Cooperativas paulistas desenvolvem programa de inclusão

O Estado de São Paulo possui 1.116 cooperativas registradas, envolvendo cerca de 4 milhões de cooperados, o que representa 32 % dos filiados no país. O Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo no Estado de São Paulo (SESCOOP/SP) atua em três diferentes frentes: formação profissional, promoção social e monitoramento.

Desde 2012, o tema da inclusão foi incorporado às ações da entidade, a partir de um seminário realizado pelo Ministério do Trabalho com instituições representantes do sistema “S”, que inclui SESC, SENAI e SESI, entre outros.

Mário Cesar Ralise, gerente de desenvolvimento social do SESCOOP/SP, lembra que, em 2013, uma pesquisa revelou que 79 % das cooperativas paulistas estavam abaixo da exigência da Lei de Cotas (Lei Nº 8.213/91). Para trabalhar com essa situação, foi criado o programa “Cooperativa Inclusiva” que tem como objetivo fomentar a cultura da inclusão entre elas e na comunidade, para incentivar que os programas desenvolvidos nesse sentido tenham sustentabilidade e consigam ir além de apenas contratar e cumprir cotas, procurando uma visão abrangente e de longo prazo.

Num primeiro momento foi feito um diagnóstico junto às cooperativas em relação ao tema e, segundo o gerente, ficou claro que sabiam da Lei porém não entendiam como realizar a inclusão. “Fizemos um mapeamento das pessoas com deficiência no cooperativismo e aferimos que grande parte não cumpria plenamente a legislação, essencialmente por não saberem lidar com a situação. A partir deste diagnóstico foram realizadas inúmeras ações de esclarecimento da lei e de ações que poderiam incluir a pessoa com deficiência no ambiente de trabalho, quebrando assim as barreiras relacionais”, conta.

Nesse primeiro momento, as ações não eram com as pessoas com deficiência e sim com os colaboradores das cooperativas, para que pudessem ver como recebê-las enquanto colegas de trabalho e como lidar com elas no dia a dia. “Em segundo lugar, identificamos que a pessoa com deficiência não estava apenas no quadro de colaboradores, ou seja, o desafio não estava somente em cumprir a legislação trabalhista. Foram identificados não apenas colaboradores com deficiência, mas também cooperados, dirigentes e clientes com deficiência. O trabalho de inclusão deveria ser ampliado para o público interno e externo das cooperativas, em todos os âmbitos, e elas deveriam estar prontas para como trabalhar a inclusão” lembra o gerente.

“O Programa engloba inúmeras ações de sensibilização, mobilização e desenvolvimento, baseado nas etapas que oportunizam fomentar que a cooperativa cada vez mais as realize de forma integrada. É imprescindível preparo adequado em relação ao atendimento de pessoas com deficiência, pois a maioria dos profissionais do país não está acostumada a lidar com PcD, que é historicamente discriminado” afirma Ralise. 

De acordo com ele, entre as ações desenvolvidas, está a realização de cursos de Libras para preparar os profissionais das cooperativas para esse atendimento. O projeto começou em 2015 e várias cooperativas já realizaram o módulo básico e intermediário, trazendo grande diferencial nos serviços prestados e na vida das pessoas atendidas. Também fazem parte do Programa Cooperativa Inclusiva, esquetes e peças teatrais, que de forma lúdica abordam a inclusão; cursos, oficinas e palestras para diversos públicos: pessoas com deficiência, profissionais de RH, gestores, professores, entre outros. “Nesses casos, as cooperativas têm acesso ao catálogo com os temas e objetivos de cada um deles, podendo aplicá-los de acordo com sua real necessidade” informa.

Há, ainda, a “Massoterapia Inclusiva”, em que a quick massage é realizada por profissionais com deficiência visual, ocorrendo em diversos eventos em parceria com as cooperativas. Além disso, há Interpretação de Libras e Audiodescrição em eventos do SESCOOP/SP e em parcerias com as cooperativas.

O SESCOOP/SP faz palestras, seminários, cursos, workshops e encontros anuais para tratar deste assunto. “Hoje, as ações são solicitadas e as cooperativas se mostram satisfeitas com os resultados que estão fazendo o diferencial de atendimento em algumas delas. Desta forma, faz parte de nosso planejamento estratégico desenvolvermos uma pesquisa para levantamento do impacto das ações na realidade das cooperativas participantes e no cooperativismo paulista”, explica Ralise.

O Serviço tem buscado expandir o diálogo sobre o assunto com o cooperativismo em nível nacional. O Workshop de Inclusão, por exemplo, que teve a sua 4ª edição em novembro passado, sempre convida representantes da Unidade Nacional e das demais Unidades Estaduais, para participarem e ampliarem o diálogo sobre a inclusão de pessoas com deficiência. O gerente acredita que, apesar dos avanços, é preciso ainda muito aprendizado. “A falta de conhecimento, às vezes, impede a naturalidade nas relações e a garantia de direitos das pessoas com deficiência. Ainda existem gestores, que por medo ou mesmo ignorância sobre o assunto, preferem pagar multa, ao invés de valorizar a diversidade e crescer como instituição”, informa.

Para ele, é importante que as cooperativas se preparem para a inclusão da pessoa com deficiência no mercado de trabalho, que vá além das cotas: “O que estamos trabalhando é para mudar o cenário da cultura da inclusão. Outro aspecto importante é o atendimento as pessoas com deficiência. É imprescindível preparo adequado, pois a maioria dos profissionais do país não está acostumada a lidar com esse público que é historicamente discriminado”, explica. Para concluir, o gerente afirma que “ainda há muito a ser aprimorado, o aprendizado é constante, mas nossa expectativa é que cada vez mais o Programa traga real diferença para as pessoas e cooperativas participantes, ampliando sempre a atuação inclusiva do cooperativismo na sociedade”.

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