em me candidatar. Apenas observando de longe, mas com forte vontade de mudar o quadro atual político que enfrentamos, em 2016 aceitei ser candidata a vereadora por Belo Horizonte/MG. O país infelizmente enfrenta uma situação muito delicada e nós, pessoas com deficiência e mulheres, temos pouca representatividade política e é por conta disso que temos muitas dificuldades para conquistar nossos direitos. Atualmente, muito do que os brasileiros acreditavam, juntamente com suas expectativas, caíram por terra, os deixando desamparados e sem esperança. É muito triste ver um país tão desesperançoso com seus governantes e desacreditados com seu futuro. Os brasileiros anseiam por mudanças e necessitam de governantes honestos e dedicados a lutar por um Brasil melhor. Hoje somos inimigos uns dos outros, a intolerância só aumenta com aquele que pensa diferente de nós. Acredito que conseguiremos plantar uma semente de esperança em cada brasileiro e, aos poucos, mudaremos este quadro caótico que nos encontramos. Não creio que esta mudança acontecerá de forma rápida, pois exige uma mudança de representantes do nosso povo lutando e os representando de forma verdadeira, isto depende de todos. É nas urnas, na hora de votar e na escolha dos novos representantes na política que iniciamos este processo. É estando atento às propostas e os elegendo para que possamos cobrar dos novos políticos atitudes e ações. Nós merecemos um futuro digno para todos inclusive para nossos filhos e netos. E ainda continuarei na política, me candidatando a outros cargos.

 

RR - Além da questão das pessoas com deficiência, o meio ambiente também merece sua atenção, tanto que você tem cargos no Partido Verde. Quais suas principais bandeiras nessa área ?

AB - Não fui eleita em 2016, mas tive uma votação expressiva entre os candidatos do Partido Verde, sendo a mulher com maior número de votos. Como disse meu irmão, que é o tecladista da banda Jota Quest, eu enchi uma grande casa de shows de pagantes e isto foi bastante por ser a primeira vez, se tratar de uma mulher, sendo uma pessoa com deficiência e não tendo nenhum veículo midiático que me projetasse. Com essa votação, fui convidada para estar à frente de duas secretarias, sendo uma a de Direitos Humanos e Diversidade do município do Belo Horizonte e a Secretaria Estadual da Mulher de Minas Gerais. Duas secretarias que fazem jus à minha luta e minha ideologia. O planeta em que vivemos está morrendo. Falta de informação sobre o cuidado com a natureza, o meio ambiente e respeito aos animais. Somos, diariamente, massificados pela mídia pedindo e alertando que é necessário, para ontem, cuidar do planeta em que vivemos, porém percebo que, a grande maioria não se desperta para esta emergência, talvez por não acreditar que realmente estamos vivendo uma série de mudanças em nosso planeta que vão desde as mudanças climáticas, como a escassez de água, o aumento da poluição, a extinção de muitas espécies de nossa fauna e flora. Luto pela diversidade e pela aceitação das diferenças, luto pelas mulheres tendo ou não uma deficiência, luto pelos idosos, por acesso ao direito de ir e vir, de estudar, de trabalhar, de ter saúde. Todos temos que ter acesso à informação e ao conhecimento, pois é assim que mudamos nossa realidade. Luto por qualidade de vida, pela aceitação da opção sexual, de crença e de quaisquer outras escolhas. Luto de frente contra o feminicídio e contra homofobia. Luto contra toda forma de violência, seja física ou psicológica. Defendo o direito de escolha, procuro mostrar aos nossos governantes as necessidades que este nicho de pessoas têm e que, atualmente, só tem perdido seus direitos já adquiridos. Não temos amparo na velhice, principalmente quando somos pessoas com deficiência. Somos uma população que envelhece pobre, sem saúde e desamparada. Questiono como será a velhice de quem tem uma deficiência.

Nós mulheres, por muitos e muitos anos, fomos impedidas de exercer o papel de cidadã. Éramos apenas mulheres destinadas a procriar. Não podíamos ser nada além de mãe de família e "rainha" do lar. Não podíamos votar, nem fazer escolhas, não podíamos estudar e seguir uma carreira. Atualmente ainda recebemos menos que os homens em muitas funções, ainda somos obrigadas, em muitas culturas, a obedecer e nos calar. As únicas capazes de dar a vida a um ser humano e as únicas capazes de amamentar. Nós somos mulheres, lindas, delicadas, sensíveis, fortes e guerreiras. Somos capazes de exercer muitas profissões, muitas atividades, tantas quantas desejarmos. Somos mulheres com poder de escolha, poder de opinião, de poder sermos quem quisermos sem deixar de sermos mulheres. Podemos tanto que atualmente podemos até escolher sermos mães e apenas mulheres. Luto por igualdade e por respeito.

 

RR - Você é criadora, editora e articulista da "Tendência Inclusiva", uma revista digital que já se tornou referência na área. Como tem sido essa experiência ?

AB - Há 3 anos criei a Tendência Inclusiva de forma despretensiosa mas com grande vontade de abordar temas relevantes como inclusão, diversidade, autoestima, igualdade, educação, artes e outros assuntos que levem ao questionamento e à aceitação do universo diverso propiciando bem estar dentro da pluralidade em que vivemos. Muitos assuntos que abordamos são pouco falados pela mídia e, para muitos, nós pessoas diversas somos invisíveis à sociedade, por isso a necessidade de divulgar informações relevantes a este universo. Nasceu apenas como um veículo de informação mas, com seu crescimento, percebi a necessidade de promover ações sociais promovendo e participando de eventos nas aéreas que são mais faladas dentro da revista digital Tendência Inclusiva. Com parceiros fiéis e engajados na causa, fomos para ruas falando de moda inclusiva, de acessibilidade, de mercado de trabalho, educação inclusiva, dentre outros. Tanto eu como os demais articulistas somos palestrantes. O programa Viver Eficiente da apresentadora Kica de Castro, no qual atuo também como produtora, tem uma conexão direta com a Tendência Inclusiva. Afinal, por falarmos a mesma linguagem, trocamos figurinhas. No ano passado, participamos do I Circuito de Atividades de Inclusão dando oficinas de cerâmica para pessoas com qualquer tipo de deficiência e neste ano lançamos a primeira exposição fotográfica do projeto Retratos Inclusivos assinada pela Kica de Castro, celebrando a diversidade feminina. Foram fotografadas mulheres com algum tipo de deficiência, na terceira idade e que vestem acima de 46, enfim, mulheres que fogem ao criterioso e rígido padrão de beleza imposto pela sociedade. Muitas ações ainda estão por vir, tanto na segunda série dos Retratos Inclusivos, como ações sociais envolvendo agora homens, casais e orientação sexual. Ações como dias de beleza para mães e pais de pessoas com deficiência no intuito de aumentar a autoestima e empoderá-los. Continuamos divulgando artigos para que os leitores conheçam ou mesmo se reconheçam nas histórias contadas na revista, pois sempre acreditei que o conhecimento nos capacita como cidadãos melhores e atuantes. Ter acesso a informação é desenvolver a capacidade de questionar e lutar pelos seus direitos. O endereço é www.tendenciainclusiva.com.br

 

RR - Um de seus artigos para a Revista Reação chamou muito a atenção pelo relato de uma experiência que você passou em um shopping em Belo Horizonte, quando foi vítima de preconceito e intolerância por parte de uma frequentadora. O que você tirou desse caso e o que pode falar para outras pessoas que passam por situações semelhantes ?

AB - Não é novidade para ninguém que muito da intolerância ao que é diferente ou que foge do padrão da tal normalidade estipulada pela sociedade, momento ou outro, faz com que uma pessoa se torne vítima de discriminação, indo ao extremo da violência psicológica e até física. Haja visto a quantidade de agressões e mortes divulgadas por não aceitação e a religião, nesta história, é mais um pretexto para justificar a antiga tendência humana ao antagonismo entre pessoas. Algumas crenças incitam seus fiéis à violência e já existem estudos que comprovam que países menos religiosos são menos violentos. A afirmação parece contraditória, sendo que a maioria das religiões prega amor e paz. Neste caso específico, fui abordada por uma senhora munida de muita maldade e cegueira religiosa, em um shopping que frequento tanto sozinha ou com meu companheiro Kleber, afirmando que o motivo de eu estar em uma cadeira de rodas foi por ser má ou acreditado no capeta, logo eu não era filha de Deus e, por isso, estava pagando meus pecados. Na hora tive medo, não agi como deveria. Aconselho a chamar a polícia e fazer um boletim de ocorrência. Porém, infelizmente, ainda acredito que não foi a primeira vez que fui questionada por estar em uma cadeira de rodas, não foi a primeira vez que enfrentei olhares de piedade, nem muito menos foi a primeira vez que seremos deixados em um canto da sala de aula ou de um estabelecimento por falta de acessibilidade e despreparo da sociedade em lidar com uma pessoa com deficiência. Também já fui inúmeras vezes vítima de preconceito, intitulada de incapaz e chamada de aleijada, mas foi a primeira vez que percebi o quanto é perigoso o fanatismo religioso que aterroriza e nos limita na liberdade de sermos o que somos, na liberdade de ir e vir, afinal fanatismo, intolerância e violência caminham juntos.

 

RR - Falando na capital mineira, como é a acessibilidade em Belo Horizonte ?

AB - Talvez eu tenha que relatar aqui o que temos em termo de acessibilidade pois caso contrário não caberia em uma página. Ruas esburacadas, calçadas sem sinalização, estabelecimentos sem rampas, ausência de banheiros adaptados, dificuldades no transporte público, dentre tantos outros obstáculos para quem tem mobilidade reduzida e alguma deficiência. A falta de lazer é também impressionante, pois não existe espaço para nós. Também não temos academias preparadas, nem escolas, enfim é tudo vergonhoso. Tenho enfrentando uma saga à procura de um local para morar. Tem três meses que desperdiço tempo e dinheiro em busca de um apartamento adaptado ou, pelo menos, que eu passe nas portas mas o que encontro são portas pequenas, escadarias e falta e acesso. Em Belo Horizonte, como em todo Brasil, a acessibilidade é quase zero. Bato palmas quando chego a um local e encontro um banheiro adaptado e rampas bem projetadas.

 

RR - Você está participando da proposta de realização da 1ª Mobility & Show em Minas Gerais, no próximo ano, feira dedicada a pessoas com deficiência já realizada com muito sucesso em São Paulo, Rio de Janeiro e Recife. Quais são suas expectativas ?

AB - Estar participando da proposta de trazer a 1ª Mobility e Show para Belo Horizonte é para mim, além de uma obrigação como cidadã e defensora dos direitos dessas pessoas que podem adquirir um carro adaptado e com isenções, uma honra. A cidade é muito carente de feiras como essas. Não temos muito acesso a acessórios de mobilidade como em São Paulo. Falo isto porque morei por um ano na capital paulista e quando precisei de uma cadeira de rodas, fui até a loja e comprei. Aqui, em Belo Horizonte, a falta de opção é muito grande em diversos aspectos. No Brasil somos 46 milhões de pessoas com deficiência sendo o estado de Minas Gerais com 5 milhões de pessoas, diz o Censo 2010. Só em BH somos 700 mil cadeirantes sem contar outras deficiências ou alguma doença que têm o direito de adquirir um carro 0 Km com isenções. Número muito expressivo ! O problema é que poucos são os que conhecem seus direitos, por isso ter uma feira como a Mobility & Show proporcionará não só o consumo, mas informações: ferramenta que o consumidor precisa para exigir seus direitos. Com certeza, este evento apresentará opções a este público tão carente de informação. Através das minhas possibilidades, me coloquei à disposição de trazermos a feira para a capital mineira. Queremos mostrar as opções para este nicho de pessoas, além de apresentarmos aos governantes mineiros o quanto Belo Horizonte tem um potencial gigante para sediar mais feiras como esta.

RR - Já que estamos no final de mais um ano, quais são suas expectativas para 2018, especialmente em relação a pessoas com deficiência ?

AB - Estamos no final do 2017 e, quando este ano iniciou, com a Lei Brasileira de Inclusão (LBI) vigorando, acreditei que haveriam muitos avanços para pessoas com deficiência. Contudo, não foi o que aconteceu. A legislação está aí, mas o país está envolvido em corrupções demais, logo a luta pelos nossos direitos se torna novamente invisível e muito difícil. O retrocesso está evidente em vários aspectos políticos e econômicos dentro da sociedade brasileira. Precisamos consertar o sistema político do país, reerguê-lo, para assim termos mais voz e visibilidade e, infelizmente, minha sensação vai de encontro ao meu desejo. Mas tenho esperança: 2018 vem aí com a proposta de ser um ano de mudanças e minha expectativa é de que tenhamos mais voz, mais ações, mais representatividade para caminharmos para um futuro melhor e não termos vergonha de sermos brasileiros.

Tags:

Parceiros

Vinaora Nivo Slider 3.xVinaora Nivo Slider 3.xVinaora Nivo Slider 3.xVinaora Nivo Slider 3.x

©2018 Reação Revista Nacional de Reabilitação - Todos os direitos reservados. Desenvolvido por A4 Agência Digital

Search