Em Porto Alegre/RS, depois de 50 anos de existência, escola referência para comunidade surda pode encerrar suas atividades

Ambiente escola

Em 5 de setembro de 1966, foi ministrada pela professora Naomi Hoerlle Warth , a aula inaugural da Unidade de Ensino Especial, nas dependências do Seminário Concórdia, situado no bairro Mont Serrat, em Porto Alegre (RS). Desde a década de 1960, a instituição busca promover a inclusão social de seus alunos, através da estimulação precoce, a partir do diagnóstico de surdez, até a educação profissional.

A Escola Especial Ulbra Concórdia é uma escola especializada na educação de surdos.

“No momento a nossa escola é mantida pela AELBRA, Educação Superior – Graduação e Pós-Graduação SA. Todos os nosso alunos estudam gratuitamente, pois são oriundos de famílias de baixa renda e então possuem bolsas. Em 2019 a AELBRA deixou de ser filantrópica e desde maio deste mesmo ano entrou em recuperação judicial. No entanto a situação se tornou insustentável, visto que a AELBRA se tornou uma empresa SA e como se encontra em recuperação judicial não tem mais a possibilidade de arcar com as despesas da escola, motivo pelo qual anunciou a descontinuidade das atividades letivas a partir do ano de 2021”, afirma Juliane Nunes, professora de língua portuguesa e integrante da Comissão de Assuntos Externos da Escola.

De acordo com a professora, “atualmente contamos com 88 alunos, sendo 9 na educação Infantil, 15 alunos no Ensino Fundamental – anos iniciais 1º ao 5º ano, 33 alunos no ensino fundamental anos finais – do 6º ao 9ºano e 31 alunos no Ensino Médio. A escola tem um perfil acolhedor, atendendo às dificuldades das famílias e alunos, no sentido de comunicação entre as partes e o que mais possa auxiliar para a formação e o bom desenvolvimento dos alunos. A escola é um espaço de comunicação bilíngue e atende surdos usuários da língua de sinais. Como diferencial temos o ensino ministrado completamente em Libras, através de professores bilíngues e fluentes na língua; Metodologias diferenciadas para educação de surdos; Equipe pedagógica com experiência no atendimento de surdos e de suas famílias; Setor administrativo e demais funcionários capacitados no trato com surdos. Atendemos alunos da Educação Infantil ao Ensino Médio”.

Para Juliane Nunes, “queremos apresentar a história da escola nesses mais de 50 anos de existência, bem como sua importância para os surdos, para a comunidade surda e para o corpo docente que hoje atua nela. Fazemos um apelo pela continuação das atividades da escola, zelando pela sua importância como escola de referência na educação de surdos”.

“A Escola Concórdia esteve presente nos grandes momentos da história dos surdos em Porto Alegre. Seus professores e alunos lutaram por espaços de direito e de visibilidade na sociedade. A escola sempre abriu espaços para encontros, painéis, seminários e congressos. Em muitas oportunidades órgãos públicos encaminharam seus representantes para debaterem com os nossos alunos sobre os direitos do surdo na sociedade. A escola esteve, por todos esses anos, de portas abertas. Ela atendeu, acolheu e orientou alunos e famílias na direção de uma qualidade de vida melhor e queremos poder continuar levando a história dessa escola e a cada dia poder atender mais surdos, auxiliar no processo escolar e no social, como fizemos até agora. Nesses anos de experiência, a escola acolheu diversas famílias vindas de inúmeros lugares do estado, dando suporte para a comunicação adequada entre surdo e família e oferecendo uma educação de qualidade”.

A Comissão de Assuntos Externos da Escola Concórdia – CAEEC faz um apelo. “Acreditamos na capacidade da nossa escola e de nossos professores. Queremos a continuação da escola pelos nossos alunos, por suas famílias, pelos nossos professores e principalmente pelos surdos que ainda virão, estes que podem não ter a oportunidade de estar nessa escola, convivendo e aprendendo com qualidade. Esse apelo não é só pelo fechamento de um estabelecimento, é pelo encerramento de um propósito, a educação de surdos de qualidade. O Concórdia tem a qualidade da educação como foco principal de seu trabalho, isso se dá através da escolha de professores bilíngues qualificados, experientes em suas áreas e usuários de metodologias adequadas ao ensino de surdos. Vivemos a escola, somos a escola e não podemos deixar que os surdos perdessem esse espaço tão importante para a comunidade. A escola Concórdia precisa continuar, uma história como essa não pode ter esse fim. Comunidade, alunos e professores estão unidos em prol desse objetivo!”.

Integrantes da Comissão já estiveram em contato com representantes do MEC – Ministério da Educação e da Secretaria da Educação do Rio Grande do Sul.

AUDIÊNCIA PÚBLICA

Na manhã desta quarta-feira, aconteceu uma Audiência Pública na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul na Comissão dos Direitos Humanos.

“Na audiência tivemos falas de representantes da comissão da escola, assim como de deputados apoiadores da causa. Pela ausência de alguns representantes de cunho educacional, até o momento não tivemos nenhuma proposta relevante. Aguardamos mais tratativas em busca de alternativas para manter a escola em funcionamento”, afirmou a professora Juliane Nunes.

Frente escola