Autistas adultos: especialistas dão dicas de como ajudá-los no dia a dia e no mercado de trabalho

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Quase todo mundo conhece uma criança que foi diagnosticada com autismo. Mas, quando se trata de autistas adultos, é mais difícil encontrar alguém!

É claro que eles existem. Estudos apontam que a prevalência no Brasil pode chegar a 1 em cada 59 pessoas., mas, muitas vezes, os adultos ficam “invisíveis” por não terem sido avaliados corretamente. “É muito comum autistas terem passado boa parte da vida como esquizofrênicos, por exemplo”, diz o geriatra Marcelo Altona, do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, e coordenador do Programa de Envelhecimento do Instituto Serendipidade, que atua com inclusão de pessoas com deficiência intelectual na sociedade.

Por conta do diagnóstico inexistente ou tardio, os desafios dos adultos com TEA (Transtorno do Espectro Autista) são grandes. Afinal, são pessoas que muitas vezes não tiveram sua condição diagnosticada e que, como consequência, não foram estimuladas durante a infância. Podem até mesmo terem recebido medicamentos inadequados. Por isso, é importante discutir o tema e pensar como profissionais de saúde, a família e a sociedade como um todo podem ajudar aqueles que já deixaram a infância e a adolescência e apresentam esta deficiência.

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“É preciso olhar para essa população de forma diferenciada”, diz Marcelo, que propõe, entre as ações que devem ser seguidas, uma melhor formação dos médicos generalistas para que possam buscar elementos que contribuam para a identificação do autismo ainda que tardiamente. Adicionalmente, diz, é necessário oferecer mais informações às famílias para que sejam capazes de respeitar as individualidades de seus filhos, estimulando-os e explorando as possibilidades que todos têm – e não é diferente com o adulto que apresenta este transtorno neurobiológico

“Por conta de diagnósticos errados, muitas famílias, em vez de ajudar o autista, dão remédios que não trazem benefícios. Com isso, não conseguem ajudar na inclusão destas pessoas na sociedade, no mercado de trabalho nos estudos, impedindo-as de serem protagonistas da própria história”, crítica Marcelo, que, durante a pandemia, tem feito vídeos para orientar famílias de pessoas com dificuldades intelectuais atendidas pela Associação Apoie, parceiro do Serendipidade.

Segundo a neuropsicóloga Joana Portolese, da Faculdade de Medicina da USP, estudos apontam que apenas entre 10 e 20% dos autistas considerados leves chegam ao mercado de trabalho ou à universidade. E, quando conseguem, encontram ambientes inadequados. “Eles podem apresentar sensibilidade à luz ou ao barulho. É preciso fornecer meios para que se sintam mais confortáveis”, diz ela citando o uso de fone de ouvido ou até mesmo a realocação do autista no espaço físico para deixá-lo em um local com menor movimentação de pessoas. Joana destaca que, em diversos aspectos, pessoas com autismo podem ser mais eficientes em certas funções do que pessoas fora do espectro.

“Com a propensão ao hiperfoco (estado de concentração intensa), eles respondem muito bem quando têm um planejamento. São excelentes executores quando recebem um roteiro” , diz Joana, frisando ainda que metas a curto prazo também são bem-vindas.

Estimular a autonomia do adulto autista também é fundamental, diz a neuropsicóloga. “Quanto mais os adultos conseguem sair sozinhos, dirigir, ir à farmácia ou ao mercado sem acompanhamento, mais fácil se resolvem nas relações pessoais, que são um ponto de dificuldade, já que os autistas não são bons na leitura social”.

Professora da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, Rosane Lowenthal diz também ser importante que as empresas enxerguem a diversidade entre os autistas adultos. Nem todos vão ter hiperfoco, por exemplo. “Alguns gostam muito de detalhes. É importante que o empregador saiba disso, que dê tarefas de classificação, de elaboração de planilhas”. Ela lembra que também é necessário dar o tempo necessário para eles se organizarem. “Às vezes, a pessoa autista precisa falar sozinha, precisa ir a algum lugar sem pessoas ao redor”. Ela diz ainda ser preciso intervir na habilidade social, mas frisa que não há um manual. “Tem que ter apoio, oferecer uma intervenção individualizada, não pode falar ‘você age assim ou assado’, cada caso é diferente”.

CEO da Specialisterne, empresa social que intermedia a contratação de pessoas com TEA, Marcelo Vitoriano diz que empregar alguém com o transtorno tem vantagens em várias frentes. ” A primeira delas é que a empresa verdadeiramente valoriza a diversidade e inclusão e abre oportunidades para pessoas com diferentes características. Boa parte das pessoas autistas possuem alta concentração nas atividades, raciocínio lógico apurado, são detalhistas e metódicos e podem trazer soluções inovadoras”.

Marcelo diz que a principal iniciativa para uma inclusão com qualidade é a adaptação dos processos de recrutamento e seleção. Não é possível ter uma seleção onde a pessoa seja “reprovada por dinâmicas de grupos ou porque não conseguiu olhar para os olhos do entrevistador”, diz, recomendando ainda que seja dada muita informação para as empresas sobre a realidade das pessoas com autismo e suas características, pois isso facilita o acolhimento adequado.
Diagnosticado com TEA quando criança, Marcos Petry, que hoje tem um canal no YouTube intitulado Diário de um Autista e capacita professores para atender crianças com o diagnóstico, acrescenta ainda uma outra lição: “É importante se aproximar do indivíduo autista, e não do autismo no indivíduo”, diz.