Compromisso ou Comprometimento?

Em atendimentos de Reabilitação, mais especificamente na área da Terapia Ocupacional, existem diversas atividades no setor que têm como objetivo contribuir para que a pessoa atendida conquiste seu grau máximo de independência, principalmente nas atividades da vida diária.

     A Terapia Ocupacional não é “Ocupar o tempo de quem não tem o que fazer”. Não raro, ouvimos isso muitas vezes e de maneira irônica, mas a palavra Ocupação vem de Labor, Trabalho, Atividade… Ocupação que gera saúde.

      Na área da Reabilitação, em um setor de Terapia Ocupacional, existem programas básicos e com muitas técnicas específicas para cada pessoa atendida. Nesses programas são realizadas atividades, sempre com um propósito de independência nas diversas áreas da vida. Dentre várias atividades, podemos citar:

  • Estimulação Tátil (por meio de exercícios e artesanato, Coordenação Motora (fina), Orientação Têmporo Espacial, Lateralidade, Jogos Adaptados, Escrita à tinta (Assinatura), Datilografia (usando o teclado, antigo, com atividades ricas para memorização, manter-se na mesma linha, controle da força muscular e outras), Grupo de Família (envolvendo a participação de todos), Grupo de Corpo (autoconhecimento e saúde), Orientação Profissional, Orientações Específicas, organização de Eventos, outros…
  • Atividades da Vida Diária e Prática *(AVD / AVP / AVT / AVL)
    *Nessas atividades os programas são desenvolvidos com foco na independência da pessoa em relação à alimentação, vestuário, higiene, cuidados pessoais, utilização de objetos, atividades sócio-culturais, recreativas, trabalho e outras.

Atividades com jogos adaptados, manuseio de fios, tintas, argila, escrita, preparo de alimentos, uso de utensílios domésticos são extremamente importantes para o desenvolvimento da pessoa que está sendo atendida, quer seja em grupo ou individual.
     PORÉM, é importante que o profissional que vai atender as pessoas observe alguns comportamentos que podem ser inapropriados durante o atendimento:

– Não se envolve:
age friamente, sem pesquisar a história do indivíduo, suas dificuldades, anseios, traumas…
– Envolve-se demais:
basta o indivíduo contar a sua história que já se deprime e quer ajudar além do limite.
– Superproteção:
Não controla a ansiedade, quer proteger a pessoa. Enquanto o indivíduo realiza descobertas, não consegue esperá-lo realizar a atividade no tempo dele, se desenvolver, errar, achar soluções para as dificuldades, experimentar…  O profissional faz por ele. (Nesse papel percebe-se que exerce um papel superior, deixando o indivíduo na dependência)
– Imposição (autoritarismo):
O profissional quer impor suas opiniões sem respeitar as do indivíduo. Por exemplo, impõe que a pessoa alise o cabelo sem respeitar a característica e escolha dela de ter cabelos cacheados e gostar dessa forma.
– Não acompanha:
dá as atividades para a pessoa realizar e vai fazer outra coisa, sai da sala ou fica no celular enquanto a pessoa comete erros sem correção.
– Pressa: O terapeuta se limita (rigidamente) ao horário, sem flexibilidade mínima para encerrar a atividade adequadamente, e diz: ¨Acabou o tempo, pode ir.”

      Para muitos, pode ser um desafio investir em qualidade de tempo quando a exigência de muitos é remir o tempo. Valorizar, respeitar e compreender que cada pessoa tem seu tempo, seu espaço, suas características, faz com que o resultado da reabilitação não seja apenas técnico (que é muito importante também), mas internalizado de maneira que não se perde mais (de dentro para fora), como quando aprendemos a tocar um instrumento. O tempo pode passar, mas não esquecemos mais as notas.

     O desafio de estar junto, fazer junto, comemorar junto, caminhar junto, exige tempo e dedicação, pois vamos aprendendo, participando, descascando pepinos (os vegetais e os da vida…), descobrindo caminhos, experimentando, acreditando, rompendo limites, enfrentando outros… são bases para conquistas.

     A excelência do atendimento requer não só o compromisso (no sentido de “politicamente correto”), mas principalmente o comprometimento. Nesse aspecto, o compromisso estabelece um trabalho, o comprometimento requer uma missão. O primeiro faz o que se aprendeu nos livros, enquanto o outro faz o que se aprendeu na vida. O compromisso trata com a razão, enquanto o comprometimento trata com o coração. O primeiro se ocupa em dar sermão, enquanto o segundo compreende que é melhor Ser “Mão”.

     Eu escolho o envolvimento, o comprometimento… “juntos e shallow now” !