Cadeira Companheira

Minha vida mudou muito desde que ganhei de um grande amigo (o Pedro) minha cadeira de rodas motorizada, há mais ou menos 7 anos. Ganhei qualidade de vida, independência, vento no rosto e a alegria de compartilhar a cidade como qualquer pessoa e com qualquer pessoa.

É claro que alguém que anda com as próprias pernas talvez não tenha a dimensão do que é para alguém com tetraplegia poder ir e vir, com “liberdade”: é INCRÍVEL !

Mas sempre tem um “mas” na história e as aspas usadas apontam para uma cidade pouco gentil, com degraus, buracos, ruas e calçadas quase inacessíveis, com um transporte púbico ineficiente e pessoas incapazes de entender a importância de pensar em uma cidade para todos.

Estou escrevendo esse texto após o fim da greve dos caminhoneiros e cada dia que saí de casa nesse período me deparei com uma cidade quase vazia, podendo ter a exata dimensão do quanto carros e motos ocupam o espaço do pedestre, o quanto pude me sentir segura por não ter que dividir espaço com tantos veículos, o quanto me senti feliz.

Mas, infelizmente, minha cadeira companheira vem perdendo o folego e atualmente vivemos uma rotina de consertos sem fim, o que é compreensível, afinal exijo dela talvez mais que deveria, ando até onde o final da bateria me permite, subo e desço as ladeiras de São Carlos/SP – onde moro – quase todos os dias, faça sol (e às vezes chuva), frio e calor. Só não sei o que farei se ela parar de vez.

Minhas alternativas são poucas, continuar na fila do SUS aguardando minha nova motorizada (mas nesse caso nunca se sabe qual será o tempo que irá demorar) ou dispor de uma quantia enorme para comprar outra, provavelmente via linha de crédito que permite financiar em condições especiais a compra de produtos e serviços de tecnologia assistiva.

Enquanto isso, cuido dela como parte do meu corpo, afinal, não deixa de ser.