À ESPERA DO DIA “X”

Quando

Por Luiz Carlos Lopes

 

“Nossa prioridade é salvar vidas”. Esse mantra vem sendo repetido há um ano pelas autoridades brasileiras envolvidas no enfrentamento à Covid-19, até por aquelas que desperdiçaram tempo negando a gravidade da doença e não demonstraram empenho em assegurar a compra de vacinas em volume compatível com o tamanho da população. 

Apesar desse discurso centrado na preservação de vidas, o Plano Nacional de Imunização reflete apenas parcialmente essa prerrogativa. A decisão de priorizar os profissionais da saúde e a população mais idosa foi evidentemente acertada. Porém, há grupos tão ou mais vulneráveis aos efeitos do coronavírus e que já mereceriam ser protegidos nas primeiras fases da vacinação. 

Estudo divulgado durante o último Fórum Econômico Mundial, estima que dois terços das mortes pela Covid-19 no Reino Unido foram de pessoas com algum tipo de deficiência. Embora se deva distinguir claramente doença e deficiência, não se pode esquecer que esta última pode vir acompanhada de comorbidades, como déficits cardíacos e pulmonares graves, causados por problemas neuromusculares. O mesmo ocorre com certas Doenças Raras e até com síndrome de Down, que por esses e outros fatores engrossam as estatísticas de mortes pela pandemia. 

Esse conjunto de pessoas soma aproximadamente 1 milhão de brasileiros, mas continua sem saber quando será imunizado. Pelo cronograma divulgado, as pessoas com deficiência permanente (apenas 7,7 milhões nas contas do Ministério da Saúde) receberão a primeira dose somente após serem vacinadas as pessoas entre 60 e 64 anos. Enquanto isso, pelo atual ritmo da campanha, muitas vidas serão perdidas. Alguns diriam: “Fazer o quê? A gente lamenta. Vida que segue”. Mas há indícios de que se possa fazer algo mais que lamentar. 

Se forem convencidos dessa necessidade, estados e prefeituras podem usar sua autonomia para intercalar estes e outros grupos ainda nas primeiras fases da imunização. Defender uma revisão de critérios pode soar como mais um lobby por privilégios, sobretudo quando membros do Ministério Público e até do STF já tentaram se autodeclarar prioritários. Mas parece claro que os argumentos, no caso de algumas deficiências, são técnicos e humanitários. 

Quando o ministro Pazuello foi pressionado a definir uma data para o início da vacinação, respondeu que seria “no dia D e na hora H”. Com a falta de vacinas e a incerteza de quando serão contempladas no calendário, essas pessoas com deficiência sabem apenas que isto deve ocorrer no dia ‘X”. Até lá, resta-lhes a tarefa de se manterem isoladas. E vivas.

autor

  • Luiz Carlos Lopes é jornalista e Analista de Políticas Públicas. Foi secretário adjunto dos Direitos da Pessoa com Deficiência do Estado de São Paulo.

** Este texto é de responsabilidade exclusiva de seu autor, e não expressa – necessariamente, a opinião do SISTEMA REAÇÃO – Revista e TV Reação.

Font Resize