Pessoas com deficiência no ensino superior

ACESSIBILIDADE

Tenho acompanhado com atenção há algum tempo e, especialmente nos últimos meses, a mídia mostrando o ingresso de pessoas com diferentes deficiências no ensino superior. Essa visibilidade pode estar ligada a inclusão de deficientes nas universidades públicas federais pela Lei de Cotas no vestibular de 2018.

Embora não se tenha um resultado estatístico a respeito, pessoas com deficiência já estão na universidade há muito tempo, no entanto a legislação favorável e um maior empoderamento contribuem para que ano a ano mais pessoas tenham acesso ao ensino superior, o que deve exigir por arte das instituições um aumento dos recursos físicos e tecnológicos para a inclusão desses alunos.

Digo isso porque estou no ensino superior e venho acompanhando tais mudanças desde então. Ingressei no curso de Enfermagem em 1997 em uma das melhores universidades da América Latina, mas um ano depois veio a tetraplegia e com ela a negativa de uma diretora doutora dessa mesma Universidade em me aceitar com a minha deficiência, pois para ela, a tetraplegia seria um impedimento para que eu me tornasse enfermeira. A falta de informação me fez aceitar essa situação na época e desisti do curso, mas não do meu sonho. Eu e minha família começamos uma árdua batalha durante 4 anos para que eu pudesse continuar na Universidade, até quando conheci o professor Jacques Markovitch, reitor na época, que me possibilitou seguir para uma nova graduação, dessa vez Arquitetura e Urbanismo.

Cursar a faculdade foi muito difícil pois havia um total despreparo de todo um corpo docente e discente em lidar com alguém com deficiência, além das barreiras atitudinais, as barreiras físicas e tecnológicas deixaram tudo muito mais difícil. Os anos se passaram, consegui me formar e tenho certeza que plantei uma semente que frutificou nos anos seguintes.

Hoje como pós graduanda em outra instituição pública me sinto um pouco mais incluída, mais percebida e mais ouvida, sei que existe um longo caminho a ser percorrido dentro das instituições que precisam com urgência melhorar a acessibilidade física nos espaços, desenvolver e disponibilizar a quem precise tecnologia que possibilite o acesso a materiais, mas principalmente, que hajam humanos capazes de lidar com humanos, deficientes ou não.

Tenho esperança que nós, pessoas com deficiência, possamos ter cada vez mais visibilidade, e que isso nos possibilite sermos arquitetos, professores, psicólogos, arquitetos, gestores ou o que mais quisermos ser, sermos apenas “gente”.
Vou ficar de olhos e ouvidos abertos.

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