CATETERISMO VESICAL INTERMITENTE LIMPO

* Por Gisele Regina de Azevedo  

O cateterismo vesical intermitente limpo (CVIL) é uma técnica utilizada para  esvaziar a bexiga ou um reservatório urinário criado através de cirurgia, introduzindo um cateter (sonda) pela uretra até chegar na bexiga, ou de um estoma continente (por exemplo, Mitrofanoff).

Este é o tratamento de primeira escolha em pacientes com Disfunção Neurogênica do Trato Urinário Inferior (DNTUI), conhecida como bexiga neurogênica.

O esvaziamento total da bexiga reduz a pressão dentro dela e melhora a circulação sanguínea na sua parede, tornando-a mais resistente às bactérias que causam doenças.

A melhora no esvaziamento da bexiga também reduz as infecções urinárias de repetição, evitando complicações da DNTUI, ajudando a pessoa a manter-se seca e melhorando a qualidade de vida.

O CVIL também ajuda a preservar a função do trato urinário superior (ureteres e rins), reduzindo o risco de refluxo vésico-ureteral, que é o retorno perigoso da urina para os rins, pelos ureteres.

Mas, afinal, quais pessoas precisam fazer o CVIL?

Todas aquelas que não urinam ou quando urinam, não esvaziam completamente a bexiga, por problemas neurológicos ou outros. Sabe-se hoje que a quantidade de resíduo de urina (resto que sobra quando não esvazia direito) não é um número tão importante, e que pequenos volumes já podem causar grandes danos e infecções urinárias complicadas.

O CVIL foi descrito em 1972, por um grupo liderado pelo médico americano Jack Lapides, e deve ser feito com cateter uretral (sonda) de uso único, no menor diâmetro possível, realizando-se a limpeza prévia das mãos e dos genitais.

A técnica é simples, com a introdução do catéter uretral descartável, de uso único lubrificado com gel aquoso, para a retirada da urina residual.

Atualmente, temos disponíveis cateteres com revestimento hidrofílico (diversas marcas no mercado nacional), que possuem uma camada externa de polímero com alta afinidade pela água e que formam uma superfície deslizante, facilitando sua entrada na uretra, sendo prontos para o uso, e que diminuem o risco de infecções urinárias.

Temos também cateteres de PVC, pré-lubrificados com solução de glicerina e água, revestidos por um filme de polietileno flexível, que também permitem a técnica sem toque e que podem vir acoplados a uma bolsa coletora.

Os cateteres pré-lubrificados facilitam a técnica de cateterismo intermitente e reduzem as complicações associadas ao procedimento.

Após a retirada da sonda de demora e início do CIL, é muito comum o aparecimento de infecção urinária sintomática (febre, urina turva e com mal cheiro, dor, retenção, aumento das perdas urinárias, aumento dos espasmos, entre outros) causada pelas bactérias já presentes na bexiga e, neste caso, o médico deve ser procurado. No entanto, o cateterismo intermitente não deve ser interrompido e sim, deve-se aumentar a sua frequência, bem como o volume de água ingerido, a fim de facilitar a limpeza da bexiga e a expulsão das bactérias.

 

As recomendações mais importantes são:

  • O autocateterismo deve ser estimulado de acordo com as limitações psíquicas e físicas do paciente. Caso seja necessária a realização do procedimento por um cuidador/familiar, este deve ser adequadamente envolvido no processo, entendendo a importância do procedimento.
  • O número de cateterismos indicado por dia e o calibre do cateter devem ser individualizados, podendo variar de 04 FR/CH a 08 FR/CH em crianças e 08 FR/CH a 12 FR/CH em adultos. Numerações maiores têm indicações específicas como, necessidade de dilatação uretral, presença de coágulos, cálculos ou rolhas de muco. Em geral, são indicados 4 a 6 cateterismos por dia. Um número maior de cateterismos pode não diminuir a urina residual, resultando em maior risco de trauma uretral.
  • O volume de urina drenado a cada cateterismo deve ser menor do que 400 ml, lembrando que o parâmetro de volume de urina drenado no CVIL é genérico e devem ser considerados os sintomas, o diário vesical do paciente e o resultado do Estudo Urodinâmico, se houver.
  • A frequência para realização do cateterismo pode variar de acordo com a ingestão de líquidos em 24 horas, a capacidade vesical e os parâmetros obtidos no Estudo Urodinâmico.
  • Deve-se evitar a distensão da bexiga, causada por grande volume de urina, para preservar a função dos músculos e prevenir infecções urinárias.
  • A lavagem das mãos deve ser realizada com água e sabonete em água corrente, se possível, observando palmas das mãos, costas, entre os dedos, pontas dos dedos, unhas (curtas e limpas) e punhos. A seguir, secar e usar o álcool gel.
  • O paciente pode adotar diferentes posições para realizar o cateterismo (sentado, de lado ou em pé), dependendo das suas limitações físicas e do local onde é realizado o procedimento.
  • As mulheres, inicialmente necessitam usar espelho para uma melhor visualização da uretra, e logo conseguirão localizar o meato uretral através do toque, com treino.
  • Para acessar a uretra com mais facilidade e sem o uso de espelho, algumas mulheres preferem ocluir a vagina com o dedo indicador e abrir os pequenos lábios com os dedos médio e polegar da mesma mão, enquanto introduzem o cateter com a mão oposta. Com isto, mesmo que não visualizem o períneo, não há risco de introdução do cateter em nenhum outro orifício.
  • Para as mulheres com espasticidade de membros inferiores, a transferência da cadeira de rodas para um vaso sanitário pode favorecer o procedimento. Para as mulheres com paraplegia flácida, o posicionamento de um dos membros no braço da cadeira facilita o procedimento.
  • A limpeza do períneo pode ser realizada com água e sabonete. Também pode ser utilizado lenço umedecido considerando a ausência de álcool em sua composição. A direção uretra → ânus deve ser respeitada, evitando a contaminação do meato uretral por microrganismos do ânus e vagina.
  • A lubrificação do cateter é obrigatória, independente da presença ou não de sensibilidade uretral. O objetivo da lubrificação é prevenir lesões uretrais ocasionadas pelo atrito do cateter na uretra. Caso o cateter utilizado seja pré- lubrificado ou com revestimento hidrofílico uma lubrificação “extra” não é necessária, visto que os mesmos estão prontos para o uso. Caso o cateter utilizado seja o convencional (PVC, silicone), deve-se utilizar um lubrificante a base de água, sem a necessidade de anestésico em sua composição.
  • Para controle das perdas urinárias pode-se utilizar absorventes (masculino ou feminino) e o cateter urinário externo masculino, lembrando que estes não influenciam e não substituem o cateterismo intermitente limpo. É sempre fundamental investigar estas perdas!

Existem muitos folhetos e manuais informativos impressos e vídeos educativos, que podem auxiliar na compreensão da técnica.

Gisele Regina de Azevedo tem 58 anos, é Enfermeira Estomaterapeuta e Profa. Assistente da Faculdade de Ciências Médicas da PUC/SP. Tem expertise no cuidado de pessoas com disfunções miccionais e evacuatórias, área onde atua há 25 anos. Tem um perfil ativo no Instagram, o @giseleazevedo onde ensina tudo sobre Saúde Pélvica, de forma simples e divertida. Foi Vice-presidente da Associação Brasileira de Estomaterapia-SOBEST (2015-2017) e atualmente é Associada da entidade.
** Este texto é de responsabilidade exclusiva de seu autor, e não expressa necessariamente,  a opinião do SISTEMA REAÇÃO – Revista e TV Reação.