A ALEGRIA ESTÁ NO AR

*Roberto  R.  Rios

Me sento na cama, sem olhar para o relógio, imagino que deve ser  entre uma e meia a duas horas da madrugada.  Preciso me transferir para a cadeira e ir ao banheiro, porém, prefiro ficar ali por um tempo para apreciar um barulho que me agrada bastante, e é infalível, ele vem todas as noites.

Primeiro vem o som do freio do caminhão anunciando a chegada do pessoal, em seguida, o alarido dos guerreiros destemidos de tempos ruins. Noites cantam, outras conversam alto e em outras dão largas risadas e nunca param de falar, tudo fazendo parte de ritual alegre e sonorizado intercalados pelo barulho da caçamba do caminhão como se fosse metrônomo fazendo a marcação, o compasso já vem embutido na melodia silenciosa que só eles ouvem. E seguem assim, sendo abraçados pela noite abençoada..

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Eu continuo sentado ouvindo o som que agora já se distancia, e mais um tempinho some, o  meu pensamento vai lá longe acompanhando os lixeiros que seguem suas jornadas de mais de 20 Km diários entre correrias, saltos no caminhão, levantar pesos enormes, além do perigo com objetos que vão descuidadamente dentro dos sacos.  Mas a alegria nunca acaba,  dando espaço até para uma dancinha de vez em quando.

Que maravilha !  Penso eu… Que homens preciosos. Tão importantes para todos nós.

Acho que todos deveriam acordar na hora em que eles passam e refletir sobre tudo, mas, principalmente, sobre a origem dessa alegria. 

A alegria está no ar. Entra nessa energia quem quer, quem tem desprendimento para isso.

Sinto muitíssimo por aqueles que acham ruim o barulho dos nossos heróis. Os azedos de plantão, aqueles que não tem nada do que reclamar, mas reclamam de tudo e, por fim, por recompensa, ganham a cara de maracujá de gaveta, a boca parecendo um arco para baixo e, óbvio, a distância de todos.

Nunca me esqueço de quando, no início da minha paraplegia, estava fazendo hidroterapia, dando risadas com minha fisioterapeuta sobre a bagunça na minha casa sempre cheia de amigos e suas palhaçadas, quando fomos interrompidos por um senhor que também estava na piscina, e ele falou que eu deveria aproveitar esse momento porque logo ia passar a curiosidade e eles me abandonariam e, provavelmente até a esposa iria embora.

Eu fiquei perplexo, mesmo assim, agradeci a observação amarga, mas, que me serviu de alerta para nunca perder o humor.  Resultado:  minha casa continua cheia e minha esposa cada vez mais próxima.

Eu queria, com isso, lembrar a todos, principalmente, aos céticos, e mais, para os preconceituosos, que a alegria não é uma exclusividade do status social, da riqueza, do poder ou até mesmo da saúde. Muito pelo contrário. O que reina na abastança é a insatisfação e a reclamação. A alegria é um estado de espírito inerente às pessoas positivistas e de outras que trabalham muito para enxergar o lado bom do próximo, do presente e do futuro. Que enxergam em seus empregos uma grande benção, que enxergam em seus lares, seja um palácio ou uma tapera, um ninho de amor. Que a alegria faz morada naqueles que, independentemente da sua condição física, conseguem enxergar que a vida é uma abençoada escola de aprendizagem e tem que ser aproveitada ao máximo para o crescimento pessoal e coletivo. 

SORRIR, PERDOAR, COLABORAR, ENSINAR  E AMAR MUITO !

Pro isso vejo, sem surpresa, trabalhadores humildes, pessoas doentes, pessoas com sérios problemas e pessoas com deficiência com largos sorrisos estampados em seus rostos.

Comunidades de surdos que se encontram, grupos de cegos que se reúnem, cadeirantes e tantas outras deficiências que se cruzam aqui e acola, fazendo uma explosão de energia boa.

Uma piada, muitas risadas, uma boa conversa animada e mais risadas. Só falta o barulho da caçamba do caminhão anunciando que a alegria está no ar.