Desfiles Inclusivos 2018

O ano de 2018 foi considerado histórico para o cenário da moda inclusiva, não no sentido de roupas adaptadas, mas na inclusão de pessoas com deficiência nas passarelas. Produtores de eventos de grande porte estão de olho e apostando na eficiência dos profissionais com alguma deficiência.

O mercado internacional ainda proporciona as maiores oportunidades de trabalho. Aqui no Brasil, podemos destacar 3 eventos com o verdadeiro sentido da palavra inclusão, pessoas com e sem deficiência no mesmo casting, o que dá visibilidade para o segmento da pessoa com deficiência.

O estilista mineiro, Ronaldo Fraga, na edição de número 46 do São Paulo Fashion Week (SPFW), pelo segundo ano, repetiu a inclusão com modelos convencionais juntamente com crianças, pessoas da terceira idade e pessoas com deficiência. O tema foi tolerância. Bruno Alencar e Vagner Molina, ambos amputados de membro inferior e com uso de prótese, abriram o desfile. Um convite ao banquete da paz, uma mesa de jantar no meio da passarela, com direito a encenar um beijo em sinal de paz e que o amor fique acima de qualquer diferença. No final, modelos e convidados puderam sentar lado a lado para aproveitarem um belo jantar.

O segundo evento que merece destaque é o desfile “Todo Mundo tá na Moda”, promovido pelo SENAI. Foram 24 alunos do curso de moda, de todo o Brasil, selecionados para um workshop de três meses com total suporte para pensarem em 12 minicoleções, partindo do zero até a execução de um desfile de dimensões internacionais.

O SENAI Brasil Fashion 2018, separou os alunos em duplas: estilista e modelista para terem orientações com coaches renomados: Alexandre Herchcovitch, Lenny Niemeyer, Lino Villaventura e Ronaldo Fraga. As duplas também puderam contar com consultores de peso como: Daniel Ueda, Ed Benini, Jackson Araujo, Wilson Ranieri, Rodrigo Costa e Max Blum. No casting, nomes de peso como Barbara Berger, Bruno Montaleone, Carol Trentini, Celina Locks, Daiane Conterato, Emanuela De Paula, Lais Ribeiro, Marina Dias, Paola Antonini, Paulo Zulu, Renata Kuerten e Valentina Sampaio. O destaque fica por conta da diversidade:  Sam Gonçalves, que tem vitiligo, Andreza Aguida, albina com baixa visão, Weslley Baiano e Goan da comunidade LGBTI+.

A dupla que representou Minas Gerais foi formada pelo estilista Otávio Augusto e o modelista Douglas Carlos da Silva. Única minicoleção com casting formado totalmente por modelos com deficiência. Um trio de amputados: Paola Antonini, Vagner Molina e Pauê. A coleção recebeu o nome de “Os Fortes Vivem”, roupas com adaptações que facilitam o vestir e despir da pessoa com deficiência. O tema teve como inspiração o cenário apocalíptico.

Pauê, afirma que eventos como esse servem para conscientizar a sociedade que pessoas com deficiência têm a capacidade de ocupar qualquer espaço e que a moda e beleza não são assuntos que devam seguir uma padronização estética.

A dupla que representou o Rio Grande do Norte foi formada pela estilista Anna Elissa e o modelista Iure Dantas. A coleção recebeu o nome de “Brilhante”, foi pensada para usuário com deficiência visual e a inspiração foi a história do cangaceiro Jesuíno Alves de Melo Calado (Patu – 1844 a 1879), mais conhecido como Jesuíno Brilhante, um dos percursores do cangaço no nordeste brasileiro e que fazia justiça com as próprias mãos. Todas as etiquetas internas com informações de tamanho, cor e conservação da roupa estão em alfabetos romano e Braille. Na passarela, nada mais justo que uma pessoa com deficiência visual para apresentar a coleção. O atleta Márcio Monclair, do casting da fotógrafa Kica de Castro, foi selecionado, após um processo rigoroso. Antes da deficiência, Monclair era modelo, sofreu um acidente de moto e por 12 anos ficou longe dos desfiles. Como a proposta do evento é revelar novos talentos no mundo da moda, o desafio foi feito também para o casting, superar os medos e voltar profissionalmente em grande estilo. A passarela não teve marcação no piso, Márcio pode desfilar tranquilamente com sua bengala e seguindo as marcações auditivas. “Voltar às passarelas com um evento nessas proporções é simplesmente gratificante, reconhecimento que profissionais com deficiência só precisam de mais oportunidades para mostrar a capacidade e que a moda sem dúvidas é um espaço democrático” – ressalta Monclair.

Tatiana Palezi, produtora do evento, da agência Samba Marketing, comenta que Márcio foi um destaque a parte e que mesmo sendo cego desfilou melhor que muitos profissionais videntes.

Por último e não menos importante, a edição de número 44 da Casa dos Criadores, teve a modelo Ravelly Santana, também do casting da fotógrafa Kica de Castro, fazendo a representatividade da pessoa com deficiência. O desfile foi assinado pelos estilistas Alex Santos e Van Loureiro, com o tema “O dia depois de amanhã”, uma visão pós apocalíptica do nordeste brasileiro.

Fechamos o ano com ótimos resultados na moda e convictos que em 2019 os resultados serão ainda maiores. Empenho por parte da agência Kica de Castro Fotografias, revista digital Tendência Inclusiva e o programa Viver Eficiente não faltam para isso. Todo esforço será apresentado em novas passarelas brasileiras.