Educação e Inclusão: as principais Síndromes, Transtornos e Distúrbios que afetam a aprendizagem

 

  • Por Bianca Acampora

 

Você sabe o que fazer com aquele aluno que não consegue assimilar o conteúdo? Com o extremamente agitado? O disperso? Antes de mais nada, é preciso evitar o prejulgamento.  Rotulá-los como bagunceiros, indisciplinados ou desinteressados pode ser um erro muito grave cometido pela falta de preparo em reconhecer as diversas deficiências, síndromes, transtornos e distúrbios presentes em sala de aula. O esclarecimento é o primeiro passo para evitar enganos e permitir que todos recebam a atenção necessária para o desenvolvimento de suas potencialidades.

Atualmente com as leis de inclusão as escolas necessitam acolher os alunos com deficiências, distúrbios, transtornos e desordens de aprendizagem. Muitas escolas, na tentativa de cumprir os objetivos legais da inclusão, abrem as portas aos alunos com necessidades especiais e os colocam em salas de aula regulares como prescreve a legislação. No entanto, as dificuldades apresentadas pelos alunos no processo de aprender estão relacionadas em grande parte à inadequação da estrutura educacional às dificuldades do aluno, isto é, não são elas que inibem a aprendizagem, mas a ausência de condições para isso, pois são o respeito à diversidade e a consideração das diferenças os fatores essenciais para diminuir dificuldades de aprendizagem e as desvantagens na aprendizagem do aluno. Preparar a escola é preparar todos os envolvidos no processo, aí ressaltados, de maneira fundamental, professores, alunos e família. 

O que pode ser considerada “necessidade educacional especial”? O termo surgiu com a Declaração de Salamanca (1994) cunhado para estabelecer diretrizes em busca da igualdade de oportunidades de escolarização para todas as pessoas com necessidades educacionais especiais, retirando do cenário escolar qualquer tipo de discriminação, por questões de etnia, raça, idade, religião, cultura ou deficiência de qualquer natureza.

Os transtornos estão diretamente associados a fatores orgânicos, ou seja, o sucesso da aprendizagem fundamenta-se, primordialmente, na integridade anatômica e de funcionamento dos órgãos que estão diretamente comprometidos com a manipulação das relações exteriores, assim como os dispositivos que legitimam a coordenação do sistema nervoso central. É necessário, portanto, que haja uma investigação neurológica sempre que a aprendizagem se veja prejudicada, em qualquer indivíduo, de forma recorrente. Além disso, um histórico de perdas acadêmicas não deve passar despercebido para os pais e muito menos para os professores que acompanham, de forma mais efetiva, o desempenho cognitivo dos alunos em salas de aula. O aluno que apresenta um comportamento de inquietação, dispersão ou descumprimento de tarefas não deve receber o estigma imediato de aluno desinteressado, descompromissado ou outro que rotule suas ações. Tais  atitudes podem se revelar sintomas de um transtorno de aprendizagem.

Principais transtornos:

 

TDAH – Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade

Este transtorno comportamental é considerado o de maior incidência na infância e na adolescência. Pesquisas evidenciam que o TDAH está presente em cerca de 5% da população em idade escolar. Trata-se de uma síndrome clínica caracterizada basicamente pela tríade sintomatológica: desatenção, hiperatividade e impulsividade. Os comportamentos característicos incluem dificuldades de concentrar a atenção em um único foco, com atitudes comumente chamadas de desatenção, parecendo uma constante “viagem a outro mundo”. Há grandes dificuldades de organização e perdas frequentes de chaves, material escolar, brinquedos. A criança pode se apresentar inquieta, não conseguindo permanecer sentada durante muito tempo, fala excessivamente e, muito raramente, brinca silenciosamente. Os pacientes com esse diagnóstico podem apresentar perdas acadêmicas e sociais e, sem o tratamento, o quadro pode evoluir para problemas mais graves, tendo em vista a diminuição de sua autoestima ocasionada pelos frequentes fracassos.

Estudos demonstram que o cérebro de crianças com esse transtorno funciona diferentemente dos das crianças consideradas “normais”, pois apresentam um desequilíbrio de substâncias químicas que ajudam o cérebro a regular o comportamento.

As causas parecem ser multifatoriais, mas o fator mais importante é a herança genética. Medicações, nestes casos, são necessárias para que se haja a ampliação dessas substâncias químicas, otimizando o aporte dos neuro-transmissores e facilitando o controle da atenção.

O TDAH pode ser dividido em 3 tipos: 

Desatento: Crianças desorganizadas, esquecidas, facilmente distraídas, cometem erros por descuido. 

Hiperativo/impulsivo: Crianças mais agressivas, com maiores taxas de rejeição pelos colegas, agitadas, inquietas e impulsivas.

Combinado: Corresponde ao perfil mais prevalente de pacientes com TDAH. Nestes pacientes, predominam, pelo menos, seis sintomas de cada um especificado acima. Os pacientes apresentam maior prejuízo no funcionamento global e possuem grandes perdas acadêmicas e sociais, devendo ser encaminhadas para os serviços de neuropsiquiatria da infância e da adolescência.

 

Transtornos Globais do Desenvolvimento (TGD)

Os Transtornos Globais do Desenvolvimento (TGD) são distúrbios nas interações sociais recíprocas, com padrões de comunicação estereotipados e repetitivos e estreitamento nos interesses e nas atividades. Geralmente se manifestam nos primeiros cinco anos de vida. São cinco os transtornos caracterizados por atraso simultâneo no desenvolvimento de funções básicas, incluindo socialização e comunicação:


1 – Autismo : é uma desordem global do desenvolvimento. É uma alteração que afeta a capacidade da pessoa comunicar, estabelecer relacionamentos e responder apropriadamente ao ambiente – segundo as normas que regulam estas respostas.
Algumas crianças, apesar de autistas, apresentam inteligência e fala intactas, outras apresentam importantes retardos no desenvolvimento da linguagem. Alguns parecem fechados e distantes, outros presos a comportamentos restritos e rígidos padrões de comportamento. Os diversos modos de manifestação do autismo também são designados de Espectro Autista, indicando uma gama de possibilidades dos sintomas do autismo.

2- Síndrome de Asperger é uma 
síndrome do espectro autista, diferenciando-se do autismo clássico por não comportar nenhum atraso ou retardo global no desenvolvimento cognitivo ou da linguagem do indivíduo. É mais comum no sexo masculino. Quando adultos, muitos podem viver de forma comum, como qualquer outra pessoa que não possui a síndrome. Sintomas: dificuldade de interação social, falta de empatia, interpretação muito literal da linguagem, dificuldade com mudanças, perseveração em comportamentos estereotipados. No entanto, isso pode ser conciliado com desenvolvimento cognitivo normal ou alto

3 – Síndrome de Rett é uma anomalia 
genética, no gene mecp2 que causa desordens de ordem neurológica, acometendo quase que exclusivamente crianças do sexo feminino. Compromete progressivamente as funções motoras, intelectual assim como os distúrbios de comportamento e dependência. Aos poucos deixa de manipular objetos, surgem movimentos estereotipados das mãos (contorções, aperto, bater de palmas, levar as mãos à boca, lavar as mãos e esfregá-las) surgindo após, a perda das habilidades manuais.

4 – Transtorno Desintegrativo da Infância é um tipo de 
Transtorno invasivo do desenvolvimento (PDD, na sigla em inglês) geralmente diagnosticado pela primeira vez na infância ou adolescência. O Desenvolvimento é aparentemente normal durante pelo menos os 2 primeiros anos de vida. Depois há perda das habilidades já adquiridas (antes dos 10 anos) em pelo menos duas das seguintes áreas: linguagem expressiva ou receptiva; habilidades sociais ou comportamento adaptativo; controle esfincteriano; jogos; habilidades motoras. 

5 – Transtorno invasivo do desenvolvimento sem outra especificação: 

Alguém pode ser classificado como portador de TID-SOE se preencher critérios no domínio social e mais um dos dois outros domínios (comunicação ou comportamento). Além disso, é possível considerar a condição mesmo se a pessoa possuir menos do que seis sintomas no total (o mínimo requerido para o diagnóstico do autismo), ou idade de início maior do que 36 meses.

 

Principais Deficiências e Síndromes encontradas na escola:

 

Deficiência intelectual

O funcionamento intelectual inferior à média (QI), que se manifesta antes dos 18 anos. Está associada a limitações adaptativas em pelo menos duas áreas de habilidades (comunicação, autocuidado, vida no lar, adaptação social, saúde e segurança, uso de recursos da comunidade, determinação, funções acadêmicas, lazer e trabalho). O diagnóstico do que acarreta a deficiência intelectual é muito difícil, englobando fatores genéticos e ambientais. Além disso, as causas são inúmeras e complexas, envolvendo fatores pré, peri e pós-natais. Entre elas, a mais comum na escola é a síndrome de Down. 

 

Síndrome de Down

 Há uma alteração genética caracterizada pela presença de um terceiro cromossomo de número 21. A causa da alteração ainda é desconhecida, mas existe um fator de risco já identificado.  Além do déficit cognitivo, são sintomas as dificuldades de comunicação e a hipotonia (redução do tônus muscular). Quem tem a síndrome de Down também pode sofrer com problemas na coluna, na tireoide, nos olhos e no aparelho digestivo, entre outros, e, muitas vezes, nasce com anomalias cardíacas. 

 

Cada síndrome ou transtorno tem uma característica diferente. Mas geralmente a criança os sintomas aparecem desde a mais tenra idade. Por isso é importante que o professor fique atento e a equipe pedagógica da escola para que oriente os responsáveis visando que os mesmos busquem uma avaliação do médico para diagnóstico adequado.

O professor é o elemento fundamental no processo de  descoberta dos transtornos. Ao lidar com o aluno no dia a dia, ele é muitas vezes o primeiro a perceber a irregularidade, em qualquer idade, já que estes sintomas só se evidenciam quando o indivíduo é colocado em situação de aprendizagem e podem ter sido despercebidos ou ignorados pela família até então. Observado e comprovado algo de irregular, o professor deve procurar imediatamente o núcleo pedagógico da instituição, caso haja, para colocar a par os profissionais responsáveis.

O primeiro passo é procurar um profissional que esteja preparado e habituado a diagnosticar indivíduos com transtornos de aprendizagem. Uma formação na área é imprescindível para evitar diagnósticos e tratamentos inadequados. O neuropsiquiatra é o profissional adequado para indicação de tratamentos coadjuvantes, se necessário: fonoaudiologia, psicologia, psicopedagogia, etc.

O atendimento educacional para alunos com dificuldades de adaptação  escolar por problemas de conduta (alterações nas interações sociais), não difere do que é adotado para aqueles considerados normais. No entanto, por apresentarem necessidades educacionais especiais, faz-se necessário recorrer a vários serviços de atendimento compatíveis com as características desses alunos. 

 

Sugestões de atividades em sala de aula

– Síndrome de Down: na sala de aula, repita as orientações para que o estudante com síndrome de Down compreenda. O desempenho melhora quando as instruções são visuais. Por isso, é importante reforçar comandos, solicitações e tarefas com modelos que ele possa ver, de preferência com ilustrações grandes e chamativas, com cores e símbolos fáceis de compreender. A linguagem verbal, por sua vez, deve ser simples. Uma dificuldade de quem tem a síndrome, em geral, é cumprir regras. 

– Autismo e síndrome de Asperger: para minimizar a dificuldade de relacionamento, crie situações que possibilitem a interação. Tenha paciência, pois a agressividade pode se manifestar. Avise quando a rotina mudar, pois alterações no dia a dia não são bem-vindas. Dê instruções claras e evite enunciados longos.  

Síndrome de Rett: Crie estratégias para que o estudante possa aprender, tentando estabelecer sistemas de comunicação. Muitas vezes, crianças com essa síndrome necessitam de equipamentos especiais para se comunicar melhor e caminhar.

– Transtorno Desintegrativo da Infância: Criar estratégias para que o estudante possa aprender, tentando estabelecer sistemas de comunicação, estímulos sociais, psicomotores. Trabalhar com música.

– TDAH: estimular a aprendizagem através de atividades diferenciadas e contextualizadas. Combinar as regras e os objetivos a serem trabalhados em sala.

 

Bianca Acampora

Doutora em Ciências da Educação 

Especialista em Neurociências Cognitivas,

NeuroAprendizagem, Competências Socioemocionais e Psicopedagogia