Acessibilidade nos roteiros turísticos deve ser para todos !

Qualquer roteiro pode ser oferecido aos turistas em potencial. Ao contratá-lo, o interessado deve comunicar à empresa suas limitações para saber se aquela proposta é viável. Uma pessoa asmática ou com problemas cardíacos talvez tenha dificuldades em montanhas de grande altitude ou em atividades que demandam muito esforço. O roteiro escolhido deve ser adequado à pessoa e a pessoa ao roteiro.

Esse é o pensamento que norteia o projeto social Expedições Inclusivas –  facebook.com/expedicoesinclusivas – cuja proposta é difundir a cultura inclusiva no turismo de aventura, conscientizando empresas e a sociedade como um todo sobre a realidade das pessoas com deficiência. Ana Borges, idealizadora e coordenadora do projeto, prepara roteiros e atividades nesse campo: “Levamos em conta o potencial inclusivo dos locais turísticos e/ou das atividades que iremos praticar”, explica.

A ideia do projeto é promover a convivência entre todas as pessoas. Os grupos não são separados porque se acredita que a inclusão deve ser feita pela sociedade como um todo. “Fazendo um roteiro só para deficientes visuais, para cadeirantes ou com próteses isolamos o grupo não dando a oportunidade de pessoas sem deficiência conviverem com essas pessoas. Procuramos roteiros que já são comercializados e que tenham a possibilidade da participação de deficientes visuais, cadeirantes e/ou amputados. Dessa forma, sensibilizamos as empresas que nos atendem para que atendam esse público também”, comenta a coordenadora.

Nos últimos meses de agosto e setembro, por exemplo, as viagens foram para o Monte Elbrus, na Rússia, com um grupo de 10 pessoas, entre clientes e guias, e ao Kilimanjaro, na Tanzânia, com 18 pessoas, fora 30 africanos que eram responsáveis pela alimentação e bagagens.

Ana considera que os hotéis em que se hospedaram e locais públicos, como museus e restaurantes até que tinham acessibilidade em relação a banheiros, rampas e elevadores de acesso para cadeirantes, mas, em outros casos, a situação é difícil: “O Metrô de Moscou é uma loucura até para quem não tem deficiência”, comenta. “Só há placas em dois idiomas russos e quase ninguém fala inglês, aliás nem no aeroporto. Creio que com a Copa de 2020 algumas melhorias quanto à acessibilidade ainda serão feitas”, espera.

Já na África, a situação é mais difícil. Apenas no aeroporto de Johanesburgo há banheiros adaptados. “O Kilimanjaro é uma montanha bastante visitada por um público bem específico, o de montanhistas, o que não favorece a preocupação com a acessibilidade, tendo em vista que o número de pessoas com deficiência que praticam o montanhismo ainda é pequeno. Além disso, com exceções de grandes centros, a África em geral é um continente onde a pobreza ainda impera”, analisa.

No projeto, são praticadas atividades de aventura, o que leva os participantes a locais inóspitos e com muito contato com a natureza. Esses elementos, segundo ela, fazem com que se repense a questão da acessibilidade. “Acreditamos que a acessibilidade, principalmente na natureza, é uma questão atitudinal, ou seja, as pessoas tanto com deficiência, quanto as sem deficiência, têm que, em primeiro lugar, ter vontade de realizar, com criatividade, sem exigência de que o local seja acessível, afinal estamos tratando de natureza. Exigir um piso tátil para deficientes visuais em uma trilha pode afetar o meio ambiente, então podemos resolver isso treinando guias para tratar com esse público, sem que haja necessidade de piso adaptado”, diz Ana.

As pessoas com deficiência da equipe do projeto se preparam fisicamente com treinos em academia e tecnicamente, praticando a atividade que realizará durante a expedição, como canoagem e montanhismo. Há uma equipe fechada na qual 13 pessoas têm deficiência e, de acordo com cada viagem ou atividade, vão todos ou alguns escolhidos pela sua condição física e técnica da atividade a ser praticada.

Um desses participantes é Ed Carlos Gomes, massoterapeuta, com baixa visão, que participou de excursão à Bolívia, além de já ter ido à Atibaia/SP e São Luiz do Paraitinga/SP. Mais do que a acessibilidade física dos locais de visitação, ele se queixa que as pessoas de atendimento não têm muito preparo na abordagem dos turistas com deficiência, ficam “cheias de dedos”. Para ele, em termos de acessibilidade, o mais importante é a acolhida, “devem abraçar as pessoas com deficiência como quaisquer outras”. Gomes considera que o tratamento não deve colocar esses turistas em um “pedestal”, nem considerá-los como “heróis”.

A próxima expedição do grupo, se tudo der certo, deverá ser para o monte Aconcágua, na Argentina, a montanha mais alta das Américas, em janeiro de 2018.  O roteiro começará na cidade de Mendoza, onde encontrarão o grupo, alugarão equipamentos técnicos de montanhismo e tirarão a permissão para a viagem. No terceiro dia irão para Penitentes, onde se iniciará a subida da montanha. A partir daí serão em torno de 16 dias, passando por seis acampamentos até o topo, e mais um na volta.