Enquanto houver luta, há esperança

Kika de Castro

 

  • Por Tatiana Rolim

 

Falar de 3 de dezembro – uma data especial para pessoas com deficiência, em plena pandemia de COVID-19, já pode ser considerada, segundo os dados estatísticos que crescem a cada dia, como uma vitória por estarmos aqui, resumidamente neste campo literário: eu escrevendo, a produção da revista publicando e você lendo !

Contudo, ainda  temos uma data em especial para se comemorar alguns fatos e avanços deste marco internacional, que sintetiza uma longa trajetória de muitas pessoas que lutaram  incansavelmente  para que isto, de fato, seja lembrado e celebrado como algo tão importante para a construção da nossa história enquanto pessoas com deficiência. 

Compilando esta longa construção, sem desvalorizar em nada a sua importância, esta data foi instituída pela Organização das Nações Unidas no ano de 1992, em referência a década de 1983-1992, estimulado para comemorar resultados do Programa de Ação Mundial para as Pessoas com Deficiência, que listou mais de 200 itens a serem atingidos naquele Programa de caráter mundial, muitos deles, pautados na igualdade e no respeito que lutamos até hoje.

Apenas para contextualizar, estamos em Dezembro de 2020, e assumimos como em  outros países e continentes, uma quarentena  imposta pelo governo que aqui, desde 18 de Março deste ano, além das recomendações de isolamento social, impõe o uso de máscaras faciais, uso de álcool gel e o mínimo de contato possível com a sociedade, o que pra nós, pessoas com deficiência, não parece ter sido tão difícil, já que, de certa forma, apesar de grandes avanços declarados pelos movimentos e conquistas de pessoas com deficiência, há uma parcela deste grupo que, infelizmente, sempre viveu neste isolamento social, profissional, educacional e,  inclusive, o que é pior: o isolamento familiar.

Diante da pandemia, enquanto escrevo este texto no início de Dezembro, só no Brasil são quase 180 mil casos de vidas levadas pela Covid-19. Estamos na classificação seguidos  do primeiro lugar com os  Estados unidos, com quase 270 mil casos, e os índices só crescem a cada  instante na esperança de uma vacina milagrosa chegar para salvar vidas e não deixar sequelas.

Das sequelas e grupos de estudos que a comunidade médica vem estruturando,  certamente alguns terão resultados de limitações, que futuramente, inclusive, irão compor a grossa cota de pessoas com deficiências que hoje no Brasil com novos critérios adotados pelo IBGE em 2018, somam milhões de pessoas com alguma deficiência  no Brasil, mas as pessoas ainda não se deram conta disto também. E entre outras tantas “des” percepções da vida,  que neste texto vou incitar um pouco de esperança.

A mesma esperança que move um grupo pela busca da vacina é o que move quem luta há anos por uma causa e um mundo melhor pela inclusão.

Diante da dura realidade mundial que vivemos, diante de tantas perdas e tragédias acumuladas e violências oportunizadas pela pandemia intensificadas pelas falhas dos sistemas que compõem uma sociedade, precisamos incitar a esperança, resgatá-la em nós, promover uma cultura de paz e ainda, acreditarmos na inclusão mesmo com tantos ataques e retrocessos questionáveis.

O meu sonho aqui mesmo, era poder falar da empatia, dos resultados mágicos e estruturantes de uma cidadania empática, mas o que constatamos foi apenas uma tendência, uma moda durante a pandemia seguida de investimentos políticos com prazo determinado. Enquanto a luta da pessoas com deficiência segue a ferro e fogo por longas datas e séculos com  prazo indeterminado para essa luta atingir índices de conscientização que impliquem no  respeito, na equidade social  e  na execução de  políticas públicas direcionadas a este público,  muitas vezes um misto de cansaço e impulso por novas lutas atingem parte dos ativistas que são pessoas com deficiências das mais variadas formas, tipos e possíveis categorias. E outras sem deficiência, simpatizantes, familiares, na maioria mães, estudantes, interessados, apoiadores, pesquisadores e assim vai crescendo uma fatia da sociedade que consegue olhar o outro além das aparências: físicas, motoras, auditivas, cognitivas, múltiplas e visuais e somam-se numa sociedade mais consciente. É neste olhar, constatando alguns  resultados, que nos surpreendemos com a capacidade e a força destes movimentos sociais em transformar a sociedade. Sim, é possível !

Recentemente, estive em São Paulo, fotografando para um projeto internacional em plena Avenida Paulista, centro imponente, local que foi palco de grandes eventos, grandes passeatas coordenadas por militantes de grande de referência para o nosso movimento somando forças por causas justas em prol da inclusão.

Lá também foi o meu palco em outras lutas, outros movimentos de causas que atuo, mas especialmente representando uma luta com o transporte público em SP, que inclusive por inúmeras vezes, postei aqui na REVISTA REAÇÃO capítulos do desrespeito que enquanto pessoas com deficiência éramos obrigados a enfrentar para termos o direito de ir e vir garantido.

A luta foi persistente e quase desistente, também, tamanho eram os dissabores que eu enfrentava com os gestores das companhias de transporte, apresentando propostas, treinamentos, cobrando posturas de respeito, além do uso e manuseio correto dos elevadores quando tinham, denunciando, exercendo e criando um movimento por melhorias que não beneficiaria somente aos cadeirantes, mas todo aquele que abrange o símbolo real da acessibilidade.

Com todos estes esforços, tudo parecia tão insensível, cada dia de trabalho até chegar na empresa ou na faculdade era uma luta humilhante para milhares de pessoas com deficiência e eu me enquadrava neste grupo, não tínhamos o poder das redes sociais e eu  recebia cartas de todo  Brasil de pessoas com as mesmas dificuldades: motoristas que não paravam ao ver cadeirantes nos pontos de ônibus, mães com filhos especiais, cadeiras motorizadas, elevadores quebrados, ou em perfeito estado mas que ninguém sabia operar etc. Enfim, disto resultaram muitas parcerias, muitos projetos e até um contrato com uma companhia de transporte em Guarulhos/SP, que foi modelo de outros projetos, mas eu não tinha noção dos resultados até que  estive na Avenida Paulista novamente e precisei simular uma parada para o ônibus.

Estávamos  reunidos na Av. Paulista, nos preparando para a produção das fotos, enquanto  fazíamos a reunião, o setting  para maquiagem era criado pela maquiadora Maria Fernanda Barreira, para preparar para os cliques da fotografa Kica De Castro, que escolhi a dedo e fiz a indicação para o projeto. Depois de tudo pronto, a produção exigia fotos reais, do dia a dia e não tinha mais dia a dia do que me fotografar no momento de dar um sinal para o ônibus. Eu internamente com minhas experiências um tanto traumáticas, já vivenciava o transtorno do passado, o motorista não ia parar, se parasse ia dizer que a plataforma não funcionava, enfim, minha cara não ia sair das melhores nas fotos.

Até que, lá vem o ônibus, por dentro eu já me preparava para a batalha do passado.

Levantei o braço, senti até um calafrio e pensei: “quer ver passar direto ?”

O ônibus vinha se aproximando e eu já olhando para o lado para ver se ele tinha parado para algum “andante”, eu estava literalmente sozinha no ponto, estamos na pandemia no máximo tinha uma pomba no chão para me ver na luta com o motorista. De repente o ônibus para… abre a porta. Meu Deus !?! Eu já não estava acreditando, em seguida veio o cobrador e ainda disse: “Oi bom dia” ! Pronto, pensei, meu Deus… tô no lugar errado ! Ele perguntou se eu ia embarcar…

OI ?!? Respondi. E sabe aquele “OI” que fazemos na linguagem de hoje ?

Até eu dizer que não ia, o motorista já estava achando que eu, além de cadeirante, era muda ou surda, sei lá… Eu estava mesmo era chocada com o bom atendimento.

Bom, consegui dispensa-lo e dizer que tinha errado o ônibus e agradeci, fiquei olhando ele partir… A produtora pediu para repetir a cena, novo ônibus, novas fotos.

Estava tudo certo até que veio o segundo ônibus e aconteceu exatamente a mesma coisa. No terceiro ônibus, que efetivamente simulamos a foto (esta que está sendo publicada aqui), eu passei a acreditar que algo tinha mudado no mundo do transporte público e por mim ficaria ali o dia inteiro dando sinal e vendo quem para e quem não para o ônibus para transportar um cidadão cadeirante, uma pessoa com deficiência, um idoso etc.

Não que esta seja a realidade de todo mundo ou mesmo o tempo todo, talvez tenha sido sorte, exceção ou alguém realmente capacitado pela empresa como pedíamos nos movimentos, ou  por fim, a pessoa é um motorista PCD ou tem um PCD em casa, bom seja como for, o resultado foi impactante e me renovou por muitos dias de esperanças

Desta esperança, chegando em casa, mesmo cansada, fiz como sempre fazia no passado via fax ou carta e então mandei um email para a empresa dando parabéns por aquilo que é uma obrigação, mas que sabemos que se não fosse esta luta persistente este teria sido mais um motorista de ônibus que teria passado e não parado em plena Av. Paulista, como em outros tantos cantos do Brasil inteiro.

Disto tudo fica a certeza e a esperança de que temos que continuar lutando, seja qual for a sua causa os desafios são imensos, mas por menores que sejam os resultados poder colher isto ou deixar para o próximo algo menos duro é simplesmente gratificante ! E o que foi pautado universalmente em 1983, no item daquele documento sobre o transporte público, certamente não atingido na década prevista, levamos quase 40 anos para ter algo digno e a esperança daqui em diante é para que outros avanços pela inclusão não levem tanto tempo assim.

 

BOX 

 

Referências

 

“12. A igualdade de oportunidades é o processo mediante o qual o sistema geral da sociedade – o meio físico e cultural, a habitação, o transporte, …- torna-se acessível a todos” http://www.direitoshumanos.usp.br/index.php/Direito-dos-Portadores-de-Defici%C3%AAncia/programa-de-acao-mundial-para-as-pessoas-deficientes.html

 

http://www.direitoshumanos.usp.br/index.php/Direito-dos-Portadores-de-Defici%C3%AAncia/programa-de-acao-mundial-para-as-pessoas-deficientes.html

http://www.unirio.br/acessibilidade/noticias/03-de-dezembro-dia-internacional-da-pessoa-com-deficiencia#:~:text=Pessoas%20com%20Defici%C3%AAncia-,03%20de%20Dezembro%20%2D%20Dia%20Internacional%20Luta%20das%20Pessoas%20com%20Defici%C3%AAncia,t%C3%A9rmino%20da%20d%C3%A9cada%201983%2D1992.

https://diversa.org.br/ibge-mudanca-dados-pessoas-com-deficiencia/#:~:text=Ent%C3%A3o%2C%20em%202018%2C%20o%20IBGE,23%2C9%25%20identificados%20anteriormente.

https://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/comissoes/comissoes-permanentes/cpd/arquivos/cinthia-ministerio-da-saude

Tatiana Rolim

* Tatiana Rolim é Psicóloga, Psicopedagoga, especialização em Psicologia hospitalar e reabilitação, palestrante, consultora de inclusão, autora dos livros “Meu Andar sobre Rodas”, “Maria de Rodas – delicias e desafios na maternidade de mulheres cadeirantes”, atuante em temas da saúde da mulher com deficiência, redatora de projetos sociais, parceira no Ministério Público projeto AVARC – sobre violência contra a mulher. Mãe da Maria Eduarda e apaixonada pela vida.

E-mail: trinclusao@gmail.com

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