Ensurdecer como incluir: língua e cultura surda na sociedade

Libras
  • Por Tiago Ribeiro

            Em certa ocasião, acompanhei uma amiga na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da Tijuca, no Rio de Janeiro. À medida que o letreiro avisada o número do próximo a ser atendido, acompanhado de um aviso sonoro, me dei conta de um burburinho que acontecia na recepção: chegará uma mulher surda procurando ajuda médica, mas ninguém ali sabia Libras, tampouco existia algum intérprete no local, apesar de a acessibilidade ser um direito da pessoa surda assegurada por Lei.

            Para além do desfecho do episódio, me pergunto sobre o quão corriqueiro é, em nosso país, cenas como esta. Recordo-me da indignação de uma amiga surda, professora pós-graduada, que foi a uma delegacia prestar queixa e leu, nos lábios de quem a atendeu, as seguintes palavras: “Libras? Que língua é essa? Ninguém conhece essa linguagem aqui não! Essa mulher não vai ser atendida aqui não. Isso que ela tá dizendo ninguém entende”.

            E ninguém entende!… Porque faltam políticas públicas afirmativas da língua e da cultura surda. Porque na maioria das escolas inclusivas o surdo é obrigado a “aprender” a sua segunda língua (a língua portuguesa) como se fosse a primeira, às vezes inclusive uma língua estrangeira, porém sua língua, a de sinais, é desconhecida de toda a escola, e o sentido de ser surdo é invisibilizado.

            Ora, quando falamos de língua, não é (só) exatamente de língua que estamos falando. Trata-se de todo um oceano de sentidos que ela (a língua) carrega consigo: a possibilidade de conceituar e atribuir sentido ao mundo, de compartilhar experiências, de conhecer sobre o mundo, sobre o outro e sobre si mesmo… O que se nega quando se “nega” a língua?

            A história dos surdos é também a história dessa negação. Em 1880, em Milão, reunidos em um Congresso, professores ouvintes decidiram, em votação da qual os professores surdos foram impedidos de participar, que o uso de sinais era prejudicial ao desenvolvimento dos alunos surdos, motivos pelo qual seria proibido. Muitos países, inclusive o Brasil, aderiram à ideia. No Instituto Nacional de Educação de Surdos, conforme lembra a historiadora e professora do próprio INES, Solange Rocha, os alunos foram proibidos de se comunicar em língua de sinais.

No entanto, se é verdade que a história dos surdos fala de negações, também é verdade que fala de lutas, conquistas e resistências! Não é à toa que neste Setembro Azul, assim chamado pela cor com que os nazistas alemães marcavam os surdos, celebramos não a dor, mas o orgulho surdo, a força, a resistência de um povo que mantém viva sua língua, sua cultura, sua arte, sua literatura!

            É necessário estarmos abertos a perceber e a aprender com a experiência do sujeito surdo, a assumir que estamos sempre em formação, que nossos saberes sobre nós e sobre o outro são insuficientes para compreender a “surdidade”, tão diferente que é da experiência do ser ouvinte neste mundo que nos toca viver.

            E qual a aposta, portanto?

            Por que não uma política linguística de legitimação e desinvisibilização do surdo e de seus artefatos culturais e linguísticos? Onde circula a Libras no nosso cotidiano? Nas escolas? E as histórias com protagonistas surdos? E a arte surda? Já ouvimos falar de Surdolimpíadas?

            Por que não ensurdecer a escola e a sociedade, no sentido de abarcar a Língua de sinais como de e para todos? Representatividade importa, faz parte do movimento de retirar de nosso olhar a mancha com que enxergamos o outro de antemão. Questiono-me sobre aquela moça, naquela UPA na Tijuca que tentei ajudar, mas que, envergonhada, preferiu escrever, a seu modo, para a recepcionista… Lembro dos muitos surdos que não têm acesso a escolas e/ou classes… Que escrita têm produzido e aprendido a produzir em espaços onde sua língua é negada e sua cultura inexistente?

Sim, fico imaginando como será um atendimento médico de cuidado quando não se há uma língua comum… Também penso na minha amiga surda… Que ideia é possível de justiça quando esta nos é negada pelo fato de ser como somos? O que significa para a vida da criança surda quando um médico diz para a família para ela não ter contato com a língua de sinais?

Por isso, ensurdecer a escola. Para que talvez possamos exercitar a escuta visual e aprender com os próprios surdos.

O Dia Nacional da Educação de Surdos é 23 de abril. Temos a comemorar a reconhecimento da LIBRAS como língua de instrução, temos muito mais motivos para lutar: pelo acesso de professores à LIBRAS, pela garantia de professores surdos nas escolas que atendem a alunos surdos, pelo direito das pessoas surdas a aprenderem a LIBRAS, pela inserção da cultura surda nas escolas… Parece que, em vez de comemorar, o verbo de hoje é lutar. Que continuemos lutando por uma Educação de Surdos Bilíngue!

  • Tiago Ribeiro é Orientador Pedagógico dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental Noturno/ Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES), Brasil. autor do livro “Leitura e Escrita na Educação de Surdos”.

** Este texto é de responsabilidade exclusiva de seu autor, e não expressa necessariamente,  a opinião do SISTEMA REAÇÃO – Revista e TV Reação.

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