Experimento social

* Por Letícia Francisco

No mundo de hoje, é muito fácil nos preocuparmos somente com aquilo que nos cerca em nosso próprio cotidiano, criando uma camada de distanciamento dos demais. Porque olhar para o coletivo pode exigir um grande esforço ao qual, talvez, não estejamos dispostos.

Principalmente em uma atualidade onde a frase ‘distanciamento social’ se tornou, praticamente, uma lei. A crise global provocada pela Covid-19 nos confinou dentro de nossas casas, nos afastou de nossos parentes e amigos, tolheu nossa liberdade de ir e vir. Mas será que esta pandemia afetou nossa capacidade de sentir e de praticar a empatia?
Uma coisa é fato: toda esta situação nos colocou em um dos maiores experimentos sociais já visto na história da humanidade. Primeiro, em relação a nós mesmos, de nos redescobrirmos e nos reinventarmos enquanto humanidade. E também sobre como nossa capacidade empática pode ser muito mais aguçada em momentos de dificuldades como este.

Para Elke Van Hoof, professora de psicologia da saúde na Universidade de Vrije, em Bruxelas, a pandemia mostrou o quanto o ser humano é resiliente, conseguindo transformar sua vida e suas rotinas, adaptando-se a situação de quarentena. Ela ainda complementa dizendo que “temos forças para nos tornar a melhor versão de nós mesmos, independente da situação difícil em que nos encontramos.”

Além dessa capacidade de reinvenção de nós mesmos, toda essa crise de distanciamento e isolamento social também foi benéfica ao nos mostrar nossa capacidade de empatia. Um dos pontos fundamentais se dá em relação a preservação da saúde de nossos pais e avós, os quais tivemos que evitar qualquer tipo de contato físico até a chegada das vacinas que pudessem protege-los.

A empatia é a capacidade de observar a experiência de vida do outro e conseguir se colocar, ou sentir, naquela mesma situação. Desde o início da pandemia, foi possível observar atitudes de generosidade, como jovens que se colocaram à disposição para fazer as compras para pessoas idosas.

Vimos empreendedores doando produtos e serviços aos profissionais da saúde que estão na linha de frente ao Covid-19. Pessoas preparando e levando comida aos caminhoneiros na beira das estradas, pois estes são os responsáveis por abastecer os supermercados do país inteiro.

A empatia é um fortalecedor de vínculos entre nós seres humanos, pois no momento em que conseguimos enxergar a situação do outro através das suas vivências e das suas dores, nos permitimos colocar a compaixão e a generosidade na ação, e ajudamos a diminuir o sofrimento do outro.

Mesmo com toda a situação de medo e insegurança pelo desconhecido, a pandemia também propiciou que, de alguma forma, nos sentíssemos próximos e solícitos aos outros. Nos fez ver que, mesmo estando todos na mesma situação, alguns acabam sofrendo mais que outros.

Essa é a beleza do experimento social enquanto prática e não apenas na teoria. Pois é nas situações que vivenciamos de fato que conseguimos aprender verdadeiramente. E no que diz respeito a criação desse despertar da empatia, o experimento social é uma das melhores formas para tangibilizar essa capacidade.

Porque quando você percebe que algo muito simples te conecta ao outro, isto te causa uma sensação em que faz você pensar que tudo vale a pena, não é mesmo?

Letícia Francisco é Empreendedora Social. CEO and Founder at Semearhis. Consultora em Acessibilidade. Com mais de 14 anos de expertise na atuação com a comunidade PcD. Psicopedagoga, Tradutora e Intérprete de LIBRAS. Idealizadora do projeto LIBRAS no Exército 3GAAAE de Caxias do Sul/RS.