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INCLUSÃO NAS ESCOLAS COMUNS

* Por Romeu Kazumi Sassaki

            Em 26/06/2019, na Universidade Federal de São João Del-Rei (UFSJ), tive o privilégio de ministrar uma palestra sobre a minha experiência  como professor e consultor de educação inclusiva. Fui convidado pelo Fórum Municipal sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, através do CMPD e do Setor de Inclusão e Assuntos Comunitários da UFSJ, tendo como apoiadores a Apae-SJ, a SME, a ASSJ e a Adevi-Rei.

 

Palestra no Sesc

            Para iniciar a palestra na UFSJ, narrei um emocionante fato que ocorreu em uma cidade do interior de São Paulo, exatamente em uma sala do escritório do Sesc, que havia organizado a minha palestra sobre o funcionamento de escolas inclusivas. Era uma noite em setembro. Após uns 30 minutos de palestra, abri para perguntas da plateia, formada por cerca de 20 pessoas. Fiz a seguinte narração:

Filha com síndrome de Down

            Um senhor jovem, que estava sentado bem na minha frente a 1 metro de distância, pediu licença para fazer uma pergunta e apresentou a esposa, sentada ao seu lado.

            ─ Prof. Romeu, a minha esposa e eu não moramos nesta cidade e sim em uma outra, distante cerca de 100 quilômetros e dirigimos o nosso carro até aqui porque soubemos por um jornal da minha cidade que o senhor estaria dando palestra sobre escolas inclusivas neste Sesc. Nós estamos enfrentando uma situação muito preocupante. Nossa filha, que tem síndrome de Down, vinha estudando numa escola particular, a única que, no início deste ano, aceitou matricular a primeira aluna com deficiência. Nenhuma escola estadual ou municipal quis ficar com a nossa filha. Ontem, quando minha esposa foi buscar a filha para trazê-la pra casa, a diretora explicou que ela não aprendeu nada e que, apesar de ainda estarmos em setembro, ela já foi reprovada pelos professores. E pediu para retirarmos a nossa filha da escola e procurarmos uma escola especial. Como nós queremos que a filha continue na mesma escola comum, a minha esposa e eu criamos 2 propostas, mas amanhã levaremos à diretora apenas uma proposta, aquela que o senhor recomendar.

As propostas da mãe e do pai 

            (1) Pedir para a diretora permitir à nossa filha, mesmo “não tendo aprendido nada”, passar para a 2ª série, em nome da amizade que ela já fez com vários colegas da classe.

            (2) Pedir para permitir que a filha repita a 1ª série. Quem sabe, na segunda chance, ela consiga aprender.

Qual proposta vocês aprovariam?

            Queridos leitores, antes de continuar lendo este artigo, separem 2 minutos a fim de que cada um de vocês escolha a melhor proposta. Eu fiz este pedido lá no Sesc e depois lá na UFSJ, da seguinte forma: Primeiro, li a proposta 1 e pedi para levantarem a mão quem concorda com ela. Fiz o mesmo com a proposta 2. Houve, digamos, um empate técnico. Então, respirando fundo, eu disse ao casal e às demais pessoas presentes a seguinte avaliação:

Minha avaliação das propostas

            ― Senhora mãe, senhor pai, prezada plateia. Entendi que vocês amam muito a sua filha e desejam o melhor da educação escolar para ela. Entendi que vocês escreveram as 2 propostas com a mente bem aberta e com o coração apertado, diante do que possa acontecer de bom e de ruim no futuro da filha. Entendi que vocês gostam da escola, a única que matriculou sua filha e que procurou ensinar o conteúdo curricular, embora sem sucesso. Então, em sinal de respeito pela corajosa atitude que vocês tomaram ao escrever as duas propostas e, principalmente, pela dignidade e pelo valor humano da sua filha, digo para vocês que as duas propostas não são benéficas para ela. Explico. Digamos que vocês levem à diretora a proposta 1. Eu duvido que a diretora permitirá a promoção da filha para a 2ª série. Mas, só para raciocinarmos, a diretora permitirá. No ano que vem, sua filha começará a estudar na 2ª série. O que acontecerá? Ela não aprenderá o novo conteúdo. E pior, ela frequentará sem entender essa promoção e encontrará mais dificuldade para aprender. Quando chegar setembro, a diretora pedirá para retirar a filha. Mais um ano perdido na vida da filha.

Vejamos a proposta 2. Por hipótese, digamos que a diretora permitirá a repetição da 1ª série. Poderá haver uma remota possibilidade de sua filha aprender alguma coisa, pois estará estudando o mesmo conteúdo da 1ª série que ela não havia aprendido. Ela terá os mesmos professores que utilizarão os mesmos métodos, técnicas e recursos que não funcionaram para ela. Em setembro, a diretora pedirá para retirarem a filha. Mais um ano será perdido na vida da filha.

Perplexidade e frustração

            O casal ficou perplexo e frustrado. E perguntaram: “Então, o que o senhor recomenda que façamos?”. Respondi com profundo respeito:

            ― Recomendo que, nos meses que faltam para terminar este ano, a escola reformule o sistema educacional, adotando os princípios e recursos da educação inclusiva, reescreva o Projeto Político Pedagógico com o olhar inclusivista, prepare materiais didáticos condizentes com a orientação inclusiva, aplique a teoria das múltiplas inteligências e dos estilos individuais de aprendizagem e, principalmente, capacite seus professores para ensinar de maneira inclusiva a todos os alunos (com e sem deficiência) estudando juntos. E no ano seguinte, a filha fará a 1ª série renovada e completamente inclusiva. E melhor de tudo: sua filha aprenderá de verdade e os colegas sem deficiência também aprenderão de verdade.

A inesperada pergunta da mãe e do pai

            O casal conversou rapidamente em voz baixa e o pai me perguntou:

            ― Prof. Romeu, nós não temos coragem e argumentos para falar tudo isso à diretora. O senhor não poderia vir à nossa cidade para conversar com a diretora?

            Imediatamente e para alívio do casal e até da pequena plateia, respondi:

            ― Sim, terei o prazer de falar diretamente com a diretora. Peço que vocês consigam que a diretora concorde em me receber na escola, com data e hora marcadas. Digam que, caso ela me receba, darei uma palestra gratuita sobre educação inclusiva para todos os professores e familiares de todos os alunos.

Longa espera que valeu a pena

            Passaram-se setembro e outubro, sem o casal me telefonar. Mas, no início de outubro, o pai ao telefone gritou de alegria, dizendo que a diretora concordou em me receber e em permitir a palestra para a escola toda.

            Fui à escola, a diretora sorridente me levou ao seu gabinete e, após algumas perguntas sobre o que é e como funciona uma escola inclusiva, ela – que já havia conversado com todos os professores – concordou em mudar a sua escola para uma escola inclusiva. E ministrei a palestra prometida.

Diretora decidiu pela escola inclusiva

            Ela me perguntou qual seria a primeira ação dessa mudança. Respondi que seriam 2 semanas (16 horas cheias) de um curso teórico-prático de capacitação em educação inclusiva. A diretora acrescentou que gostaria de convidar diretores e professores de escolas estaduais e municipais da cidade para fazer este curso com os da escola dela. Concordei com o desejo da diretora. Durante outubro e novembro, o curso aconteceu e os materiais didáticos foram construídos.

Resultados práticos significativos

            No ano seguinte, a filha do casal realmente aprendeu o conteúdo curricular da renovada 1ª série e foi promovida normalmente para a 2ª série. Após alguns anos, o casal me informou que a filha, feliz da vida, havia entrado no curso médio.

* Romeu Kazumi Sassaki é  consultor de inclusão na escola, no trabalho e demais áreas. Autor do livro  “Inclusão: Construindo uma sociedade para todos”, entre outros. Presidente da Associação Nacional do Emprego Apoiado (2014-2016 e 2016-2018). E-mail: [email protected]