Amor próprio influencia escolhas e tem impacto direto em resultados

Ilustração Amor próprio

Todos nós já sabemos que as escolhas e decisões que tomamos diariamente determinam nossos resultados, mas será que também temos a clareza de que elas têm raízes no quanto nos alimentamos de amor próprio?  

Inúmeras vezes nos determinamos a iniciar uma dieta, parar de fumar, ir à academia, dar fim a um relacionamento tóxico ou tirar do papel um projeto que tem tudo para dar certo, mas encontramos uma resistência inconsciente que nos paralisa diante do que precisa ser feito. Então, que força inconsciente é essa que está acima da mente objetiva?  

Segundo o psicanalista Nickson Gabriel, especialista em jogos do autoconhecimento, isso pode ter uma relação direta com a falta de amor-próprio ou com a confusão que fazemos entre amor-próprio e egoísmo.

Com base nos princípios do jogo milenar de autoconhecimento Maha Lilah, ele explica que, sim, há uma total relação entre querer, fazer e amar a si próprio. Este jogo pode elucidar essa questão existencial profunda que toca a cada um de nós.  

O jogo concebido pelos rishis (sábios indianos) há mais de 2000 anos é um tabuleiro com 72 casas, representantes de 72 aspectos da consciência, entre elas aspectos de “luz” e “sombra” que todos carregamos. Jogo que tem auxiliado milhares de pessoas no Brasil e no exterior a se localizarem dentro de suas jornadas rumo ao que o jogo considera seu ponto principal: a abertura do coração.  

Para falar sobre o tema do amor-próprio, separei aqui – para percorremos juntos no tabuleiro da vida – três casas do grande jogo. Vamos descobrir se você está dentro de uma delas?

Amor-próprio e a raiva 

  É onde tudo começa! Toda criança nasce com o desejo de ser amada. Em algum estágio da nossa trajetória, vivenciamos um choque de desamor. É a ferida primordial. Junto com a dor, a criança sente raiva. Raiva dos pais. Junto com a raiva, a culpa. A culpa de sentir raiva de quem ela também ama. Junto da culpa, o “auto ódio”. Afinal, se não fui amado pelos meus pais como eu esperava é porque tem algo de errado comigo. Aqui nasce a auto destrutividade. Como sou culpado, vou me punir antes que a vida me puna. 

Na casa da ira, encontramos a raiz de muitos nãos que damos a nós mesmos. Quando me sinto culpado, é como se eu estivesse devendo para a vida. Então, não posso receber da vida porque, se eu receber, estarei ainda mais em dívida.  

A chave é se observar, identificar a culpa e dar direção para a raiva contida, que pode se tornar energia de trabalho e realização. Negar a raiva, não funciona, faz com que ela se volte contra si mesmo pela auto destrutividade. Direcionada de forma positiva, faz crescer nossa capacidade de lutar pelo que nos faz bem, saber dizer não quando necessário e saber dar limites.  

O amor-próprio e a cobiça 

A criança cobiça o amor dos pais e essa é sua primeira manifestação. Acreditando que não fui amado porque tinha algo de errado comigo, inconscientemente começou a idealizar um “Eu”. Aquilo que posso vir a ser para que, finalmente, eu receba esse amor. Essa é a segunda cobiça, quem irei me tornar para que finalmente eu possa ser amado.  

Colocamos toda a energia vital nessa direção, porque – para a criança – os pais são a sua vida, o mundo. Ficamos obstinados em realizar esse “Eu”. Essa obstinação nos faz desconectarmos da espontaneidade, da natureza e, principalmente, de nossa real necessidade. 

A cobiça é uma tentativa de tapar buracos de inúmeras formas. O desafio é que, para ir em direção à nossa necessidade autêntica, precisamos esbarrar em sentimentos desafiadores e, porque não dizer, dolorosos. Afinal, tudo aquilo que cobiçamos na vida não nos preenche.  

Cuidar de si mesmo é ir em direção aquilo que realmente nos preenche. E por que não fazemos isso? Porque ir em direção à real necessidade é ter que sentir as feridas e dores emocionais que, em algum momento, por nos sentirmos impotentes, preferimos esconder e anestesiar.  

Para interromper esse círculo é preciso cortar o mal pela raiz. A cobiça somente poderá ser dissolvida quando entramos em contato com a real necessidade que está por trás dela. Ela nos desconecta daquilo que realmente necessitamos, ou seja, daquilo que, de fato, pode suprir nossa carência. Portanto, a cobiça é uma distração que nos leva a buscar por coisas, pessoas e experiências que não nos preenchem e apenas nos afastam daquilo que realmente importa. 

Mas, para irmos na direção correta, é preciso ter coragem de sentir e acolher nossas próprias dores. Isso é ser amigo de si mesmo: esta é a base do desenvolvimento do amor-próprio. Se reconhecemos a necessidade, podemos buscar ajuda e nos cuidar. 

O amor-próprio e a compaixão 

No tabuleiro do Maha Lilah existem algumas espadas que nos fazem ascender no jogo. Quando entramos nessas casas, subimos. Essa é a espada que, em sânscrito, chama-se Daya: a compaixão, a misericórdia e o perdão. É a energia amorosa indo em direção às nossas profundezas, em direção às partes frágeis e solitárias que carregamos. Não por acaso, ela também pode ser chamada de casa do perdão, porque a culpa – como vimos nas casas anteriores – é um dos maiores inimigos do amor-próprio.  

O convite é para a autoaceitação, ou seja, aceitar que não somos perfeitos. Todos temos defeitos. A exigência da perfeição é uma idealização. Aceitando meus defeitos e tirando a energia de culpa, abro espaço para reconhecer o meu valor, minha singularidade. Crio empatia com a minha ferida, abro espaço para o acolhimento. Me amo assim, exatamente como sou neste momento. Com defeitos e qualidades.  

Para haver auto acolhimento, a parte a ser acolhida precisa ser exposta. O alvo da compaixão precisa aparecer. Essa disposição é um grande passo no desenvolvimento de um amor-próprio de verdade. 

Essas são apenas três casas do jogo que possuem relação direta com o amor-próprio. De acordo com os preceitos do Maha Lilah, o jogo é uma grande jornada em direção a abertura do coração. 

Só posso dar para o outro e para o mundo aquilo que sou capaz de dar a mim mesmo. Doar é transbordar. Cuidar primeiro de si mesmo não é ser egoísta, é trabalhar para doar o que se tem, de verdade, para o outro. 

A essência do amor-próprio é dizer “sim” a si mesmo. Para isso, não é preciso perfeição. É preciso estar atento à régua que você coloca para se sentir merecedor das coisas boas da vida. Diga sim para a sua saúde, para relacionamentos saudáveis, para o prazer, para as amizades, para o descanso e principalmente para sua criança interior.  

Seja o seu melhor amigo! 

Nickson Gabriel 

Psicanalista e terapeuta especialista em jogos de autoconhecimento. Criador da metodologia “O Jogo da Vida”, é diretor-fundador do Instituto O Jogo da Vida, que através de seus cursos já capacitou mais de 4000 psicólogos e terapeutas de diversas partes do Brasil e exterior, para atuarem com jogos no processo de desenvolvimento humano.  

Também é constelador, teatroterapeuta e storyteller, com experiência em gestão e implantação de projetos educacionais na rede pública e privada. Atua fazendo pontes entre a psicologia profunda, jogos, e espiritualidade prática.