ANDEF: 36 anos revelando talentos nos esportes paralímpicos ! Criada em 1981, associação de Niterói/RJ treinou vários dos medalhistas brasileiros

Uma associação ligada desde a sua origem aos esportes e que foi construída ao longo das últimas décadas, revelando talentos em modalidades paralímpicas e, ao mesmo tempo, atendendo grande parte das pessoas com deficiência da cidade de Niterói, no Estado do Rio de Janeiro e de outras regiões do Brasil: esta é uma síntese da ANDEF – Associação Niteroiense dos Deficientes Físicos, criada em 1981 pela médica neurologista Tânia Rodrigues e um grupo de pessoas da cidade carioca.

Desde o início, a ANDEF investiu nas atividades esportivas – no começo, o basquete para cadeirantes e o futebol para amputados, que no início dos anos 80 davam as primeiras aparições no País. Nos últimos 3 anos a entidade foi atingida pela forte crise econômica que se instalou no Brasil e com intensidade, em particular, com a crise no Estado do Rio. O número de funcionários foi cortado em dois terços e os atendimentos diretos caíram pela metade, revela João Batista Carvalho e Silva, gestor-geral da ANDEF. “Fomos muito atingidos pela crise. Estamos atrás de novas alternativas e temos uma gestão com visão profissional. Tenho certeza que a ANDEF, passado esse período de reestruturação, voltará a crescer com força”, diz Carvalho e Silva.

Além dos esportes, outra prioridade para a ANDEF é a geração de empregos para pessoas com deficiência e o apoio para que elas conquistem a inserção no mercado de trabalho. A sede atual da entidade ocupa um terreno de 42 mil m² em Niterói/RJ e se denomina um Complexo Esportivo e Social. Foi construída em 2002 e oferece piscina, quadras de basquete, campo de futebol, locais para prática de halterofilismo, um hotel com capacidade para hospedar 64 pessoas e uma cozinha.

O início foi bem mais modesto. Apenas em 1991 a ANDEF teve sua primeira sede própria, uma casa alugada no bairro de Icaraí, onde começou o atendimento na área de reabilitação. Foi em 1995 que a ANDEF deu um salto nos esportes. Naquele ano, foi criado o CPB – Comitê Paraolímpico Brasileiro, que começou suas atividades instalado na sede da ANDEF. Na época, compartilhar a sede com o CPB fazia sentido, isto porque a ANDEF era uma das associações que mais tinha paratletas formados e competindo em torneios no Brasil e no exterior.

 

Pioneirismo nos esportes

Em 1983, ainda no começo das atividades, a ANDEF realizou os VIII Jogos Nacionais em Cadeiras de Rodas, com o apoio da ANDE – Associação Nacional de Desporto para Deficientes. Participaram 500 paratletas de 12 estados brasileiros.

Dois anos mais tarde, foi criada uma nova modalidade esportiva com o apoio da ANDEF em Niterói: o futebol para amputados, o chamado Futebol de 5. “O time da ANDEF sempre foi a base para a Seleção Brasileira” nesta modalidade, informa o site da entidade. A Seleção Brasileira de Futebol para amputados foi tetracampeã mundial, conquistando os títulos de 1999, 2000, 2001 e 2005, com atletas da ANDEF formando a base da equipe.

Em 1996, ocorreram dois fatos marcantes. A ANDEF comprou o terreno de 42 mil m², onde instalaria o primeiro Centro de Treinamento Paralímpico do Brasil. No mesmo ano, ocorreu a Paralimpíada de Atlanta, nos Estados Unidos. Como o CPB estava sediado na entidade em Niterói/RJ, todo o planejamento para a participação dos atletas brasileiros na Paralímpiada de Atlanta foi feito na ANDEF. O atleta Douglas Amador, paralisado cerebral e treinado na ANDEF, conquistou 3 medalhas no Atletismo em Atlanta, sendo 1 de prata (200 metros) e 2 de bronze (100 metros rasos e salto em distância). Amador voltou a competir na Paralimpíada de Sydney na Austrália, em 2000, quando foi capitão da Seleção Brasileira no Futebol de 7 (para paralisados cerebrais). O Brasil conquistou medalha de bronze.

Outro destaque revelado em Atlanta foi o atleta Anderson Lopes, também paralisado cerebral. Ele conquistou medalha de bronze no lançamento de disco. Lopes voltou a ganhar o bronze em lançamento de disco na Paralimpíada de Sydney em 2000. Nos Jogos Parapanamericanos de 1997 em Mar Del Plata, na Argentina, Lopes conquistou o ouro e tornou-se recordista mundial no lançamento de disco e em 1999, nos Jogos Parapanamericanos do México, ele ganhou medalhas de ouro em lançamento de disco, peso e dardo.

Outra atleta que está entre os destaques da ANDEF é Márcia Malsar, primeira mulher brasileira a conquistar uma medalha de ouro em uma Paralimpíada, a de Nova York/Stoke Mandeville em 1984. Márcia venceu então no atletismo, conquistando um ouro (200 metros rasos) e um bronze (60 metros rasos). Na Paralimpíada de Seul, em 1988, Márcia conquistou medalha de prata no atletismo (100 metros rasos). Paralisada cerebral, ela treinou na ANDEF na infância a adolescência. Na Paralimpíada do Rio 2016, Márcia conduziu a tocha olímpica na abertura dos jogos no Estádio do Maracanã.

O gestor-geral da ANDEF, João Batista Carvalho e Silva, lembra que alguns nomes de destaque, tanto no Comitê Paralímpico Brasileiro como no Comitê Paralímpico Internacional, começaram as carreiras na instituição. Talvez o mais famoso seja o atual presidente do Comitê Paralímpico Internacional, o brasileiro Andrew Parsons. Nascido em 1977 no Rio de Janeiro, Parsons trabalhou na ANDEF como estagiário em 1997, lembra Carvalho e Silva.

Em 2001, já com grande parte das obras do Complexo Esportivo concluídas, a ANDEF sediou o Campeonato Mundial de Futebol para Amputados (Futebol de 5). O Brasil conquistou o título, em uma partida assistida por 5 mil pessoas na arquibancada.

Em 2002, a sede do CPB deixou Niterói/RJ e foi para Brasília/DF. Em 2016, o Centro de Treinamento Paralímpico Brasileiro foi inaugurado em São Paulo/SP, no bairro da Vila Guarani/Imigrantes, com uma área construída de 95 mil m², à margem da Rodovia dos Imigrantes.

Mercado de trabalho

Uma das finalidades da ANDEF é fomentar o emprego das pessoas com deficiência e a sua inserção no mercado de trabalho, diz o gestor-geral. “Nós chegamos a ter mil funcionários, hoje temos 300. Isto ocorreu por causa da recessão”, diz Carvalho e Silva.

Em 1989 a ANDEF assinou seu primeiro convênio para o emprego da mão-de-obra da pessoa com deficiência. Na época, a operadora estatal de telefonia do Estado do Rio de Janeiro, a Telerj, passou para a ANDEF a administração do posto telefônico de Niterói, gerando 14 empregos. Em 2003, a ANDEF assinou convênios para contratos de trabalho com a Secretária da Fazenda do Estado do Rio de Janeiro, Procuradoria-Geral da República, Conselho Regional de Contabilidade-RJ e Instituto Vital Brazil.

Outro destaque da ANDEF é o Grupo de Danças sobre Rodas “Corpo em Movimento”. Criado em 1999, com o bailarino Carlinhos de Jesus como coreógrafo da companhia, o programa evoluiu nos anos seguintes, treinando pessoas com e sem deficiência para dançar. O “Corpo em Movimento” apresentou-se na Paralimpíada de Sydney 2000, na cerimônia de encerramento da Paralimpíada de Londres em 2012 e na abertura e encerramento da Paralimpíada do Rio 2016, entre outros eventos.

A entidade também possui uma publicação trimestral, a Revista Vitória, que começou suas atividades em 2005.