Covid-19 e eu!

  • Por Alex García

É impossível negar que a pandemia foi e tem sido algo muito surpreendente e, claro, devastador para o ser humano e para mim os impactos não foram tão diferentes.

Sou Alex García e moro no extremo sul do Brasil. Sou uma pessoa surdocega que também tem hidrocefalia e doença rara – Osteogênese imperfeita, “ossos de vidro”.

No meu caso, tive que enfrentar algo a mais do que a pandemia.

Em 13 de dezembro de 2019, antes que todos os problemas relacionados à pandemia começassem, eu caí em casa e tive fraturas de “bacia”. Fiquei no hospital por dez dias e tive que usar fraldas de adulto e um cateter urinário.

Depois desses dias, voltei para casa, mas ainda precisava de cuidados intensivos (fraldas de adulto, cateter urinário, ser banhado na cama, etc) então minha família transformou nossa casa em um mini hospital.

Fiquei três meses na cama em casa. Em março de 2020, com a pandemia começando aqui no Brasil, consegui sair da cama e começar a usar cadeira de rodas e iniciar a fisioterapia.

Em junho pude andar novamente com o apoio de um andador. Depois, comecei a usar uma bengala de madeira (bengala de apoio) e finalmente, em novembro, comecei a andar novamente sozinho com o apoio da minha bengala vermelha-branca para surdocegos.

Creio que vocês pode me entender: além da pandemia, tive que lidar com dores fortes e um processo de reabilitação. No meu caso, tudo foi superior, infelizmente.

Mas, consegui superar isso e com o apoio da minha família venci essa batalha!

De dezembro de 2019 a dezembro de 2020, fiquei isolado em casa. 12 meses isolado! Só tive contato com minha mãe, meu pai, meu irmão e minhas fisioterapeutas. Contatos com muita proteção e rápidos.

De dezembro de 2019 a fevereiro de 2020, tive dores fortes e não conseguia nem sentar na cama, por isso, não conseguia usar meu computador.

Em março de 2020, pouco antes de sair da cama, consegui me sentar e comecei a usar o computador novamente. Foi um momento muito importante para mim porque pude voltar a ter contato com mais pessoas, mesmo que via internet.

Bem, superei as fraturas e continuei fazendo minhas atividades online. Sou educador!

A pandemia atinge o Brasil com força e piora a cada dia. Temos a perspectiva de vacinação a partir de janeiro de 2021. Começou, mas a vacinação está progredindo muito lentamente. A situação segue incerta.

Minha vida se tornou virtual. Sim, sempre fui uma pessoa surdocega que tenta ter o máximo de contato físico possível, mas tive que me ajustar a esse momento. Já escrevi sobre os maiores inimigos de um surdocego: impaciência e distância. Meu Deus!!!

Durante a pandemia, esses inimigos ficaram maiores do que nunca. A pandemia exige distanciamento social e é como uma bomba atômica para a comunidade surdocega em todo o mundo! O distanciamento social em uma pandemia é necessário, mas para nós, surdocegos, é uma catástrofe.

Tudo online, sim! Entendo! Eu entendo sobre a pandemia, mas sempre adverti os surdocegos sobre os perigos que experimentamos quando vivemos “dentro de um computador”. Não, isso não pode acontecer! Nós, os surdocegos, devemos ter muito mais contato físico do que virtual.

Cuidado! Nós, surdocegos, somos seres humanos e devemos ter cuidado com uma vida “online” exagerada. Apesar da minha complexidade, quero lutar muito para permanecer um ser humano. Jamais aceitarei me tornar um hardware, um software.

Minha comunicação receptiva ocorre através da “escrita na palma da mão”. Eu consegui tudo com ela e quero continuar fazendo isso.

É importante destacar que, no Brasil, poucos surdocegos contam com o apoio de guia-intérprete. Eu mesmo não tenho ninguém para estar sempre comigo. Tenho que buscar apoio quando preciso.

Então esse problema de não termos guia-intérprete é algo que pode nos destruir!

Por favor, compartilhe este texto! Obrigado pela oportunidade.

Distância e impaciência …. bombástico!

http://www.agapasm.com.br/artigo015.asp

Muita atenção:

Ao ler este texto deves buscar compreender que, eu tenho Osteogênese imperfeita, sim, e são milhares de pessoas no Brasil e Mundo com Osteogênese imperfeita. É lógico que estas pessoas – meus irmãos e irmãs – passaram e estão passando a pandemia com uma dupla carga! E tenho hidrocefalia, sim, e igualmente, são milhares de pessoas com hidrocefalia no Brasil e Mundo. Da mesma forma, estão enfrentando a pandemia com uma dupla carga. O que pode ser mais raro, mas, acredito existirem outros tantos é ser como EU – Surdocego, com hidrocefalia e Osteogênese imperfeita, ou seja, eu estou enfrentando a pandemia com uma carga tripla. Meu texto – na realidade – tem por objetivo dar Voz a estas pessoas que de uma maneira ou outra enfrentam esta realidade com cargas duplas ou triplas, para isso, eu uso a minha própria pessoa! Creio que está muito claro!

E, mais uma vez obrigado a todas as pessoas que me apoiaram – de uma maneira ou outra! Impossível citar os nomes nesta publicação… Eles e elas sabem disso… Deus os abençoe!

Com meus melhores e mais calorosos cumprimentos! Permanecemos em contato! Alex Garcia – Brasil

No site da Agapasm estão publicados inúmeros textos: www.agapasm.com.br

• Alex García – Pessoa Surdocega, com Hidrocefalia e Doença
Rara