Felipe Rigoni Capixaba é eleito o primeiro deputado federal cego do Brasil

Felipe Rigoni Lopes é cego, solteiro, nascido na cidade de Linhares/ES em 13 de junho de 1991. Ele acaba de ser eleito Deputado Federal pelo PSB – Partido Socialista Brasileiro com 84.405 votos totalizados, obtendo 4,37 % dos votos válidos e o segundo deputado federal mais votado do Espírito Santo. Foi a primeira vez que concorreu ao cargo. É o primeiro parlamentar cego na Câmara dos Deputados e vai assumir o cargo em fevereiro de 2019.

Para tentar evitar os problemas causados por uma uveíte, inflamação nos olhos, aos 15 anos, depois de 17 cirurgias, Felipe ficou completamente cego. Mas isso não o impediu de realizar seus sonhos, optar por suas escolhas e buscar seus objetivos.

Com 27 anos de idade, o engenheiro Felipe Rigoni chega a Brasília/DF com uma proposta baseada em três bandeiras: defender a igualdade de oportunidade, cobrar eficiência do governo e investimentos reais em educação. Ele garante que vai trabalhar incansavelmente para um mandato coletivo, para renovar a política brasileira.

No entanto, uma das suas primeiras ações é realizar um processo seletivo para poder escolher os melhores profissionais para preencher os cargos em seu gabinete na Câmara dos Deputados. Apenas dois cargos serão preenchidos por sua indicação, os demais precisarão comprovar capacidade profissional para caminhar ao seu lado nos seus 4 anos de mandato como Deputado Federal.

Em entrevista exclusiva à Revista Reação, o jovem parlamentar capixaba fala com detalhes da sua vida e de seus projetos para executar como o primeiro deputado federal cego do Brasil, entretanto, afirma: “não quero ficar conhecido por ser o primeiro deputado federal cego. Quero ser conhecido pelo trabalho que vou realizar”.

Revista Reação – Gostaríamos que nos contasse um pouco mais sobre você e sua trajetória de vida.

Felipe Rigoni – Já enfrentei algumas dificuldades, mas sempre encontrei apoio em minha família. Aos 6 anos meus pais começaram a perceber que tudo o que eu precisava fazer tinha que ser de muito perto. Descobrimos que eu tinha uveíte, sem cura na época. A doença foi evoluindo e acarretando problemas como cataratas, descolamentos de retina, entre outras coisas. Aos 15 anos acabei ficando cego. Ficar cego gradualmente é muito duro, porque você fica com aquela ponta de esperança de voltar a enxergar o tempo todo e foi nesse momento, em que a corda da esperança teve que ser cortada, que cheguei a entrar em um quadro depressivo, mas virei o jogo com bastante esforço e o apoio da família e amigos. Certo dia, em que estava muito mal, meu pai sentou-se ao meu lado e disse: Felipe lembra que você tem uma escolha. E depois foi embora. Na época não entendi. Percebi o que ele havia me dito anos depois, quando li ‘Em Busca de Sentido’, de Viktor Frankl, um sobrevivente de Auschewitz, que diz: o homem pode ser despojado de tudo, menos da liberdade de escolher que atitude tomar diante das circunstâncias.

RR – Como foi a experiência de estudar fora do Brasil sendo cego ?

FR – Fiz um intercâmbio em Bristol, Rhode Island, para melhorar o meu inglês. Foi uma experiência enriquecedora, não digo prazerosa, como costumam dizer. No meu caso foi enriquecedor porque fiquei muito sozinho. Isso foi muito importante, tanto para um sentido de reflexão da vida, mas também porque foi desta maneira que aprendi a pedir ajuda, algo que eu não sabia fazer antes. Para você ter uma ideia, eu ficava duas ou três horas sentado no Campus da Universidade Federal em Ouro Preto/MG, até que alguém que me conhecesse fosse me buscar. Lá nos EUA, ou eu pedia ajuda ou não tinha alguém para me buscar. Acabei tendo que pedir na marra e isso me fez muito bem. Mudei muito minha atitude diante dessa vulnerabilidade. Isso me fez aceitar muito mais quem eu sou, o fato de eu ser cego, o fato de qualquer ser humano depender demais das outras pessoas.

RR – Quais as suas experiências profissionais ?

FR – Sou formado em engenharia de produção pela Universidade Federal de Ouro Preto/MG. Lá comandei a Empresa Júnior do curso e fui um dos responsáveis por aumentar o número de projetos de consultoria executados e crescer o faturamento em um ano. Depois, já na Federação de Empresas Juniores presidi o Conselho da Brasil Junior em 2015. Logo que saí da Brasil Junior, estava com uma enorme vontade de transformar o Brasil… era muito forte. Trabalhei como coaching em desenvolvimento humano. Fiz vários cursos sobre esses temas durante a faculdade junto do Movimento Empresa Júnior e percebi que era o que eu queria fazer, pelo menos nos anos seguintes.

RR – E na vida política ? Quando começou ?

FR – Decidi fazer parte da política quando passei a entender que, além das próprias decisões, as pessoas precisam de um ambiente que dê oportunidades iguais, terem suporte e opções de escolha. Fui candidato a vereador por Linhares/ES em 2016, recebendo 1.156 votos em um pool de 80 mil votos, mas não fui eleito. Nesses 2 anos fui fazer mestrado em políticas públicas em Oxford como bolsista da Fundação Estudar e participei da fundação do movimento Acredito, que defende a renovação política. Participei da primeira turma de alunos do RenovaBR. Hoje estou mais preparado para os novos desafios. Tenho plena convicção de que, em 2019, teremos uma chance real de colocar o país em um acelerador de desenvolvimento ou em um abismo real. Vai ser uma enorme responsabilidade.

RR – Sua campanha foi diferente. Contou com a ajuda de doações voluntárias pelas redes sociais. Como foi ?

FR – Para arcar com as minhas despesas de campanha, em tempos de proibição de doação empresarial, organizei um crowdfunding, ou seja, o financiamento coletivo. Usei muito as redes sociais para disseminar ideias a partir de vídeos e busquei a aproximação dos eleitores através de aplicativos, como o whatsapp. Minha eleição foi graças ao trabalho de mais de 2 mil voluntários que ajudaram nas campanhas de rua e pelas redes sociais. Meu pai foi muito importante em tudo isso. Sem ele, com certeza, não conseguiria essa vitória.

RR – Pode falar sobre suas propostas para seu mandato ?

FR – Elas seguem o manifesto do “Acredito”, formado por liberais progressistas, ou seja, liberais na economia e mais progressistas nos costumes. Em uma das propostas está a de desempenhar um mandato compartilhado, em que as decisões são divididas entre representantes de várias instituições e grupos da sociedade. Minha ideia é convidar 100 instituições do ES e nacionais para montarem um conselho parlamentar, que será responsável por definir, conjuntamente quantas e quais serão minhas emendas e como votar em determinadas PECs. Haverá instituições de empresários, pessoas com deficiências, cidades… Quero compartilhar meu mandato com as pessoas e fazer o máximo possível.

RR – Que temas pensa apresentar ? Por exemplo, a reforma política ?

FR – Sim. Considero prioritária a reforma política. Para o sistema eleitoral meu modelo preferido é o do voto distrital misto. Acho que precisamos de uma proporcionalidade no Brasil, porque, além de muito grande o país é muito diverso e só o sistema proporcional consegue abarcar uma diversidade tão grande. Mas o jeito que é feito aqui gera muita distorção, é muito caro e distancia o eleito do eleitor e a governabilidade vai quase a zero. O distrital misto, com adaptações à realidade, seria uma boa solução. Podemos, assim, aproximar o cidadão do eleito, reduzimos os custos de campanha e o número de partidos e forçamos os partidos a terem suas ideias concretas. Tenho projetos que visam a valorização da profissão do professor, cujo salário precisa ser revisto, buscando a motivação da categoria. Temos que respeitar a Constituição e trabalhar pela erradicação do analfabetismo no país.

RR – Outros dois importantes assuntos estão na pauta nacional: a reforma trabalhista e da previdência. De que forma pretende encarar esses dois temas ?

FR – A reforma trabalhista, aprovada pelo atual Governo é boa, no geral, mas precisa de alterações que são necessárias, como, por exemplo, buscar uma solução para que não se restrinja o acesso à Justiça, já que atualmente as pessoas que entram com uma ação contra uma empresa e acabam perdendo tem que pagar os honorários advocatícios. Precisamos de uma mudança tributária, porque é necessário reduzir os custos da folha de pagamento e acabar com o imposto sindical. Já a reforma da previdência tem que prever o fim dos privilégios, principalmente no setor público. Temos que instituir uma idade mínima, mesmo que transitória e mudar o regime de repartição para capitalização. O bônus demográfico está acabando e a proporção de trabalhador para aposentado está diminuindo cada vez mais. Isso é insustentável.

RR – Já esteve na Câmara dos Deputados ?

FR – Sim. Já me reuni com representantes de áreas técnicas para garantir uma atuação parlamentar eficiente desde a posse, prevista para 1° de fevereiro de 2019. Vão adaptar alguns sistemas para fazer a conexão com o software de leitura de tela que uso. Serão colocados piso e mapas táteis em alguns locais, um projeto de GPS interno – que funciona por bluetooth – e que também vai ajudar muito na locomoção e na mobilidade das pessoas. Terei paciência para as adaptações necessárias de acessibilidade. Minha luta pela inclusão será meu dia a dia como exemplo. Sempre lidei com muita leveza e é meu papel ensinar as pessoas a lidarem comigo. Vou chegar, exigir adaptações e ter paciência, criando espaço devagar.

RR – Como avalia a inclusão da Pessoa com Deficiência ?

FR – A lei de inclusão é linda, mas a execução dessa lei é precária. Vou fiscalizar que a adoção seja efetiva. Não dá para aceitar as prefeituras que ignoram a educação inclusiva. Em meu mandato, quero ter o real papel de fiscalizador das legislações existentes.

RR – Como é ter a responsabilidade de ser o primeiro deputado federal com deficiência visual no Brasil ?

FR – Sempre temos a escolha de que atitude tomar diante das circunstâncias. A responsabilidade é enorme, não só porque sou o primeiro cego a ocupar uma cadeira na Câmara Federal, mas porque vou ser deputado federal em um momento de transição muito grande. Vai ser uma responsabilidade gigantesca. É por isso que meu mandato vai ser compartilhado.

RR – Acredita ser possível esse modelo de mandato compartilhado ?

FR – Sim. Acredito porque uma das principais falhas da nossa democracia é a distância entre o eleito e o eleitor. E se você já tem instituições que representam e ajudam as pessoas dentro de várias classes e áreas da sociedade, por que não traze-las para dentro do mandato mesmo, com poder real ? Vai ser uma experiência intensa. Com certeza discutiremos demais, mas acho que vai valer a pena.

RR – É verdade que vai recusar o auxílio moradia ?

FR – Vou recusar esse auxílio que os parlamentares têm direito. Vou usar o meu salário para custear os meus gastos.

RR – Quais são suas perspectivas ? Deixe um recado aos nossos leitores.

FR – Quero ser mais do que o primeiro deputado federal cego do Brasil. As circunstâncias hoje no Brasil não estão favoráveis. Corremos um risco seríssimo de levar o país a uma crise ainda mais profunda, de colocar em cheque nossa democracia. É o momento de mudar, não dá mais para negar a política. Está suja, é muita corrupção, mas ou quem é bom gosta da política ou quem gosta da política vai mandar em quem é bom.