Documentário sugere novas percepções sobre o autismo e conta com depoimentos de artistas

O garoto Lucas Anderson, 14, teve sua trajetória abordada pelo filme Foto: Marcelo Tabach

Os caminhos para a conexão, sobretudo as mais superficiais, parecem até abundantes em uma sociedade que respira tecnologia. Mas quando se olha para as sutilezas do ser humano, é possível perceber que, oscilar entre a conexão e a desconexão, é um modo de existir – tão legítimo quanto qualquer outro.

A fim de reconhecer as pessoas com o transtorno do espectro do autismo, suas famílias e profissionais envolvidos em seus cuidados e educação, o documentário “Delicadeza é Azul” é dirigido por Yasmin Garcez e Sandro Arieta, o filme ainda traz depoimentos de artistas, como o cantor Ney Matogrosso e o fotógrafo Bob Wolfenson, sobre os cinco sentidos humanos.

O documentário está disponível no link: https://youtu.be/CXqI9YmD8GA

Para além do toque poético articulado pela fala dos artistas, o documentário é bem focado na realidade de famílias de crianças e adultos brasileiros diagnosticados com o autismo. O filme passou a ser rodado desde 2015, quando a produção captou o depoimento do Dr. Adailton Pontes. Já falecido, o médico era uma das referências sobre o tratamento do transtorno no Rio de Janeiro.

É através da fala dele e do educador português José Pacheco, sobretudo, que o espectador se aproxima do que é a dificuldade de quem, no Brasil, precisa cuidar de um familiar diante das limitações das redes de saúde e de educação públicas.

Junto às famílias, o filme mostra a diversidade dos comportamentos de cada indivíduo diagnosticado – um dos vários pontos, levantados pela obra, a favor da superação do preconceito com o transtorno. Yasmin Garcez, que além de dirigir também fez o roteiro e idealizou o documentário, conta como os pacientes jovens e adultos ficaram tranquilos, e até curiosos, com a presença da equipe de filmagem em suas rotinas.

O documentário foi realizado para tocar em novas percepções sobre o espectro. Segundo Yasmin Garcez, a compreensão sobre o autismo “ainda é rasa”, embora já pareça melhor do que há 5 anos. “Como o espectro também é vasto, muitas pessoas tendem a não perceber o transtorno e só param para se informar quando algum caso próximo acontece”, observa a diretora.

Dentre as passagens mais sensíveis do filme, o depoimento dos pais aparece repleto de suas vulnerabilidades e desafios com os cuidados. “De maneira geral, todo o foco familiar terapêutico gira em torno de quem tem o Transtorno, tanto por motivos físicos e emocionais, quanto financeiros”, situa Yasmin.

Gustavo de Carvalho, em uma das cenas do documentário
Foto: Marcelo Tabach

 

Experiência

Mãe de Thiago (38), a psicóloga Márcia Mourão destaca que a compreensão sobre o autismo, em Fortaleza, evoluiu muito em relação ao período em que o filho foi diagnosticado, em 1984. Na época, ela “peregrinou” por diversos profissionais e ouviu várias recomendações, divergentes umas das outras.

Nesse tempo, a psicóloga recorda como ainda prevalecia a hipótese de que o autismo seria de origem “psicogênica”. “Essa hipótese causou um imenso sofrimento aos pais porque imputava a eles (nós), a ‘culpa’ pela deficiência dos filhos. Atualmente, as pesquisas científicas deixam claro que é uma síndrome de origem biológica que afeta o neurodesenvolvimento”, esclarece.

Pais

Conforme fica claro pelo engajamento dos próprios pais ouvidos pelo documentário recém-lançado, Márcia Mourão identifica que os pais de pessoas com autismo são, provavelmente, os grandes responsáveis pela mudança de visão sobre o transtorno. “Muitos são ativistas que contribuíram muito para isso”, detalha.

Márcia critica, no entanto, a visão social que vitimiza e até romantiza a experiência das mães, sobretudo, de filhos autistas. Ela não deixa de reconhecer, porém, que “nossa sociedade, estruturalmente machista, também leva à sobrecarga das mães”.

Fonte: www.diariodonordeste.verdesmares.com.br

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