Especialista chama atenção para aspectos ainda pouco discutidos sobre a esclerose múltipla

No mês que marca o Dia Nacional de Conscientização sobre a Esclerose Múltipla (30 de agosto), o neurologista e especialista em doenças desmielinizantes e neuroftalmologia, Alessandro Finkelsztejn, reforça a importância da conscientização da esclerose múltipla (EM) de maneira ampla. “A palavra conscientização é um termo abrangente, que vai desde a conscientização do paciente – no sentido de aceitação da doença, por exemplo – até a conscientização da sociedade como um todo”, explica Finkelsztejn.

De acordo com o especialista, apesar de muitos aspectos da esclerose múltipla já serem atualmente bastante debatidos, ainda existem desafios. Neste sentido, o médico chama atenção para a necessidade de o paciente ter um acompanhamento oftalmológico. “O acesso da população ao oftalmologista e neuroftalmologista deveria ser mais fácil. Quem tem esclerose múltipla, precisa ter acompanhamento dessa especialidade – uma vez que a EM também pode trazer complicações na visão. Também não posso deixar de falar que não é raro as pessoas com EM confundirem alterações oculares simples (que podem ser tratadas com óculos ou uso de colírio lubrificante) com comprometimento grave do nervo óptico, e com isso acabam, muitas vezes, por falta de conhecimento ou acesso ao especialista, não tratando da maneira adequada”, ressalta.

A EM é doença autoimune, na qual o sistema imunológico ataca o sistema nervoso central (cérebro e medula espinhal). Seus principais sintomas são fadiga, problemas de visão (diplopia, neurite óptica, embaçamento), motores (perda de força ou função; perda de equilíbrio) e alterações sensoriais (formigamentos, sensação de queimação). Devido sua diversidade de sinais e sintomas, não é incomum o diagnóstico tardio da esclerose múltipla. Daí a relevância de estar vigilante. “Eu sempre digo que é importante o olhar atento dos familiares e dos médicos. A percepção de alterações cognitivas é fundamental. Se você perceber que antes (um familiar seu) conseguia executar atividades com uma determinada velocidade e destreza, e agora ele está dificuldade, é preciso estar alerta”, reforça Finkelsztejn.

Mas não é só isso. O médico especialista em doenças desmielinizantes também traz um alerta sobre outros aspectos relacionados à EM. “Estamos falando de uma doença que afeta adultos em pleno potencial produtivo: a esclerose múltipla é mais comum entre mulheres jovens (de 20 a 40 anos). Por isso, o diagnóstico precoce e o tratamento adequado são primordiais. Se a pessoa com EM não for bem tratada, ela pode ficar com limitações”, afirma. Outros pontos abordados pelo Dr. Alessandro estão relacionados à importância da saúde vacinal e a necessidade de manter uma dieta equilibrada. “Estar com a vacinação em dia e dar a devida importância ao tema é fundamental para quem tem esclerose múltipla. Também não podemos deixar de falar da relevância de ter uma dieta saudável. Apesar de ainda não termos respostas bem definidas nesse quesito, sabemos que manter uma dieta equilibrada é fundamental: se alimentar com mais proteínas, mais leguminosas e folhas e menos carboidratos”, afirma.

O especialista ainda destaca que, por se tratar de uma doença incapacitante com diferentes níveis de atividade, é de extrema importância que o tratamento da esclerose múltipla seja personalizado, de acordo com a necessidade de cada paciente. A EM é dividida em três tipos: esclerose múltipla remitente-recorrente (EM-RR), primariamente progressiva (EM-PP) e secundariamente progressiva (EM-SP). A EM-RR é a forma mais comum da doença, atinge cerca de 80% dos pacientes, que passam por períodos de surtos intercalados com momentos de remissão de sintomas. A EM-PP tem como característica a evolução gradual, ao longo do tempo. Já a EM-SP, apresenta períodos de progressão com possibilidades de surtos concomitantes.

Diante destas particularidades, o neurologista ressalta que é senso comum entre os especialistas a necessidade de o paciente ter acesso rápido à terapia mais adequada. “Nos casos de esclerose múltipla altamente ativa, existe uma tendência que sugere que quanto mais precocemente o paciente for diagnosticado e, tratado com medicações de alta eficácia, melhor será o controle da EM e estabilidade da doença. O atraso em atingir as medicações mais apropriadas pode facilitar a presença de surtos e de sequelas”, conclui.

Sobre a esclerose múltipla[2,3,4]: é uma doença que compromete o sistema nervoso central, um processo de inflamação crônica de natureza autoimune que pode causar desde problemas momentâneos de visão, falta de equilíbrio até sintomas mais graves, como cegueira e paralisia completa dos membros. A doença está relacionada à destruição da mielina – membrana que envolve as fibras nervosas responsáveis pela condução dos impulsos elétricos no cérebro, medula espinhal e nervos ópticos. A perda da mielina pode dificultar e até mesmo interromper a transmissão de impulsos. A inflamação pode atingir diferentes partes do sistema nervoso, provocando sintomas distintos, que podem ser leves ou severos, sem hora certa para aparecer. A doença geralmente surge sob a forma de surtos recorrentes, sintomas neurológicos que duram ao menos um dia. A maioria dos pacientes diagnosticados são jovens, entre 20 e 40 anos, o que resulta em um impacto pessoal, social e econômico considerável por ser uma fase extremamente ativa do ser humano. A progressão, a gravidade e a especificidade dos sintomas são imprevisíveis e variam de uma pessoa para outra. Algumas são minimamente afetadas, enquanto outras sofrem rápida progressão até a incapacidade total. É uma doença degenerativa, que progride quando não tratada. É senso comum entre a classe médica que para controlar os sintomas e reduzir a progressão da doença, o diagnóstico e o tratamento precoce são essenciais.

Referências:
[1]Dia Nacional de Conscientização Sobre a Esclerose Múltipla. Ministério da Saúde. Disponível em https://bvsms.saude.gov.br/30-8-dia-nacional-de-conscientizacao-sobre-a-esclerose-multipla-2/. Acesso em: Agosto 2021
[2]Neeta Garg1 & Thomas W. Smith2. An update on immunopathogenesis, diagnosis, and treatment of multiple sclerosis. Barin and Behavior. Brain and Behavior, 2015; 5(9)
[3]Noseworthy JH, Lucchinetti C, Rodriguez M, Weinshenker BG. Multiple sclerosis. N Engl J Med. 2000;343(13):938-52.
[4]Cristiano E, Rojas J, Romano M, Frider N, Machnicki G, Giunta D, et al. The epidemiology of multiple sclerosis in Latin America and the Caribbean: a systematic review. Mult Scler. 2013;19(7):844-54.