Atletas de Power Soccer vivem esperança de participar das Paralimpíadas

Vinte e oito de janeiro de 2018. Esta foi a data em que o Comitê Paralímpico Internacional (IPC) divulgou, em Bonn, na Alemanha, uma notícia que pode mudar o rumo dos praticantes de Power Soccer no Brasil e no mundo. Pela primeira vez, a modalidade, também conhecida como Futebol em Cadeira de Rodas Motorizada, foi aprovada para fazer parte da segunda e última fase de escolha dos esportes que integrarão as Paralimpíadas de Paris´2024.

Desde então, milhares de atletas têm se mostrado esperançosos com a oportunidade de virarem paralímpicos e contam os dias até setembro de 2018, quando o Comitê informará quais esportes que seguiram para esta fase final estão de acordo com os requerimentos técnicos do IPC e terão chance de estar no programa oficial dos Jogos Paralímpicos de 2024. Vencida essa etapa, o Power Soccer esperará até janeiro de 2019, quando a entidade decidirá a programação oficial do grande evento, para saber se participará ou não dos Jogos em Paris.

Animado em receber uma resposta positiva está o jogador carioca Lucas Dutra Fernandes, de 14 anos, que pratica a modalidade desde 2011 e já competiu em 15 torneios por clubes e pelas seleções brasileira e francesa, em ginásios do Brasil, Argentina, Uruguai, Canadá, Portugal e França. Há 4 anos, defende o Rio de Janeiro Power Soccer Clube. Segundo ele, essa é a chance do esporte ganhar ainda mais visibilidade e competitividade, seja através da entrada de mais patrocinadores, do aumento na quantidade de países e jogadores praticantes ou da criação de novas equipes e competições. “Para mim, o Power Soccer é um esporte muito prazeroso. Adoro viajar para campeonatos, conhecer pessoas, interagir com meus colegas de time e, principalmente, jogar. Se ele se tornasse paralímpico, eu ficaria ainda mais estimulado a buscar melhores colocações nos campeonatos, uma vez que a modalidade se tornaria muito mais profissional”, revela Lucas, que sonha em disputar uma Paralímpiada.

Sentimento semelhante também é o da atleta cearense Daiane Nascimento, de 28 anos. Diagnosticada com Polineuropatia e goleira titular da seleção brasileira, Dai, como é apelidada por seus colegas, pratica a modalidade desde 2014 pelo Noho Power Soccer, com sede em Fortaleza. Desde então, participou de três campeonatos brasileiros: em 2014, 2016 e 2017, ano de melhor campanha do time na competição — 3 vitórias e 1 derrota, resultado que garantiu a equipe na disputa de 3º lugar do torneio. Para ela, o reconhecimento do Power Soccer como paralímpico premiará a dedicação dentro e fora de quadra que ela e os demais praticantes da modalidade têm tido ao longo dos anos: “significaria mais uma vitória, conquistada por todos nós que participamos do esporte”.

Outro atleta na expectativa é o argentino Valentín Olmedo, de 18 anos. Nascido na cidade de Rosário e diagnosticado com Atrofia Muscular Espinhal (AME), ele é fanático por futebol e viu no Power Soccer uma forma de deixar de ser espectador para virar protagonista. Praticante da modalidade desde 2013 pelo Máquinas Guerreras — equipe ligada ao Rosário Central, seu clube de coração — Valentín já teve o privilégio de participar de inúmeras competições, tais como Libertadores, Campeonato Argentino, Copa América, Copa Sul-Americana e Copa do Mundo. No entanto, apesar de ter atuado em tantos torneios, o goleiro titular da seleção argentina não esconde o entusiasmo de que seu esporte possa ser considerado paralímpico e que ele possa competir no evento. “Ficaria muito emocionado se o Power Soccer fosse considerado paralímpico, pois demonstraria que o esporte está crescendo muito e poder participar dos Jogos pelo meu país seria uma alegria ainda maior, algo extraordinário”, afirma.

 Para que o sonho de Lucas, Daiane, Valentín e dos demais praticantes do esporte possa se tornar realidade, a Federação Internacional de Futebol em Cadeira de Rodas (FIPFA) deve preencher e enviar ao IPC, até o próximo dia 9 de julho, uma papelada contendo uma série de questões relativas à modalidade — governança esportiva, regras e regulamentos, prestação de contas, aceitação das normas do Código Mundial Antidoping (WADC) e aplicação de medidas para garantir a eficácia do mesmo, situação do esporte pelo mundo, cronograma completo de competições que acontecem no período de quatro em quatro anos e procedimentos adotados para garantir o bem-estar dos atletas.

Tais dados servirão para que o IPC tenha informações detalhadas a respeito de cada esporte concorrente e possa escolher com precisão as modalidades que farão parte do grande evento. Além do Power Soccer, concorrem por vagas a Vela, o Golfe, o Futebol para Pessoas com Paralisia Cerebral, a Dança Paradesportiva e o Karatê. Estes seis esportes se somarão às 22 modalidades presentes em Tóquio-2020, na disputa por no máximo 23 vagas nos Jogos Paralímpicos de Paris´2024.

Esta é a terceira vez que o Futebol em Cadeira de Rodas pleiteia uma vaga entre os esportes que participarão de uma Paralimpíada. Nas tentativas anteriores, ocorridas em 2010 e 2014 para os Jogos do Rio´2016 e de Tóquio´2020, respectivamente, o Power Soccer foi excluído na primeira fase de discussões por não ter a quantidade mínima de países praticantes exigida pelo IPC para esportes coletivos, que é de no mínimo 24 nações ativas, ou seja, com a realização de competições durante o ano e filiadas à federação internacional da modalidade em três continentes.

Desta vez, o grande desafio é a implementação do sistema antidoping imposto pelo IPC, que nunca foi utilizado no esporte e será usado pela primeira vez no Campeonato Europeu Interclubes do esporte, em Hou, na Dinamarca, em outubro de 2018.

No entanto, o presidente da Confederação das Américas de Power Soccer (APFC), o argentino Joaquín Carrera, não vê motivo para pessimismo e enxerga o Futebol em Cadeira de Rodas como forte candidato a ocupar uma das vagas dos Jogos de 2024, principalmente pelo aumento no número de países praticantes da modalidade — hoje, são 30 membros ativos em mais de três continentes e pode aumentar, uma vez que Colômbia, Costa Rica e Chile sinalizaram interesse em iniciar a prática do esporte ainda neste ano. “O Power Soccer será paralímpico, uma vez que conseguiu se expandir em todo o mundo e cumpre com todos os requisitos para isso, além de cada vez mais atletas entrarem para o esporte e contribuírem para que os torneios nacionais e internacionais cresçam ano após ano”, afirma.

Enquanto a decisão final não sai, a FIPFA busca maneiras de levar a modalidade para todos os continentes, seja através do aumento no número de países filiados e de competições ou da formação de árbitros, classificadores e técnicos, profissionais imprescindíveis para o crescimento e desenvolvimento do esporte a nível nacional e internacional. Além disso, a entidade trabalha na divulgação do Power Soccer nas redes sociais e nos meios de comunicação e na busca por patrocínios e parcerias, como a que a União das Federações Europeias de Futebol (UEFA) tem com a Associação Europeia de Futebol em Cadeira de Rodas (EPFA), que possam ajudá-la a fomentar o esporte, não só nas nações que já têm a prática consolidada como também nas que venham a ter no futuro.