AUTISMO E INCLUSÃO – UMA URGÊNCIA REAL!

Abril
  • Por Michele Joia 

A ONU, em 2008, decretou o dia 2 de abril como o Dia Mundial da Conscientização do Autismo. Desta forma surgiu a Campanha Abril Azul, que tem como objetivo chamar a atenção e ampliar o conhecimento sobre a patologia, que se manifesta mais comumente no sexo masculino e, por isso, a cor foi escolhida para representar a campanha.

Falar sobre autismo atualmente parece repetitivo, contudo percebemos as dificuldades de alguns profissionais da educação em lidar com este transtorno. Trabalho há anos com inclusão e é cada vez mais visível que ainda estamos em processo de integração, que a inclusão ainda é algo que está sendo desenhado, implantado e que a visão que as pessoas tem sobre autismo ainda são obsoleta e atrapalham a participação real destes sujeitos em sociedade. Para começar, vamos relembrar alguns aspectos sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA):

– O Autismo é fenotípico, ou seja, você vai encontrar uma diversidade de diferenças entre um autista e outro, nunca haverá autistas iguais;

– É um transtorno do neurodesenvolvimento, ou seja, vai alterar algumas fases e algumas aquisições. Mas como é diferenciado para cada sujeito, alguns vão falar na idade adequada, outros não. Alguns vão andar e desenvolver aspectos psicomotores mais do que outros, alguns vão desfraldar em idade adequada, outros não;

– Não existe uma causa correta para o autismo, mas sabemos que sua variante pode ser de 97% genética ou hereditária. Isso significa que alguém da família tem o diagnóstico.

– Sujeitos com TEA apresentam alterações sensoriais, que afetam sua troca com o ambiente e com as pessoas, isso vai desregula-lo. Quando vemos uma criança com TEA se jogando no chão, chorando sem parar ou até mesmo agredindo, entendemos que o ambiente a está afetando e precisamos estrutura-lo para isso. Essas alterações podem aparecer em nível “master” e são chamadas de HIPER RESPONSIVIDADE, ou seja, este sujeito recebe a informação em uma escala muito maior do que pessoas típicas. Exemplos disto são: não gostar de toque, colocar as mãos no ouvido com barulhos, não comer qualquer tipo de comida, não gostar de cores escuras, entre outros. E em nível “mínimo” que são chamadas HIPO RESPONSIVIDADE, ou seja, nesse caso, a escala é bem abaixo de uma pessoa típica e parecem que estão indiferentes a alguns estímulos, como: não atender quando chamado, comer qualquer coisa, inclusive encontradas no chão, não se incomodar com abraços e barulhos, entre outros. 

– São pensadores visuais e utilizam-se de memória visual, muito melhor do que escrita e auditiva.

– Seus níveis são avaliados de acordo com o grau de necessidade de apoio, são eles:

NÍVEL 1 – quando necessita de pouco apoio;

NIVEL 2 – quando necessita de apoio substancial;

NÍVEL 3 – quando necessita de muito apoio.

Os níveis podem modificar, em alguns casos, quando este sujeito recebe tratamento adequado e de acordo com suas necessidades, podendo até mesmo ficar tão parecidos com seus pares, que pode parecer não ter autismo. Mas lembre-se, isso não é cura, isso é melhora do quadro. Uma pessoa com TEA nunca deixará de ter TEA.

– Apresentam alterações em planejamento e flexibilidade cognitiva, que afetam suas questões cognitivas, mas se trabalhados, aprendem a resolver questões antes impossíveis, que de certo ponto, podem gerar até certo stress. Por isso, é de extrema importância que monte-se uma agenda visual, quadros de rotinas para que se organize e planeje-se dentro das atividades a desenvolver. Para a flexibilidade cognitiva, é importante que o trabalho da equipe terapêutica exercite a tomada de decisão e resolução de problemas, pois o autista apresenta dificuldade em resolver questões novas, como por exemplo, buscar um novo caminho se a rua está em obra e fechada.

– Apresentam hiper focos, e isso varia de um para um, que são o interesse restrito em determinados assuntos. Há uma crença de que gostam de dinossauros, mas temos autistas com interesse em assuntos de Geologia, Química, Física e até mesmo em Medicina. Esses interesses afetam sua interação social, por gostarem de falar muito sobre isso, mas também são de extrema valia para que chamem sua atenção e foco em atividades escolares, quando impressos nas extremidades das folhas ou utilizados como contextos de conteúdos.

– Sua comunicação é alterada, e esse é o único “sintoma” que você encontrará igual em todos. Ou seja, pode falar em idade adequada, mas não sabe utilizar- se da comunicação de forma adequada. 

– A interação com os demais é inadequada por causa de vários motivos, entre eles: falta de comunicação adequada, dificuldade em sair do hiper foco e focar em outros assuntos para dialogar com os pares, mas principalmente, a dificuldade em teorizar a mente e reconhecer a linguagem corporal e não verbal do outro. Isto afeta no reconhecimento das emoções, de entender metáforas e ditados populares e isto os tornam literais. E com isso, apresentam dificuldade em abstrair determinadas informações em um diálogo e até mesmo em textos interpretativos.

– Gostam muito de água e música e estas, são entradas muito boas para acalmar e organizar.

– Apresentam habilidades lineares, ou seja, podem ser muito bons em determinados conhecimentos e não apresentarem capacidades mínimas para aquisição deste. Um exemplo disto é um Autista que conheci que fazia cálculos mentais do plantão do pai, utilizando as imagens mentais que ele criou para tal. Contudo, não reconhecia os números de 1 a 10 se alguém os solicitasse para escrevê-los.  Existem muitos sujeitos com TEA que aprendem línguas estrangeiras sem nem mesmo ir ao curso, contudo não sabem escrever ou entendem a língua escrita.

Dentre todas estas informações, é importante reconhecer que o diagnóstico de TEA não é fatalista, não é o fim. Um sujeito atípico pode melhorar de seu quadro inicial e viver em sociedade com sujeitos típicos, trabalhar, ter família, passear e adquirir autonomia.

O que queremos aqui neste texto é ampliar a postura dos educadores em reconhecer as habilidades e minimizar o capacitismo, que é um movimento preconceituoso de demonstrar que o sujeito com deficiência não tem capacidade para alcançar determinados graus de autonomia e laboralidade. É visível este olhar quando um responsável chega à escola e diz que seu filho é autista, há na hora uma segregação diagnóstica de que o aluno com diagnóstico não se enquadra na escola regular ou em grupos sociais. Para isso, gostaria de elucidar alguns fatos:

– Todo sujeito com autismo tem alguma habilidade e o fato de não “falar”, não significa que não se comunica ou que não é capaz;

– É preferencial a matrícula deste sujeito em escola regular, mas existem casos que o mesmo é indicado para a classe especial e isto não se significa que tenha que ficar lá o resto da vida, há exceções em que o aluno volta à classe regular;

– A indicação de um aluno com TEA para a classe especial varia de sujeito para sujeito, ou seja, alguns se encaixam nela e a sua maioria, em classe regular;

– Não significa que um aluno com TEA precise de Plano Educacional Individual e mediador só por ter diagnóstico. Lembre-se, isso é um direito adquirido por lei, mas não significa que seja obrigatório!!! Como dito antes, cada sujeito com TEA é único e sua necessidade de apoio varia de um para um. Sendo assim, há alunos autistas que não necessitam de apoio individualizado e diferenciação de grade curricular.

– Receba um aluno com TEA sempre antes de dizer NÃO! Avalie suas possibilidades, reconheça suas habilidades e converse com terapeutas e familiares. Dê margem à inclusão!

Diante destas questões nos perguntamos sobre a inclusão destes na escola e informo que há uma série de possibilidades para tal. O professor é criativo e aprende com o próprio aluno, assim como os seus colegas. Não há a opção de não ter conhecimento sobre autismo, isso já passou! Estamos em uma sociedade inclusiva, que tenta pelo menos, e com pessoas cada vez mais diagnosticadas. É hora de ampliar acessos, colaborar com famílias e modificar a forma de pensar sobre o autismo, assim como sobre o sujeito com autismo.

Seguem algumas dicas de como incluir alunos com autismo:

– desde a Educação Infantil, o professor pode perceber diferentes formas de agir;

– oferecer contato com todos os outros alunos da escola, a troca é a melhor forma de interação e melhora dos comportamentos;

– trabalhar com pastas, material com velcro/ imã nas atividades geradoras do conteúdo escolar, estruturar o material de acordo com sua necessidade. O aluno pode ler antes dos 5 anos, mas não saber escrever por questões sensoriais, ofereça então, ao invés de caderno, um tablete ou até mesmo uma folha plastificada para usar com caneta de quadro;

– nas atividades que envolvem coordenação motora fina, é importante colar barbante em volta para que perceba que há espaço para criar e também limitar a escrita;

– todo dia apresentar-lhe o calendário, com barbante colado, separando dia por dia e pedir para pintar o dia que está, assim como uma agenda visual, de acordo com sua necessidade, para que planeje sua rotina e finalize uma tarefa para entrar em outra;

O professor do aluno com TEA deve saber mediar entre os alunos, suas ações são muito importantes. Com o aluno com TEA a fala deve ser direta sem explicações como: ATENÇÃO! POSTURA! AGORA NÃO! ISSO! VOCÊ CONSEGUIU! Entre outras. As atividades devem ser iniciadas sempre da esquerda para a direita e reforçadas com algo que goste ou valorize, assim o vínculo será a melhor forma de incluir este sujeito. (JOIA, 2018)

Com isso, buscamos validar a inclusão, aspecto urgente para alunos com TEA, a partir da postura do professor e dos colegas, do acolhimento e da mudança do olhar. Para uma escola realmente inclusiva e dedicada na continuidade de ações para estes alunos, assim como outros, público alvo da Educação Especial.

 

  • Michele Joia – Pedagoga, Psicopedagoga, Educadora Especial – Especialista em autismo, Qualificada ABA. Autora dos livros “Inclusão de crianças na escola” e “Manual de promoção e prevenção de saúde na educação – volume 1 – Na escola”, publicados pela Wak Editora.

 

REFERÊNCIAS:

JOIA, Michele. A inclusão de crianças na escola – o papel do educar diante das dificuldades de aprendizagem. Rio de Janeiro: Wak Ed., 2018.

JOIA, Michele (Org.). Manual de promoção e prevenção de saúde na educação. Volume 1 – Na escola. Rio de Janeiro, Wak Ed., 2019.