Entrevista Eliane Lemos

Uma das pioneiras no desenvolvimento do esporte adaptado no Brasil, psicóloga e professora, ela conta quais são os desafios do Instituto Entre Rodas e de uma educação mais humana no País

Fundadora do Instituto Entre Rodas, uma Organização da sociedade civil sediada em São Paulo/SP, a psicóloga Eliane Lemos possui quase 30 anos de trabalho com o esporte adaptado, com crianças e mulheres com deficiência e com famílias em situação de risco social. Formada em Psicologia na Universidade do ABC Paulista (antiga UNIABC, atual UFABC) em 1985, Eliane fez especialização no Atendimento da pessoa com deficiência na Universidade de São Paulo (USP) logo em seguida. Depois cursou mestrado em Distúrbios no Desenvolvimento, na Universidade Presbiteriana Mackenzie, na capital paulista.

A psicóloga foi uma das pioneiras no trabalho com esporte adaptado no Brasil, começou suas atividades nessa área em 1992. “Comecei a trabalhar com o esporte adaptado no Clube dos Amigos dos Deficientes Visuais (CADEVI). Deu muito certo e então fui trabalhar no Clube dos Paraplégicos de São Paulo (CPSP). No CPSP foi formada a primeira equipe brasileira de basquete com cadeirantes do Brasil. Quem criou a equipe foi o Sérgio Seraphin Del Grande. Foi ali que eu comecei a trabalhar com atletas do basquete”, conta Eliane. Del Grande foi o fundador do CPSP em 1958 e um dos dois pioneiros na introdução dos esportes paralímpicos no Brasil.

Após o CPSP, Eliane trabalhou com a equipe do Magic Hands – atletas cadeirantes de basquete que eram apadrinhados pelos jogadores Oscar Schmidt e Magic Paula, considerados até hoje como os maiores jogadores da história do basquete brasileiro. A formação do Magic Hands aconteceu em 1996, na mesma época, em uma equipe de profissionais coordenada pelo professor e educador físico americano Steven Dubner, Eliane participou da criação da Associação Desportiva para Deficientes (ADD) atuando lá por mais de 15 anos. “No ano 2000, desenhamos o primeiro projeto de basquete para crianças cadeirantes no Brasil, o Cesta de Três. Aquele foi um divisor de águas”, conta orgulhosa a psicóloga.

Vamos agora conhecer mais sobre Eliane Lemos:

Revista Reação – Você participou da criação de vários projetos esportivos para crianças cadeirantes. Como surgiu a ideia de criar o Instituto Entre Rodas, também com forte trabalho junto às mulheres com deficiência ?

Eliane Lemos – Em 2005, comecei a me desligar da ADD e em 2009 comecei a desenhar um esboço do que gostaria de desenvolver na área social. Em 2010, um amigo americano, Dr. Scott Rains, me ajudou a estruturar o Entre Rodas definindo seus pilares. Em dezembro de 2013 nasce formalmente o Instituto Entre Rodas. Antes disso, no ano de 2000, ao desenvolver um projeto direcionado a crianças com deficiência, ficou evidente que seria necessário intervir no núcleo familiar. Os resultados desse acompanhamento foram muito positivos porque estávamos mais próximos da realidade diária de cada família. Alguns pais não tinham concluído seus estudos ou estavam desempregados, mães que estavam criando seus filhos sem um companheiro ou apoio familiar e à medida que fazíamos as intervenções, orientações e acompanhamentos, os resultados eram visíveis. Tínhamos um convênio com o ATENDE que buscava as crianças e seus responsáveis para os locais de treinos, outras famílias conseguiam chegar por conta própria. O importante era aproveitarmos bem o tempo, as crianças treinavam e em paralelo nós (eu e os estagiários de psicologia) realizávamos atividades com os pais. Essas informações foram importantes para determinar quem atenderíamos e o que realizaríamos no Instituto Entre Rodas. No início seria para atender as mulheres com deficiência que já eram ou queriam ser atletas, aos poucos fui inserindo outros públicos como as mães das crianças com deficiência. A participação do Dr. Scott Rains foi muito importante porque à medida que discutíamos sobre resultados que gostaríamos de ver no Entre Rodas. Fui ampliando o olhar e aos poucos compreendemos que as mulheres escalpeladas das comunidades ribeirinhas, mulheres quilombolas que defendem o direito das crianças e adolescentes irem à escola, mulheres egressas do sistema prisional também foram incluídas nas possibilidades de projetos que poderíamos desenvolver, chegamos à conclusão de que o Instituto Entre Rodas tem como núcleo a preservação dos direitos humanos.

RR – Qual a importância de levar as crianças para o esporte ?

EL – Porque eram crianças que vinham de comunidades carentes. Por isto, muitas vezes as famílias estavam com problemas de saúde, financeiros, muitos problemas que atrapalhariam o treino das crianças. E como eu sabia dessas situações ? Tínhamos um protocolo, minha assistente, às sextas-feiras ligava para todas as crianças para confirmar a presença no treino que aconteceria no sábado, confirmar o roteiro do ATENDE e para saber como estava a criança em relação à escola, saúde e outras informações que fossem importantes. Essas informações direcionavam minhas ações na semana seguinte. Se houvesse um problema, por exemplo uma questão de saúde, tentávamos encontrar um hospital que atendesse a criança ou o familiar, assim como eu realizava palestras em troca de leite integral e em pó e fraldas, para serem distribuídos para as crianças do projeto que necessitavam e que o excedente era doado para abrigos.

RR – Sem um atendimento às famílias, a recuperação das crianças seria muito mais difícil ?

EL – Exatamente. Foi então que eu pensei em criar o Entre Rodas. Pensei em criar um instituto só para mulheres e meninas cadeirantes, que pudessem ser atletas ou não. Porque eu pensei: eu não tenho só uma menina com deficiência. Eu tenho também a mãe desta menina, que atravessa uma série de problemas. Quem me ajudou a ter esta visão bem abrangente foi o Scott. Era uma visão bem à frente daquilo que existia no Brasil em 2010.

 

RR – Essa era uma visão avançada. Quais seus diferenciais ?

EL – Ela era e ainda é porque a questão da pessoa com deficiência no Brasil está muito ligada ao assistencialismo e isto nem sempre é positivo. Ainda há muito por ser realizado para deixar de ser totalmente assistencialista. Eu mesma já tive uma visão assistencialista. Eu deixei de trabalhar só com a pessoa com deficiência, passei a trabalhar com direitos humanos porque a coisa toda é mais abrangente e tudo está ligado. Veja: a partir do momento que você faz uma intervenção e evita a violência doméstica, você reduz a quantidade de mulheres com deficiência, porque muitas mulheres adquirem uma deficiência como resultado da violência. Veja o exemplo da Maria da Penha. Com isto, ao evitar a violência doméstica, você também reduz a quantidade de crianças nas ruas e consequentemente haverá a diminuição da evasão escolar e índices de criminalidade.

RR – Esse conceito todo de trabalho social veio dos Estados Unidos e da Europa ?

EL – Sim, porque lá as coisas estão socialmente mais avançadas. Existem pessoas que dizem: eu só vou trabalhar com gente com deficiência. Isto é errado, precisa ser desconstruído. É preciso ter um olhar mais abrangente. Eu trabalho com a dignidade da pessoa humana. A pessoa com deficiência não está sozinha: ele ou ela tem uma família, frequenta uma escola. É preciso que esta família, geralmente chefiada por uma mulher no Brasil urbano de hoje, tenha o mínimo de estrutura para apoiar o desenvolvimento da criança e do adolescente. Isto eles já perceberam há mais de 10, 15 anos… nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha, em Portugal, nos outros países europeus. Agora esta percepção chega ao Brasil.

RR – Todos os projetos estão ligados à frequência e ao desempenho escolar da criança ?

EL – Temos dois projetos que estão atrelados à frequência, quanto ao desempenho essa é uma questão mais complexa porque envolve o sistema de avaliação educacional e, tenho algumas ressalvas, principalmente se pensarmos que são muitas as crianças com deficiência, com idade entre 11 e 14 anos que não estão alfabetizadas ainda. É preciso investir nas crianças. Veja: a maioria das famílias que eu acompanhei na outra associação tiveram crianças que estudaram, concluíram o ensino médio, fizeram faculdade e estão no mercado de trabalho. Por que isto é importante ? Porque quebra o círculo vicioso da crença de que não possuem o direito ao sucesso, a sair das dificuldades financeiras, das limitações e da falta de informações. Esta é uma discussão que tem mais de duas décadas. Não basta você apoiar a criança que é cadeirante e começar a jogar basquete ou a praticar qualquer outra modalidade esportiva. Você precisa perguntar para esta criança ou este adolescente: onde você quer estar em dez anos ? Em quinze anos ? É preciso pensar no futuro e como chegar até ele. O que ela quer fazer ? O que deseja aprender ? Precisamos instigar a curiosidade e interesse das crianças. O esporte deve ser o meio e não o fim dessa trajetória no crescimento pessoal.

RR – Como podemos dar exemplos destas situações ?

EL – Podemos da seguinte maneira: hoje você encontra um adulto com deficiência, que jogava basquete e não quis estudar, decidiu não aceitar uma proposta de trabalho, sair dos faróis da cidade. E onde ele está hoje ? Pedindo dinheiro num dos faróis da cidade ou então está sem muitas perspectivas de melhorar suas condições de vida. Falta um projeto de vida. É preciso perguntar para cada criança ou adolescente cadeirante e esportista aonde ele quer chegar. Ele precisa ter informações para poder decidir ser um atleta ou entrar no mercado de trabalho. Com informações e orientações ele pode viver do esporte, hoje já são alguns atletas que conseguiram. Não foi uma jornada fácil, antes houve um grande investimento pessoal e individual. Lembro-me de um atleta que ficou paraplégico aos 15 anos após sofrer um acidente, uma parede desabou em cima dele. Quando comecei a acompanhá-lo ele estava super revoltado. Existe um processo que é inerente a todos os seres humanos diante das perdas que chamamos como elaboração do luto. Esse é um processo constituído por 5 fases: negação, ira/raiva, barganha, depressão e aceitação. Esse jovem estava na fase da ira/raiva. Ele conquistou depois de muitos anos, sua independência, principalmente a emocional, para que pudesse dar continuidade à sua vida. Canalizou sua ira para seguir em frente e fechou o ciclo para começar uma nova etapa.

RR – Então a falta de objetivos pode virar um problema a longo prazo para a pessoa com deficiência  ?

EL – Pode, como pode virar para qualquer pessoa. Veja só, uma situação que acontece atualmente, muitas pessoas com deficiência conseguiram se inserir bem no mercado de trabalho. Outros sentem receio de assumir um contrato de trabalho e perder o benefício que já é garantido. Com a devida orientação e apoio ele consegue compreender que vale se dedicar ao trabalho numa empresa, por exemplo, para que possa se desenvolver cada vez mais. Por isto eu digo que é preciso quebrar a visão assistencialista de forma que seja compreensível para todos. O custo da deficiência e a ausência do Estado para suprir necessidades básicas dificultam tomar uma decisão entre ter um salário ou manter um benefício.

 

RR – Quais projetos a Entre Rodas desenvolve atualmente ?

EL – Desenvolvemos quatro projetos no Instituto: “As Filhas de Gaia”: para meninas entre 12 e 17 anos de idade. “Mães que tecem”: para mulheres que são mães de crianças com deficiência, vítimas da violência, com deficiência e egressa do sistema prisional. “Autoestima”: para mulheres com e sem deficiência. “Inclusive Você”: para crianças com deficiência entre 5 e 14 anos de idade. Este é o projeto com maior foco do Instituto para 2018, que tem como principais objetivos construir um legado na educação a partir dos 4 pilares da educação e a doação de cadeiras de rodas. Esse projeto foi desenvolvido pelo Fernando Aranha, atleta de triathlon (primeiro atleta brasileiro a participar dos Jogos Paralímpicos de Inverno, em Sochi, 2014). No projeto, a Alphamix, assume 50% do preço de uma cadeira de rodas de alumínio, feita sob medida e da cor que a criança escolhe, os outros 50% são de nossa responsabilidade. Uma cadeira de rodas mais leve, sob medida que ajuda na independência das crianças e dos adolescentes melhora a autoestima e aumenta sua mobilidade. Para muitas famílias faltam recursos para comprar uma cadeira de rodas no valor de R$ 5.400 – às vezes até mesmo para comprar uma cadeira com qualidade abaixo da que doamos. Este projeto tem um impacto social e econômico significativo e foi lançado em 2015. Nossa meta para 2018 é de 180 cadeiras doadas para crianças das mais diferentes regiões do Brasil. Queremos atender a 180 pessoas. No dia 3 de dezembro de 2017 lançamos a campanha #NÃOÉMITO, como estratégia de captação de recursos para a compra das cadeiras de rodas. Essa campanha tem, desde então, ampliado a cada dia com a adesão de representantes dos três setores da sociedade civil. Nessa campanha desconstruímos a lenda urbana das campanhas de arrecadação de lacres de latinhas de alumínio que eram trocados por cadeiras de rodas básicas e construímos o ciclo produtivo desde o momento da arrecadação dos lacres, comercialização e entrega da cadeira de rodas sob medida para as crianças que estão inscritas no projeto “Inclusive Você”. Mais informações podem ser encontradas na página do Instituto: www.entrerodas.org.

RR – O que te define e o seu trabalho ?

EL – Penso em alguns termos com significados que façam sentido para mim e cheguei à conclusão que depois de completar 55 anos de idade, não caibo numa definição tão exata. Sou uma junção de vitórias e derrotas, de acertos e erros, do exercício da vaidade e do aprendizado com a humildade, com a ira e minha capacidade de amar, que eleger apenas um indicador me deixa desconfortável. O que me define ? Ser quem eu sou e para saber quem eu sou, só precisa chegar mais perto e chegando mais perto vai perceber que estou em constante aprendizado e transformação. Gosto disso !

Gratidão, esse é o sentimento por esse momento !