Estudo internacional aponta que 1 em cada 3 crianças com deficiência no mundo sofreu algum tipo de violência

Estimativas sugerem que o público com deficiência tem duas vezes mais chances de ser alvo de ações violentas. Apesar dos avanços na conscientização e nas políticas públicas nos últimos anos, crianças e adolescentes com deficiência sofrem violências física, sexual e emocional e são vítimas de negligência em taxas consideravelmente mais altas do que aqueles sem deficiência.

O alerta é de um amplo estudo de revisão com base em pesquisas realizadas entre 1990 e 2020, envolvendo mais de 16 milhões de indivíduos de 25 países, incluindo o Brasil. Os resultados foram publicados no periódico científico The Lancet Child & Adolescent Health nesse mês de março.

De acordo com o estudo, jovens com transtornos mentais e deficiências cognitivas ou de aprendizagem, como transtorno de déficit de atenção, hiperatividade e autismo, por exemplo, são especialmente mais propensos a sofrer violência.

Estima-se que 291 milhões de crianças e adolescentes tenham epilepsia, deficiência intelectual, deficiência visual ou perda auditiva – representando cerca de 11% da população total de crianças e adolescentes em todo o mundo. Além dos casos associados a outras deficiências físicas e mentais.

Segundo o estudo, a maioria das crianças com deficiência – mais de 94% – vive em países de baixa e média renda, onde convergem vários riscos. Estigma, discriminação, falta de informação sobre deficiência e de acesso inadequado a apoio social para cuidadores contribuem para os níveis mais altos de violência sentida por crianças com deficiência.

Os dados foram analisados a partir de 98 estudos, envolvendo mais de 16,8 milhões de crianças de 0 a 18 anos, incluindo 75 estudos de países de alta renda (Estados Unidos, Austrália, Reino Unido, Irlanda, Israel, Espanha, entre outros) e 23 estudos de sete países de baixa e média renda (Brasil, China, Irã, Líbano, Sérvia, Turquia e Uganda).

A análise de dados de 92 estudos que analisam a prevalência mostrou que as taxas gerais de violência variaram de acordo com a deficiência e foram ligeiramente mais altas entre crianças com transtornos mentais (34%) e deficiências cognitivas ou de aprendizagem (33%) do que entre crianças com deficiências sensoriais (27% ), limitações físicas ou de mobilidade (26%) e doenças crônicas (21%).

Os tipos de violência mais relatados foram os emocionais e os físicos, vivenciados por cerca de uma em cada três crianças e adolescentes com deficiência. As estimativas sugerem que uma em cada cinco crianças com deficiência sofre negligência e uma em cada dez sofreu violência sexual.

O estudo também chama a atenção para os altos níveis de bullying entre colegas, estimando que quase 40% das crianças com deficiência tenham sofrido bullying por outras. O bullying presencial, como atos físicos, verbais ou relacionais, como bater e chutar, insultar e ameaçar ou exclusão social, é mais comum (37%) do que o cyberbullying (23%), praticado online.

Em geral, crianças com deficiência que vivem em países de baixa renda tiveram taxas mais altas de violência do que aquelas em países de alta renda – possivelmente, segundo o estudo, como resultado de acesso limitado a serviços de prevenção e apoio, níveis mais baixos de proteção legal e atitudes e normas que estigmatizam pessoas com deficiência e levam a uma maior tolerância social à violência.