Embaixadores da Inclusão e o Projeto Irmãos: respeitando as diferenças e ressignificando identidades!

Revista Reação

Especial de Aniversário

 

Ser irmão ou irmã de uma pessoa com deficiência implica em uma dedicação constante, mesmo que implícita, para construção de um futuro mais tranquilo e equilibrado. Para isso é importante trazer à tona reflexões sobre os sentimentos, cuja origem, nem sempre é prazerosa, gerados em irmãos típicos (sem deficiência) com enfoque na necessidade de pertencimento, inclusão e liberdade de escolha, que são extremamente relevantes no desenvolvimento de habilidades inerentes a sujeitos mais inclusivos e plurais.

O Projeto Irmãos foi criado em 2014, a partir da necessidade de uma irmã de um garoto com Síndrome de Down, que sentiu a necessidade de compartilhar suas experiências e angústias.

A partir desse autoconhecimento é possível construir relações com maior cumplicidade, amizade, resiliência, respeito e empatia, que influenciam positivamente a sociedade de uma forma geral. “Ter um irmão já é por si só uma castração Freudiana”, diz Débora Goldzveig, idealizadora do Projeto Irmãos e irmã do David com Síndrome de Down. Foi a partir de sentimentos observados que geram incômodos, como: raiva, insegurança, ciúme, auto cobrança, injustiça, tristeza, vergonha, culpa ou até certa nulidade, que houve a necessidade de se ressignificar para incluir. Dessa forma, surgiu o Projeto Irmãos – “Respeitando as diferenças. Ressignificando identidades” – como diz o slogan do grupo.

Um espaço seguro de acolhimento que promove a escuta e compartilhamento entre irmãos de pessoas com múltiplas deficiências, que tem se mostrado extremamente eficaz à medida que fortalece a identidade desses irmãos. Esses que, mesmo com realidades distintas, ao compartilharem experiências em comum, encontraram um novo lugar de pertencimento e propósito de vida. Por isso, o termo: “Embaixadores da Inclusão”.

Funciona como uma ponte para descobertas, recolocações profissionais, encorajamento às decisões de vida. A atuação vai muito além do foco no irmão, mas em si mesmo para grandes mudanças de vida.

A metodologia utilizada tem como preliminar a construção em rede, envolvendo a família direta e estendida, setores público e privado. O “Projeto Irmãos” é mais do que um grupo assistencialista, é uma consultoria de grande alcance em todas essas esferas atuando através de workshops, palestras, rodas de conversas e vivências.

Segundo Débora: “se tratando de um olhar inclusivo que é transversal a todas as posições que assumimos na vida (mãe, pai, chefes, colaboradores, amigos, primos, voluntários…),  as parcerias são as mais variadas,  trabalhando  desde a tríade: educação, saúde e assistência e desenvolvimento social à cultura, pesquisas científicas, lazer, mobilidade urbana, inovação e tecnologia, habitação e políticas públicas. Todas essas temáticas são abordadas, sempre em paralelo com o desenvolvimento de habilidades soco emocionais através de processos meditativos, coaching, mediação de conflitos e exercício da Comunicação Não Violenta (CNV)”.

De acordo com a idealizadora do projeto, “as vivências com parceiros são nitidamente a ampliação de olhar para diversidade. Quando abordamos essas temáticas, através da perspectiva dos irmãos, abrimos espaço para falar de sexismo, branquitude, xenofobia, racismo, bullying, gordofobia, grupos estigmatizados e minorizados que precisam ser ouvidos e melhor compreendidos para serem aceitos e terem acesso à isonomia de direitos”.

Atualmente o grupo tem aproximadamente 70 membros reunidos em um fórum de Whatsapp, que em tempos de pandemia, tem se encontrado virtualmente para discussão de temas, como: liderança e diversidade, educação, autonomia, sexualidade, formas de comunicação, capacitismo, moradias independentes, construção de redes de apoio, reconhecimento de competências, sustentabilidade financeira, formação profissional, cidadania, políticas públicas, autoconhecimento, perdas, nutrição, esporte, cultura, acessibilidade, pesquisas, genética, envelhecimento… e ainda há muito mais a ser explorado !

Os encontros, apenas entre irmãos, geralmente são acompanhados por uma neuropsicóloga.

O “Projeto Irmãos” atua sem limite de fronteiras, tendo membros e parceiros nacionais e internacionais. Um diferencial é que também é utilizada a expertise, riqueza de conhecimento, de cada membro para capacitações e workshops. Outro ponto a destacar é o envolvimento de voluntários como designers, produtores de vídeo, fotógrafos, eventos, nutricionistas, músicos, entre outros que se se envolvem com a causa.

“A partir do momento que instituições de ensino, empresas, núcleos familiares, entenderem a importância dessa convivência fraterna que gera vínculos afetivos capazes de desmistificar e desconstruir preconceitos, acreditamos que será mais orgânica a transformação deste coletivo em um Negócio Social. Hoje o grupo é autossustentável, captando recursos apenas para projetos específicos”, ressalta Débora.

Mesmo com toda essa abrangência, o maior desafio é mostrar para sociedade a importância do grupo cujo foco de atuação não é especificamente na pessoa com deficiência, mas em seus irmãos como vetores de inclusão. Em um encontro com a Sibling Leadership Network, Instituição cuja atuação é exclusivamente na atuação junto a irmãos de pessoas com deficiência em Chicago (EUA), foi constatada a mesma dificuldade na hora de conseguir aportes.

“Mesmo dentro do grupo, há dificuldade de frequência, principalmente dos homens. Talvez pela característica de vivermos em uma sociedade eminentemente patriarcal e machista, sem conotação pejorativa, mas como reflexo sócio histórico, pois ainda hoje é notável a disparidade entre os gêneros, apesar de grandes avanços dos direitos femininos, o movimento dos homens não está equiparado aos cuidados na esfera familiar, tendo como consequência, o papel feminino como pilar hegemônico nas tarefas relacionadas ao cuidar (adaptado de ABOIM, 2006; SARTI, 1999). Além de que é muito comum, independente do sexo ou temática, a procrastinação para falar de algo que nem sempre é um tema leve.

O grupo é uma forma de incentivar articulações e movimentos de conscientização e equidade pelos direitos das pessoas com deficiência. Uma forma de rejuvenescer o movimento de inclusão que vem conquistando cada vez mais espaço na sociedade”, finaliza Débora Goldzveig.

 

 

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