Extra ! Extra ! Liquidação !!!

Quem nunca viu em lojas (ou em outros setores) produtos em ofertas ou promoções ? São roupas, utensílios, alimentos, móveis… Sim, e existem liquidações de TUDO, inclusive de pessoas.

Como assim ? Pessoas ? Sim, e é só observarmos ao nosso redor. Vemos pessoas perdendo seu valor diante de tantas situações, em que não são valorizadas como eram (ou nunca foram). Pessoas com diversas dificuldades, pessoas que estão desempregadas, que não têm lugar para morar, pessoas que estão desacreditadas, sem um cheiro de bom perfume, pessoas esquecidas em casas inadequadas para idosos ou em recuperação, pessoas com algum tipo de deficiência, dificuldade de locomoção ou outras com dificuldades em se comunicar ou expressar, sem poder econômico de destaque…

Sim, muitas dessas pessoas estão em carência de afeto, de respeito, de valorização, de humanidade. Um estado de liquidação emocional.

Quando chegam em lugares públicos, com frequência são retiradas. Se são pessoas que dão muito trabalho (talvez para comer, falar, andar, ouvir…), devem ficar invisíveis, pois geralmente não são vistas quando identificadas, sendo assim excluídas ou ignoradas (Não me refiro a todas as situações. Estou abordando um aspecto. Essa é uma abordagem bastante rica, com muitas vertentes e considerações. Refiro-me a situações de uma maneira geral).

Em tempos em que a consideração muitas vezes está atrelada a benefícios, em que o interesse é a troca entre as partes, em que sentimentos são supérfluos e o amor vai se esfriando, faz-se necessário um toque de uma sirene ou trombeta, como alerta em relação a isso.

Quando uma pessoa não serve mais para o que se precisa em um determinado trabalho ou grupo, para que mantê-la por perto ? Quando deixa de ser útil, por que me relacionar com ela ? Quando não corresponde a alguma expectativa, deve ser ignorada ? Quando a pessoa encontra-se amputada na alma e é julgada como fraca e não consegue realizar como antes, melhor deixá-la de lado ?

“Você não pode sentir essas coisas !”… “Você tem que ser forte !”… “Você não pode se sentir desse jeito !”… “Você é uma pessoa inteligente, não pode se entregar !”… ”Você não…”… “Você não…” !!! Quantas vezes já falamos ou ouvimos frases assim ?

A “vítima” geralmente só precisa de uma presença que a apóie e nem precisa de palavras. Só a presença ou compreensão já faz a diferença (positiva).

Um caso

 

Na Reabilitação acompanhei um jovem com deficiência visual que não conseguia reagir à perda da visão porque tudo ao seu redor havia sido perdido, destruído. Pessoas se afastaram, se cansaram, até mesmo os que se diziam “amigos”, e na fase em que se encontrava, precisava de atenção, mas como dava um certo trabalho por ter crises de choro e lamúrias, se sentia cada vez mais só (compreensível também que cada um tem seus limites e muitos se cansam mesmo). Ele não conseguia realizar nenhuma tarefa proposta no setor de Terapia Ocupacional e foi preciso rever a programação e focar primeiro na necessidade dele do momento. Ele não queria respostas, mas que alguém o escutasse. Havia abandonado vários serviços de Reabilitação, porque não encontrou quem pudesse escutá-lo primeiro para depois solicitar tarefas. A demanda era grande e a exigência era que fosse cumprido o protocolo de tarefas e fosse logo “reabilitado”, sem envolvimento com suas emoções.

“Interessante”, pois sabemos que a reabilitação de uma pessoa acontece nos níveis da conhecida abordagem “bio-psico-social-espiritual” (crenças de cada um), que são áreas interligadas. Porém, isso ocorre não apenas em alguns poucos serviços (ainda bem que são poucos), mas no dia a dia, na família, sociedade, comunidades e nos relacionamentos em geral.

Então, a pessoa costuma perder o amor próprio, torna-se desvalorizada e qualquer coisa mínima que chegar até ela já é o bastante. Não necessita de tempo, de abraço, de escuta, de palavras… afinal, dá trabalho ou “ela já sabe o que tem que fazer”. Mas, será que ela consegue sozinha ? Será que mais um pouco de apoio não é o que falta para melhorar ?  “Dá trabalho”, exige tempo.

O trabalho para com quem passa por essa “crise” é começando pela própria palavra: crise. Esta palavra, para muitos, é considerada como oportunidade para aprendizado.  Sabemos, segundo estudos e práticas, que com estímulos positivos (escuta, atenção, valorização, determinação, insistência, incentivo, persistência e, claro, AMOR !), chegará o momento em que a pessoa atendida terá a oportunidade de optar por se acomodar/paralisar OU agir em direção ao seu caminho de objetivos, sonhos e sucesso, com atitudes proativas.

Isso dá trabalho ? Claro que sim ! Isso custa paciência e investimento de tempo ? Claro que sim ! É desafiador ? Claro que sim ! Pode ser um processo longo, de recaídas, frustrações, tristezas e raivas ? Claaaaaro que siiiim ! Mas… pode contribuir para uma reabilitação emocional, física, outras ? SIIIM !!!

É emocionante presenciar que cada um (no seu tempo particular) pode reconstruir-se e usufruir uma vida que podemos chamar de vida abundante, quando não mais se deixa ser influenciado pela valorização ou desvalorização de outros, pelo amor ou desamor de outras pessoas que tem outros valores. Esse é um caminho de desenvolvimento de sucesso, seja em Reabilitação, como nas demais áreas da vida.

Que possamos começar por nós, não nos desvalorizando, sabendo que também podemos valorizar os outros com suas diferenças e semelhanças, com seus limites e superações, com seus menos e seus mais. Que possamos não mendigar afetos nem regularmos o tempo que cada um precisa para se sentir melhor. Que possamos nos dar atenção para também doá-la para quem necessita. É assim que começa a reabilitação. É assim que se trabalha (e se vive) com dignidade e conseqüente sucesso. É sempre olhar o outro sob o ponto de vista dele. É o fundamental para que qualquer trabalho tenha resultados surpreendentes.

 

Quanto ao jovem citado no exemplo

O processo de Reabilitação durou cerca de um ano e meio, em que realizou atividades de estimulação tátil, coordenação motora, atividades de vida diária e outras, adquirindo sua independência e autonomia em muitas áreas. Ele pode conquistar muitas coisas. Hoje ele tem uma família estruturada, um trabalho bem sucedido, vida ativa socialmente, amigos sinceros e desafios diários como qualquer pessoa.

Quem se interessar… procure uma pessoa em “liquidação” próxima a você ! E contribua para que seja uma pessoa valorizada e reconhecida. Uma verdadeira obra prima de “leilão”.

Quem dá mais ?
“Onde está o seu tesouro, ali estará o seu coração”.


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