Como será essa vivência para os jovens autistas?

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O envolvimento de adolescentes e jovens com álcool e drogas costuma ser uma grande preocupação para pais e mães. Conforme os filhos começam a frequentar outros ambientes é natural que aumente a exposição a substâncias lícitas e ilícitas.

Estamos longe de ter todas as respostas, mas – felizmente – temos observado um interesse crescente em aspectos variados da vida das pessoas autistas na juventude e idade adulta.
As informações obtidas em diversos estudos realizados ao redor do mundo não interessam apenas a pais e cuidadores preocupados com o futuro. Autistas adultos também aproveitam esse conhecimento para entender melhor suas vivências (vamos ver mais adiante que o diagnóstico tardio é um dos fatores relacionados a abuso). Além disso, a partir desses dados, todos os profissionais que trabalham com autistas podem elaborar estratégias melhores para contribuir com a vida de seus pacientes.

Hoje trazemos dados muito interessantes de uma pesquisa recente a respeito de uso (e abuso) de álcool, cigarro e drogas ilícitas em jovens e adultos autistas em comparação com jovens e adultos não autistas. Surpreendentemente para alguns, autistas do sexo masculino fazem menor uso de álcool que neurotípicos, tendem menos a experimentar e a usar regularmente tabaco e outras drogas. Entretanto (destacando um olhar cuidadoso para o autismo no feminino) para as mulheres autistas, não foram observadas em relação a mulheres neurotípicas. Apesar da frequência menor ou igual da população geral, autistas têm duas vezes mais chance de ter problemas com o uso de substâncias – inclusive, pais e irmãos de autistas apresentam maior risco de abuso em relação ao grupo controle, indicando que fatores ambientais e genéticos possam estar envolvidos.

A presença de outras condições coexistentes parece influenciar esse risco. Nas duas extremidades, TDAH aumenta e deficiência intelectual diminui o risco para abuso.

Em relação às motivações relatadas para o uso de substâncias, vemos diferenças mais significativas. Autistas utilizam drogas nove vezes mais que neurotípicos com o objetivo de lidar com questões comportamentais (particularmente tornar-se mais sociáveis e melhorar sua interação com as pessoas) e três vezes mais para lidar com questões de saúde mental.

Parece haver uma grande tendência a automedicação. Isso acontece tanto para problemas de ordem física (sono, pesadelos, digestão, sobrecarga sensorial, dor crônica) como emocional (controlar raiva ou ataques de pânico) e de saúde mental (condições comórbidas como ansiedade, depressão, TOC, TEPT).

Fatores de risco para abuso incluem disfunção executiva, diagnóstico tardio, falta de apoio e suportes, ambiente aversivo, histórico familiar, início de uso precoce e experiências traumáticas na infância. Autistas também apresentam mais reações atípicas com o uso de substâncias.

Essa pesquisa traz à tona a complexidade dos elementos envolvidos neste tema. Mostra a importância de incluirmos mulheres nos estudos de autismo (que sabidamente apresentam diferentes fatores de risco e prognóstico) e revela alguns dos aspectos de saúde física e mental que merecem mais atenção dos profissionais no atendimento, alertando para os fatores de vulnerabilidade dos autistas.