A vida pode ser muito simples e efetiva!

A vida pode ser muito simples e efetiva!

*Por Alex Garcia (Alex Surdocego) com Colaboração: Sandra Marchi

A vida pode ser muito simples e efetiva – para muitas PcD – quando nós desenvolvermos e usarmos ferramentas como o Livre Arbítrio e a Simplificação. Lembrando sempre que isso não é uma norma geral. Obviamente, para as PcD de Maior Complexidade, desenvolver isso é ultra complexo. Que fique bem claro. Eu não sou o tipo de PcD que eleva a – histórica e atual Inclusão “farsante e excludente” aos Céus. Nada disso! Eu sei muito bem avaliar e questionar o desenvolvimento humano, suas reais necessidades para que a vida tenha mais efetividade. Por isso, sempre estou destacando que existem PcDs de Menor Complexidade e existem as PcD de Maior Complexidade!

Bem dito isso, vamos a este texto!

A amiga Sandra Marchi que desenvolveu o Método See Color e que com satisfação eu – Alex Surdocego – colaboro, sempre envia para mim as pesquisas que ela tem contato.
A Marchi disse: – Olá meu amigo, como você está? É o seguinte, fui procurada por Gleice Nazário – Professora e consultora de etiqueta, Líder da célula de Etiqueta Inclusiva (PcD) da EBE – Escola Brasileira de Etiqueta. Ela me contou que está unindo forças no movimento “Sexta Inclusiva”. O objetivo é divulgar e conscientizar os profissionais da etiqueta e outros profissionais de eventos em geral, apresentando a eles o que precisam saber para atender as pessoas com deficiência e com mobilidade reduzida para que tenham a melhor experiência, de forma a gerar memórias afetivas inesquecíveis em um evento, seja ele formal ou não.

Gleice me perguntou sobre as pessoas com deficiência visual. Eu fiquei de perguntar à algumas pessoas e responder algo a ela. Isto só pra iniciar uma discussão sobre o assunto. Então, vou perguntar a você!

Pra você, Alex, como gostaria de ser tratado quando vai a algum restaurante? Você como já viajou pelo mundo, pode dizer com propriedade de um bom conhecedor. O que deveria melhorar quanto ao atendimento à pessoa com deficiência visual?

Compreenda: Gleice Nazário, a amiga da Marchi, que desenvolve a pesquisa, busca Pessoas com Deficiência Visual – creio eu – cegos e baixa visão. Sim! Resta, evidente, que eu – Alex Surdocego – não sou nenhuma destas pessoas. Eu sou uma Pessoa Surdocega, com Hidrocefalia e Doença Rara! Busco aproveitar oportunidades, assim, mesmo não sendo a pessoa que se busca, decidi responder – ou melhor – argumentar sobre isso…

E, então, eu Alex respondi – e como sempre – no meu caso, a resposta é mais longa.

Vamos as minhas respostas:

Olá Marchi! Sabe que eu TE AMO !!! Tu só me traz perguntas boas pra mim me identificar (Risos e Gargalhadas)!

No meu caso tudo isso é ULTRA DISTINTO… Não acontece bem assim… Por ser Surdocego e tal, eu não posso deixar o atendente (Garçom ou Garçonete) “pensar” muito, pois, isso pode dar um rolo dos diabos tendo como referência minha comunicação receptiva e, além disso, o atendente nem vai saber que sou surdocego… Se eu não avisar, claro… Ele vai imaginar que sou cego por conta da bengala e vai falar comigo, mas, eu não vou escutar… Aí tá feito o rolo… E, claro, eu desenvolvi habilidades para sair sozinho – ainda – apesar de estar, hoje, bastante cansado, consigo fazer isso desde menino, então pensei: Hum como vou fazer, resolver, isso…? No meu caso de Pessoa Surdocego ninguém me atende como tu busca saber nas perguntas… Na real, sou eu que já chego “tocando a boiada”.

Eu entro no restaurante – por exemplo – e logo digo a uma pessoa – qualquer pessoa que encontre na minha frente. Eu não sei se é homem, mulher, etc, nada sei desta pessoa que está na minha frente… Eu consigo ver um vulto, uma sombra, mas, enfim, deve ser uma pessoa…

– Olá, por favor, podes chamar um garçom pra mim? Falo isso e fico parado…

Logo vem uma pessoa… Para esta pessoa que está bem perto de mim falo assim:

– Boa noite, meu nome é tal, eu sou uma pessoa surdocega. Vou te explicar rapidamente como se comunicar comigo. Me dê sua mão por favor… A pessoa me dá a mão e eu mostro pra ela como escrever na palma da mão… Então, mostro que o seu dedo indicador é a “caneta” e deve escrever na minha mão as letras de forma uma sobre a outra. Acrescento que ela deve seguir minhas orientações e que estas serão muito simples… Eu vou pedir as coisas e ela mesma vai servir e trazer na mesa pra mim…. E digo: A comunicação será muito “ligeira”, basta seguir o que eu indicar e tudo sairá bem…

Esta parte inicial da maneira como eu comunico é de suma importância. Sim! Eu tenho de ter a pessoa para mim… Sim! E, acima de tudo, eu tenho de passar para a pessoa que eu, Alex, sei muito bem o que estou fazendo, tenho de passar para ela que eu estou amplamente sólido nas minhas posições… E, assim, ela estará muito tranquila, muito calma… A tranquilidade, a calma da pessoa é a base do sucesso nesta relação… Sim, é verdade… A pessoa ao se deparar comigo ela vai pensar um montão de coisa e, em geral, estes pensamentos são mais barreiras do que sucesso… Isso é uma realidade, uma verdade… cabe a mim saber isso e de maneira mais imediata possível buscar “apagar” isso na pessoa… Por isso, a parte inicial é fundamental… Eu tenho de derrubar qualquer pensamento bairrista que porventura a pessoa tenha… No início – portanto – eu tenho de ser ultra afirmativo, ultra efetivo… Se eu “balançar” a casa vai cair…

A comunicação mais básica sempre é – lógico – a primeira que eu mostro para a pessoa. Ensino ela a comunicar pra mim o SIM e o NÃO! Eu já disse a ela que a comunicação será ligeira e o SIM e o NÃO são básicos para isso porque eu mesmo vou fazer perguntas que basta responder SIM ou NÃO.

E digo: – Tu me acompanha até uma mesa? Qualquer mesa… Qualquer lugar está bom… Vou segurar no teu braço e vamos… E, a pessoa, comunica SIM! E seguimos até a mesa que ela escolheu…

Estando na mesa, digo: – Eu costumo comer saladas e legumes de entrada… Tu podes servir pra mim? SIM! Podes temperar como se fosse pra ti que está bom pra mim! SIM! E, não carregar o prato de saladas e legumes… Vou aos poucos… Se eu desejar mais comunico…

Esta questão de comer aos poucos também é básica… A pessoa – eu imagino – que ela pensa que a gente está com muita, mas muita fome… Risos… Risos… Aí, no geral, a pessoa carrega o prato até quase transbordar… Com o prato trasbordando é muito complicado agir com os talheres… A gente – eu mesmo – acabo derrubando a comida do prato… A maneira mais sensata é não carregar o prato, e isso, tenho de comunicar para a pessoa…

Bem, feita a comunicação, a pessoa vai e logo volta com o prato de saladas e legumes…

Eu digo: – Para beber tu me traz um suco de limão sem açúcar… Tem este suco? A pessoa comunica na minha mão: SIM!

Enquanto sigo devorando a salada e os legumes, a pessoa volta com o suco!

No que ela traz o suco eu aviso:

– Em dez minutos tu regressa aqui… Bom… Ela se vai… E, eu sigo na salada e nos legumes…

Em dez minutos ela está ali novamente… Ela me toca na mão… eu digo:

– Tem massa? SIM… Molho? Arroz… SIM SIM… Qual carne que tem? Aí ela escreve as carnes…

Logo eu já sei o que tem e se gosto ou não gosto…. Não sou de ficar comendo tudo o que tem ali… Eu já sei do que gosto e indico o que gosto… PRONTO!

E digo: Sirva isso mais isso e isso… Aguardo…

A pessoa faz tudo direitinho… E aí de novo: Eu vou comer e tu regressa aqui em 20 minutos…

E assim vai à noite… Ou pode ser um almoço, enfim, tudo assim, até mesmo numa churrascaria – por exemplo – que tem vários tipos de carne eu vou pegando um pedacinho de cada uma e vou comendo com saladas e legumes que foram já servidas pra mim…. Na churrascaria – geralmente – a carne vem no espeto, ou seja, o garçom traz o espeto ali na tua mesa no teu prato e aí ele corta…. Logicamente, sou Gaúcho e já sei disso e sei muito bem que na prática eu tenho de cravar o garfo ali, onde ele vai cortar para prender a carne… Acerto tranquilo… Se no caso, eu erro, ou está difícil de fazer o movimento, o garçom segura o espeto com uma das mãos e com a outra ele mesmo pega o meu garfo com a minha mão junto e leva ali onde tem de cravar…. Ele encosta, e claro, eu sei que devo empurrar o garfo… Deu, tudo tem maneira na boa… Esta pessoa da churrascaria eu já orientei – lógico – o meu procedimento é sempre o mesmo…
Eu tenho de ter as rédeas num primeiro momento para tudo dar certo!

Fim de tudo…

Logo digo: – Tem Pudim? Doce, sobremesa… Sim ou Não… Se SIM, ótimo, ela busca pudim… Se NÃO eu digo: – Qual tem? Ela escreve: Sagu com Creme… ÓTIMO, pode trazer.
Bem, fim do jantar, a noite está no fim… Tenho de regressar ao Hotel… Pagar a conta claro (ainda não me dão a janta de presente).

Eu digo: – Vamos pagar a conta? E a pessoa me guia até o caixa, e lá, ela escreve na minha mão o valor… Pago com cartão débito, FIM…

E digo: – Por favor, chama um Taxi… O Taxi é chamado (sempre tem Taxi na frente do restaurante). Me acompanhe embarcar no Taxi? SIM!

PIMBA, DEU! Logo estou no Hotel… Comunico brevemente o Taxista de minhas condições e digo para me ajudar a descer e entrar no Hotel – perto da recepção – e lá eu pago a corrida…

Assim que sempre fiz e faço… Logicamente, tudo o que escrevi valem para quando estou sozinho…. Se estou acompanhado é diferente… Se tem uma pessoa já comigo – por certo – me conhece… Assim tudo facilita…

Pra mim – portanto – o bom atendimento é aquele que segue o que eu indico… Fácil, sem segredos…. Indico e tu faz! Pimba! Excelente, efetivo!

Melhorias? No meu caso de Pessoa Surdocega, nada a melhorar, nada! Pois o X da coisa é “obedecer”, e, falamos a verdade…. Sou amplamente comunicativo… Para um garçom-garçonete não me entender e me atender mal só se for muito preguiçoso ou estar mal intencionado… Qualquer criança de 12 anos me entende e atende…

NUNCA em minha vida… Nas viagens e tal, NUNCA fui mal atendido em restaurantes (jantar ou almoço), NUNCA… Sempre deu tudo show… Certa vez – mas numa lanchonete – o cara tentou me enganar… Mas somente esta vez, e era numa lanchonete de rua…

Muita atenção: Todas estas orientações-reflexões são minhas – INDIVIDUAIS! Podem servir como Norte… Sim, podem… mas, afirmo que a individualidade, as habilidades e barreiras de cada pessoa devem ser o ponto de partida… Eu, sou EU…. Outro é outro… No início afirmei que existem os de Menor Complexidade e os de Maior Complexidade… Sou uma pessoa de Maior Complexidade… Construí meios e ferramentas, e aqui tens exemplos, muito embora nada nasceu do dia para noite… Tudo dependeu e depende de dedicação, muita dedicação… Que isso fique bem claro… Não sou Eu a pactuar com ações Inclusivas falsas e desajustadas que, na realidade, “escondem – maquiam” a real EXCLUSÃO!

Resposta da Marchi:

– Ah é Alex!!!!! E por isso que ADORO você!!!! Você simplifica ao invés de complicar, e assim se comunica, e muito bem!!! Muito obrigada meu querido amigo! Como é bom ter te conhecido, agradeço a Deus. Que Deus te abençoe. Grande abraço e muito obrigada pela resposta!!!

E, eu, disse: – Sim! Para que eu pudesse estar aqui hoje o aprendizado efetivo foi simplificar, pois, ficou evidente que o Mundo e as Relações (Pessoas) já eram complexas e – por certo – iriam piorar… E se eu agisse de maneira a ampliar isso estaria “lascado”. Desenvolvi – portanto – desta maneira: Simples – Direta – Sem enrosco e venci, sigo vencendo… Há mais de 30 anos faço desta maneira que te escrevi… Esta maneira vale pra tudo que imaginar – por exemplo – na recepção de um hotel… Num Aeroporto… Numa Rodoviária… Etc, etc. Não tenho dúvida de que uma pessoa cega ou uma pessoa com baixa visão, ao receber as perguntas da pesquisa terá muito a dizer – pois – ela pode escutar perfeitamente bem para manter uma intensa comunicação com um garçom, garçonete… Enfim, cada um tem a sua existência…

Obrigado e – por favor – compartilhe! Alex Garcia e Sandra Marchi.

• Alex García – Pessoa Surdocega, com Hidrocefalia e Doença
Rara. No site da Agapasm estão publicados inúmeros textos: www.agapasm.com.br

** Este texto é de responsabilidade exclusiva de seu autor, e não expressa, necessariamente, a opinião do SISTEMA REAÇÃO – Revista e TV Reação.