Aonde estão as representatividades políticas das pessoas com deficiência?

  • Por Adriana Buzelin

 

Não é de hoje que percebo que o universo das pessoas com deficiência é composto por nichos. Segmentados e segregados, as pessoas com deficiência, não se unem em prol da tão desejada inclusão social.

Essa afirmação provavelmente lhe causará estranheza, mas são em raríssimas exceções que estes nichos de pessoas se unem para conseguir algo em que beneficie a classe. Vez ou outra, se unem, timidamente, para que uma lei seja cumprida, leis estas que são muitas vezes, com alternâncias de governo e mesmo protegidas pela LBI, lesadas com tentativas de descumprimento através de projetos de leis estaduais e municipais.

Essa desunião foi claramente percebida através das últimas eleições municipais deste ano, pois nunca tivemos tantos candidatos com algum tipo de deficiência disputando um cargo no legislativo e no executivo em todo Brasil. Muitos com mandatos coletivos, o que foi o grande diferencial destas eleições, como muitos outros representantes da classe que colocaram seus nomes na disputa, a fim de defender os interesses da nossa classe. Porém, muitos nomes não foram eleitos e foram agredidos verbalmente com fortes discursos recheados de ódio.

Frases como: “Nada sobre nós sem nós”, caem por terra quando nos deparamos com os resultados destas eleições. Mas, para vocês saberem como surgiu essa frase, terei que ir na história da luta das pessoas com deficiência.

O movimento “Nothing about us without us” surgiu como lema no início do século XX nos Estados Unidos e depois se espalhou pelo mundo inteiro no intuito de representar o movimento das pessoas com deficiência e também de muitas minorias sociais, dando visibilidade à causa da inclusão e aos direitos que eram negados essas pessoas, inclusive o de participação social em sua plenitude.

Um grande exemplo dessa desunião, foi a campanha promovida pelo Sistema Reação, onde se usou a hastag #70MILNAODAMAIS, para demonstramos nossa insatisfação com o teto – valor limite – na compra de carros para que pessoas com deficiência e familiares, para que os mesmos possam ter direito a isenções, valor este que se mantêm desde 2009 e precisa ser ajustado com urgência.

Em uma das matérias anteriores da Revista Reação, o trecho da fala de Rodrigo Rosso, presidente da ABRIDEF, traduz que: “o chamado segmento PcD espera que pelo menos dois assuntos sejam pautados na próxima reunião do órgão (Confaz), ou pelo menos colocado em pauta: o primeiro, o reajuste do valor teto para o veículo 0 Km que pode ser comprado por pessoas com deficiência e familiares – afinal já se vão 11 anos que, pelo Convênio 38 do ICMS do CONFAZ, as pessoas que tem o direito à essa isenção só podem adquirir veículos com valor inferior a R$ 70.000,00 (setenta mil reais). E o outro assunto, seria a prorrogação do direito a esse benefício de isenção do ICMS que se encerrará dia 31 de dezembro deste ano”. Entretanto, a desunião da classe é tamanha que pautas como estas, mesmo de extrema importância, apesar de muito divulgadas, ficam em segundo plano.

Mas o que isso tem a ver com o que a desunião da classe que eu estava falando ?

Situações como estas, para mudança de leis, se faz necessária uma pressão popular junto ao CONFAZ, aos governadores de todos os estados e seus Secretários de Fazenda para que, não só seja mantido esse direito de isenção e o benefício do convênio, como também o valor teto seja aumentado pelo menos pelos índices de inflação dos últimos 11 anos.

A falta de representatividade da classe de PcD nos torna mais vulneráveis e a reivindicação destes direitos. É mais difícil alcançarmos nossos objetivos. Algo que visivelmente não acontece em outras classes, consideradas minorias, como os LGBTQI+, por exemplo, que tiveram votações expressivas em todo Brasil.

Talvez até soe muito pessoal meu artigo, pois concorri ao cargo de vereadora por Belo Horizonte/MG nesta última eleição e não fui eleita, não por falta de trabalho destinado a este universo, afinal, por anos me dedico a projetos de comunicação voltados para inclusão social, como ser colunista desta revista, editora do portal Tendência Inclusiva, apresentadora do canal Vidas em Cenas no Youtube, produtora do programa Viver Eficiente e ter participado de projetos, como o Very Special Arts em todo o Brasil na década de 90. E para quem não me conhece e me julga erroneamente pela minha representação como artista, modelo inclusiva e ser mergulhadora adaptada, acreditando que não entendo o que a maioria das pessoas com deficiência enfrentam, ou seja, me rotularam como uma pessoa que não enfrenta as mesmas dificuldades esquecendo meus 27 anos de cadeirante e minha história de superação e luta. Um preconceito às avessas.

E não sou novata neste ramo da política, concorri ao cargo de vice-governadora do estado de Minas Gerais em 2016, sendo a primeira mulher cadeirante, tetraplégica, a se propor a defender a inclusão social em sua totalidade. 

Entretanto, nomes como Valdireny Mira, ativista social como eu, mulher com doença rara popularmente conhecida como ossos de vidro, presidente Fundadora da ASADDEP – Associação de Aprendizagem e Desenvolvimento da Pessoa com Deficiência e Doença Rara de Paulínia, Conselheira Estadual dos Direitos das Pessoas com Deficiência representando as pessoas com doenças raras, foi candidata a vereadora por seu município e também não foi eleita. A julgam também talvez por acreditarem que ela seja incapaz de defender seus semelhantes. O tal capacitismo que significa subestimação da capacidade e aptidão de pessoas em virtude de suas deficiências.

São muitos casos, mas apenas citei dois exemplos para exemplificar, pois se fosse citar todos, este artigo não teria fim. 

Percebo claramente que, talvez a frase que mais nos represente seja: “Pessoas com Deficiência não votam em Pessoas com Deficiência”! Talvez por julgarem aqueles que têm a coragem de se candidatar e entrar para este mundo da política como incapazes de serem representados pelo seu semelhante, talvez por se contaminar por aquele discurso errôneo de que se candidatar é autopromoção. Talvez pela abstenção às urnas, por se acomodar e não sair da zona de conforto para mudar nossa realidade. Talvez a omissão e a desunião da classe seja cultural, mas não vamos generalizar, pois muitos lutam por melhorias apesar de tanta hostilidade. O fato é que sem representatividade estamos perdendo espaço e seremos representados por aqueles que não sofrem na pele tanto preconceito, intolerância e desigualdade de direitos e oportunidades. No entanto, infelizmente, a grande verdade é que o assistencialismo ainda continua sendo o grande mal das pessoas com deficiência.

Ainda tenho esperança que o capacitismo não vigore, que tenhamos mais pessoas com deficiência qualificadas exercendo profissões que por muitos anos não eram destinadas a nós. Que sejamos protagonistas e não coadjuvantes. Que sejamos perseverantes e resilientes para continuarmos lutando por melhorias e, principalmente, por cumprimento das leis já conquistadas. 

 

Foto: Lucas Prates / Hoje em Dia

 

  • Adriana Buzelin é ativista social, apresentadora do “Vidas em Cenas” e criadora da revista digital “Tendência Inclusiva”.
  • www.youtube.com/c/VidasemCenas
  • www.tendenciainclusiva.com.br 
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