Da varanda de minha casa, um atleta paraolímpico

Acostumada a estar, sempre que tenho tempo disponível, apreciando a belíssima natureza da varanda de minha casa em um condomínio em Nova Lima/MG de frente para a Lagoa dos Ingleses, me deparo com uma cena inusitada. Inusitada pelo fato de que não é todos os dias que você se surpreende com um atleta paralímpico de paraciclismo treinando em sua handbike cheia de bandeiras, dentre elas a do Brasil.

Ladeira acima, ladeira abaixo o simpático e dedicado atleta Marcos Antonio Ferreira de Melo Junior, encara a geografia de Minas Gerais em busca de atingir a meta de ter um bom resultado no cenário mundial e ser convocado para Tóquio – nas Paralimpíadas – que antecede o ano de 2019. E foi em um destes momentos que encontrei esse meu vizinho, que inspira e exala superação, que o abordei para enchê-lo de perguntas de como era guiar uma handbike (bicicleta que se pelada com as mãos) e não é que isto virou um artigo para essa edição da Revista Reação ?

“O Ciclismo sempre fez parte da minha vida deste atleta”, disse Marcos. Ele me contou que desde quando era criança, todo mundo era doido por uma bola e ele, meio diferente, sempre foi apaixonado pela bicicleta.

Antes mesmo de se acidentar e fraturar a cervical a nível C6, Marcos me contou que acordava as 4:20h da manhã para treinar e do treino ia direto para a faculdade. E de bicicleta. Daí veio a idade madura, o trabalho e como ele iniciava seus atendimentos cedo, pulava da cama como sempre às 4:20h da manhã e já estava saindo para o treino.

Acaso ou não, após um acidente que o deixou tetraplégico, mesmo descrente que pudesse voltar a pedalar, em 2014 quando praticava Esgrima em cadeira de rodas, foi convidado por um amigo paraciclista de outra categoria que o desafiou a voltar a “mãodalar” – termo usado por ele – e se apaixonar a primeira vista pela handbike.

“Como sou tetraplégico, a handbike tem mais algumas adaptações, como o freio e as marchas que são acionados pelos cotovelos e as mãos são encaixadas nos propulsores… Os passeios viraram treinos e os quarteirões iniciais se tornaram quilômetros. A sensação de vento no rosto e liberdade que eu tanto gostava estava de volta !”, relatou Marcos.

Vencedor de vários campeonatos, em 2014 ele disputou seu primeiro campeonato ficando em um excelente 4º lugar. Após muitos treinos, já com mais informações sobre a importância de equipamentos de qualidade foi conseguindo posições de destaque, até que em 2015 ganhou uma das etapas da Copa Brasil de Paraciclismo e terminou o ano em quarto lugar no ranking nacional.

“A partir daí, decidi me dedicar 100 % ao paraciclismo e parei com a esgrima em cadeira de rodas. Agradeço ao meu técnico de esgrima, Kleber, que me disse uma vez: Você pode ser bom em duas coisas, mas para ser o melhor, escolha uma e se dedique. Foquei me dedicando muito e os resultados começaram a aparecer”, contou  o paratleta.

Campeão em várias etapas da Copa Brasil de Paraciclismo e segundo lugar no ranking nacional em 2016. Já em 2017, conseguiu o tão sonhado título de Campeão Brasileiro e primeiro do ranking nacional. Em 2018 mesmo com alguns percalços, conseguiu repetir o resultado do ano anterior e ainda foi campeão Panamericano de Paraciclismo de estrada.

Mas sabemos que ser esportista no Brasil não é um mar de rosas e para o paratleta Marcos, as maiores dificuldades são duas. A primeira diz respeito a dificuldade em arrumar um técnico especializado no esporte e na pessoa com deficiência. “Geralmente o educador físico esquece desse vasto campo e é muito difícil profissionais realmente capacitados e de qualidade com o olhar para a pessoa com deficiência”, comentou Marcos.

A segunda é a financeira. Na sua opinião existem muitos locais para iniciação no esporte adaptados, muito bons e atletas que poderiam crescer mais e se tornarem de altíssimo nível, mas quando é preciso evoluir o equipamento o ônus é todo do atleta. Assim fica difícil o atleta “bancar” tudo sozinho (treinador, preparador físico, fisioterapia, nutricionista, psicólogo, transporte, alimentação, dentre outros) e muitos acabam desistindo. “Para conseguir mudar esses problemas precisamos de leis de incentivo ao esporte mais viáveis, uma mídia televisiva que tenha espaço para todos os esportes e empresas que vejam o atleta, e principalmente o paratleta, como uma vitrine positiva para o seu negócio”, afirma.

Para mim nada é novidade quando se trata da ausência de leis de incentivo e políticas públicas, porém curiosa, como sempre, e por ser amante dos esportes, tomei coragem de pedir a ele para experimentar a handbike !

            Sem dúvida assino embaixo as palavras do meu vizinho paralímpico Marcos: o esporte tem o poder de fazer uma pessoa superar os obstáculos e provar sua capacidade, com isso a torna mais autoconfiante, aumentando sua percepção e valorização como ser. Essas características proporcionadas pelo esporte são fundamentais para que uma pessoa com deficiência se sinta segura em se incluir no meio social.


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