Complexo Esportivo do Ibirapuera em São Paulo/SP está à venda. Quem vai comprar?

* Por Geraldo Nunes

“Ibirapuera Complex, a maior e mais moderna arena multiuso da América Latina.” A frase, que é quase um slogan, dá início a um vídeo postado no YouTube pelo governo paulista há algumas semanas, oferecendo o Complexo Desportivo Constâncio Vaz Guimarães no Ibirapuera, em São Paulo/SP, à iniciativa privada, os interessados em breve irão participar de um leilão.

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Inaugurado em 1957, o complexo reúne um ginásio de esportes, um conjunto de piscinas e um estádio multiesportivo. Os novos proprietários, se quiserem, poderão construir um hotel cinco estrelas com heliponto e até um shopping-center no terreno onde estão as praças esportivas.

O projeto de concessão foi aprovado pela Assembleia Legislativa de São Paulo em dezembro de 2020. A concessão dura 35 anos e o leilão será aberto com lance mínimo de R$ 220 milhões.

Por causa da preocupação de todos com a pandemia, o assunto passou pelo crivo dos deputados estaduais meio despercebido da população e tudo segue em banho maria pelo mesmo motivo, o combate ao coronavírus. Mas é necessário que se preste atenção, os esportes olímpicos e paralímpicos podem ser prejudicados de forma irreversível,  porque nada garante que os novos proprietários tenham a obrigação de investir na formação de novos atletas, como antes se fazia na administração pública.

Até passado recente, a direção do Complexo Desportivo Constâncio Vaz Guimarães investia em projetos voltados às pessoas com deficiência. Nós, por exemplo, participamos de um curso de natação para Pessoas com Deficiência e de fato aprendemos a nadar nas piscinas do Ibirapuera. Na ocasião, uma delas foi adaptada para essas aulas que propiciaram recreação através do esporte a muitas pessoas com deficiência, fortalecendo a musculatura, a capacidade aeróbica e a nossa autoestima de um modo geral.

Formamos até um time de Pólo Aquático na época e, por tudo isso, quem participou daquelas atividades jamais se esquecerá, tamanha a felicidade proporcionada. Experiências deste tipo servem de exemplo para mostrar que o esporte aproxima as pessoas, independente da raça, cor, religião ou gênero.

Para aquela modalidade foi designada uma professora especializada no ensino da natação para pessoas com mobilidade reduzida. Junto com ela, vieram assistentes, estagiários em educação física e até um pessoal que nos ajudava a entrar e a sair da piscina. No grupo havia cadeirantes e os que se locomoviam com a ajuda de órteses, próteses, muletas ou mesmo bengalas. Esses equipamentos não podem entrar na água. Para isso, contávamos com o auxílio da equipe de apoio para a entrada e saída da piscina, facilitando sobremaneira o desempenho esportivo de todos.

Em benefício de todos, foi criado no Ibirapuera um vestiário adaptado às nossas condições, sem nenhum luxo, tudo muito simples, mas funcional. Mesmo com poucas verbas, havia criatividade em tudo aquilo que se fazia.

O curso transcorreu normalmente até que um novo governo se estabeleceu. Ao assumir, o novo governador que não é o atual, modificou a diretoria do Complexo Constâncio Vaz Guimarães e uma nova filosofia de trabalho foi implantada. A professora especializada em natação para as PcD não teve seu contrato renovado e o mesmo aconteceu com a equipe de apoio.

Eram cargos comissionados, ou seja, sem concurso público, podendo ser extintos em qualquer momento, e foi o que aconteceu. Para a sorte do nosso grupo, o curso prosseguiu mais algum tempo, porque havia entre os funcionários públicos concursados uma professora treinada pela antecessora. Essa profissional deu conta do recado, assumiu muito bem o comando das aulas, mesmo sem a equipe de apoio. Funcionários de outras funções, mas cheios de boa vontade, quando chamados deixavam por alguns minutos suas atividades para ajudar as pessoas com deficiência a entrar e sair da piscina.

As aulas prosseguiram mais algum tempo até que surgiu um novo problema. A piscina aquecida passou a esfriar por causa de um vazamento e para que fossem feitos os reparos, seria necessário abrir uma licitação que incluiu a uma reforma também na piscina olímpica. 

A direção do Ibirapuera suspendeu nossas aulas e pediu para que aguardássemos em casa uma nova chamada, que seria feita quando os trabalhos fossem concluídos. Ocorre que essa ligação telefônica nunca aconteceu e o grupo de PcD se dispersou e nunca mais se reuniu. 

Agora, com a anunciada privatização, todas as esperanças foram por água abaixo. Ficamos na dependência daqueles que adquirirem o complexo desportivo e que farão dele aquilo que quiserem. Com isso, não apenas o esporte paralímpico, mas também o esporte olímpico, correm sério risco de verem estagnados os sonhos de conquistas no esporte. Quem mais sai perdendo é o Brasil.

 

*Geraldo Nunes se tornou paraplégico com um ano de idade, é jornalista especializado em mobilidade urbana, acessibilidade, economia e história. Durante 20 anos sobrevoou a cidade de São Paulo na condição de repórter aéreo. 

E-mail: [email protected]