Em busca da Identidade Perdida

PONTO DE VISTA

Qual o significado de Identidade ?

De uma maneira geral encontramos definições como um conjunto de características (físicas e psicológicas) essenciais e distintivas de alguém, de um grupo social ou de alguma coisa. Um conjunto de características (nome, sexo, data de nascimento, impressão digital, filiação, naturalidade, outras) de um indivíduo consideradas para o seu reconhecimento.

Podemos definir o que é identidade: como um conjunto de dados que classificam e identificam o cidadão.

Observamos, por vezes, pessoas que sentem a necessidade de, talvez por algum motivo pessoal ou para escapar de alguma punição da lei, criar uma identidade falsa para si. O significado de identidade falsa é quando uma pessoa cria para si informações de identificação que não correspondem aos seus verdadeiros dados. Isso inclui características emocionais e de comportamento.

Podemos ver isso com frequência na internet, por exemplo, em que usuários de redes sociais muitas vezes criam para si perfis com dados falsos, muitas vezes para aparentarem o que não são ou para mostrarem uma realidade falsa do que vivem ou do estado emocional.

Porém, ao falsificar documentos ou mentir sobre sua identidade, torna-se um crime. Esse crime, segundo vemos nas leis, pode até acarretar uma multa de três meses a um ano de prisão, sendo classificada como o ato de atribuir para si ou para outros uma falsa identidade para obter alguma vantagem ou para causar dano à outra pessoa.

Do ponto de vista da psicologia, existem muitos significados ocultos nas alterações de identidade em que as intensas mudanças emocionais como raiva, alegria, tristeza, decepção, entre outras, podem interferir momentaneamente na identidade da pessoa, porém, sem a classificação de dupla personalidade.

Alterações são comuns em adolescentes, quando a identidade do indivíduo está se formando sob grande tensão. A identidade cultural também faz parte e são características de determinado povo. Suas roupas, fala, costumes, religião, comida, entre outras coisas, classificam-se como a identidade desse povo em específico.

Ao termos uma falsa identidade ou identidade mascarada podemos observar que a multa não é aplicada judicialmente, mas interiormente. O crime é pra si mesmo. Fragmentos do emocional, se é que podemos classificar assim, podem estar desconexos e juntá-los ou transformá-los pode ser bem doloroso. Fingimos estar tudo bem enquanto por dentro vamos corroendo. E vivemos sendo outra pessoa dentro de nós mesmos…
Quem disse que é fácil sermos ou estarmos sem uma parte de nós? Quer seja essa parte um membro do corpo, uma função sensorial, intelectual, mental, um trabalho, uma profissão, uma pessoa querida… Lidarmos com qualquer perda nem sempre é tão simples (e não é).

Podemos atribuir o sucesso das nossas vidas em um físico avantajado, status, coisas ou pessoas ou algo externo. Porém, podemos afirmar que sem estarmos por inteiro independente de qualquer disfunção dificilmente usufruiremos de um sucesso pleno por dentro e por fora.

Um caso na Reabilitação

Certo dia, quando me deparei com uma pessoa que por um acidente automobilístico perdeu a visão, foi necessário um planejamento em que as tarefas dos atendimentos contribuíssem para uma restauração da pessoa em sua identidade. Vamos chamá-la de ¨Juca¨. Perder a visão significou a ela muito mais do que uma perda da função de enxergar e seus desdobramentos. Perdeu seu trabalho, que era a motivação para acordar todas as manhãs e produzir na tarefa que amava fazer. Perdeu seu noivado, uma vez que não houve estrutura da outra parte em seguir com o relacionamento. Houve perda da rotina de relacionamentos familiares e sociais, uma vez que o tratamento das pessoas (em sua maioria) foi transformado, uns para superproteção, outros rejeição e outros exclusão. Perdeu seu próprio reconhecimento como indivíduo, capaz e ser humano.

Porém, o que mais exigiu tempo de Reabilitação foi resgatar sua identidade própria. Lidar com a dor foi um processo gradativo. O resgate de encontrar o seu “eu” e exercer diferentes papéis na sociedade com equilíbrio e trabalhando cada situação sem matar a identidade, foi (e é) um desafio diário.

Após meses de atividades na Terapia Ocupacional e com outros profissionais de outras áreas da equipe, houve o sucesso. Atividades terapêuticas artesanais, como tinta, argila, fios, escrita, atividades verbais, atividades da vida diária, esportes e outras atividades específicas e elaboradas de acordo com a necessidade, contribuíram muito para que os fragmentos de cada perda tivesse um ressignificado, possibilitando, assim, o resgate da identidade perdida. É nesse ponto que se processa o estabelecimento de objetivos, metas, sonhos e atitudes em prol do seu desenvolvimento pessoal, familiar, profissional, social, entre outros.

Não existe uma receita pronta para isso. Existem ingredientes que vamos dosando à medida da prática, com o tempo. Colocando todos esses ingredientes no “forno”, na temperatura certa e na hora certa, com os ingredientes básicos: respeito e amor, pode ser gerado um lindo bolo.

Não é com todos que chegamos nesse patamar. Existem facilidades, dificuldades, resistência e até os que não querem resgatar sua identidade. Isso se refere aos que preferem conviver demonstrando um comportamento superficial ao invés de viverem plenamente, com ou sem alguma limitação. Encontramos os que, sorrindo, afirmam ter uma vida que construíram, mas que se perdem no primeiro tropeço. Vemos os que resistem por medo do enfrentamento, os que se acomodaram e cristalizaram seus comportamentos e os que também se beneficiam com a “máscara”.  Podemos comparar como um ator que desempenha um determinado papel, mas que depois que sai do papel não consegue voltar ao que é.

Não entro aqui em questões de transtornos e outros temas. São assuntos estudados na nossa área da saúde, como Psicologia, Psiquiatria e o estudo é muito mais longo e profundo.
O que pretendo colocar é que em um trabalho de Reabilitação com pessoas que tiveram alguma perda, a busca da sua essência que tantas vezes se perde é fundamental para a integralidade de qualquer ser humano.

Conclusão

O trabalho realizado com Juca (pessoa citada acima) seguiu um modelo básico:

– Conhecer a pessoa
– Escutar a sua história
– Ouvir e compreender seus anseios e angústias
– Procurar entender a dor e seu contexto no universo pessoal (jamais julgar os sentimentos)
– Comunicar calma, compreensão e, sobretudo, paciência
– Analisar/estudar a pessoa
– Analisar de novo
– Repetir a análise
– Interpretar
– Planejar os atendimentos no programa de Reabilitação
– Recomeçar tudo de novo se for necessário

Terminar um atendimento e não saber nada mais profundo sobre a pessoa, todos estarão perdendo.

O importante não é estar reabilitado aos pedaços, mas por inteiro ou em busca de, com a identidade própria preservada ou reconstruída.

Identidade perdida, buscada e achada (conquistada) !

“…Aquele que sai chorando enquanto lança sementes, voltará com cantos de alegria…” (Davi)