Foi mal

Esse texto é um relato de uma mãe, no caso eu, que se sente de mãos atadas por, mesmo tendo condições de pagar, não conseguir proporcionar ao seu filho atividades nas quais ele poderia desenvolver seu potencial. Muito triste viver numa cidade, num país, onde os autistas são esquecidos, onde não existam políticas públicas, onde temos que nos transformar em terapeutas à força, onde nos sentimos desamparados… Onde existem autistas algemados, sem tratamento, esperando a morte…

O que precisam que eu faça para que ele continue aqui? Esse foi o conselho de uma amiga, no dia anterior à reunião com a coordenadora do curso que meu filho frequentava numa Universidade conceituada do Rio.

Mas não adiantou. Nem tive a chance de perguntar. Meu filho foi expulso no dia 16/06/2019, sem motivo aparente convidado a se retirar de um curso de inclusão! Inventaram algumas desculpas, como ‘não estamos preparados’, mas, como assim? Vocês se propuseram a administrar um curso de inclusão, há três anos, mas não estão preparados para lidar com autistas? E por que não informaram isso em dezembro de 2018? Ah, por que vocês não sabiam como era? Poxa, mas meu filho não é nenhum ET. Ele faz personal há três anos com a Tatiana, que nunca tinha visto um autista na frente dela e já está quase correndo na esteira. E, ainda, para piorar, tentaram acusar meu filho de passar a mão numa mediadora, uma universitária de design, que ao meu ver, não está preparada para lidar com especiais porque, se estivesse, iria saber que eles não têm malícia, pelo menos o meu filho não sabe nem o que é uma vagina ou muito menos como se faz sexo. Perguntei à coordenadora se tinha alguma testemunha, já que o ‘ocorrido’ teria acontecido quando a Regina, que trabalha na minha casa e ficava com ele durante todo o curso, tinha saído para ir ao banheiro e o professor não me respondeu. É a velha história que se renova: a VÍTIMA, um rapaz autista de 19 anos, que nem sabe escrever seu nome, vira o agressor. Como no caso da mulher agredida que a culpa, na maioria das vezes, recai sobre ela! Em dois meses que ele frequentou o curso, foi uma avalanche de erros. Tentei, tentei de verdade. Gabriel estava fora da escola há 9 anos, justamente para resguardá-lo dessas situações de exclusão e preconceito. Não por parte dos alunos e das famílias, mas sempre pela ESCOLA, pela direção, coordenação e outros ‘ãos’!

Quando recebi o folder da propaganda do curso, em dezembro de 2018, fiquei feliz e animada com a possibilidade de que o meu moleque, de 19 anos, autista, pudesse ingressar nessa universidade, conviver com jovens da sua idade, aprender com eles, não ficar ocioso em casa, enfim, proporcioná-lo crescer, aprender e ensinar também.

Liguei para o número que constava para informações, fiz todas as perguntas, falei do meu filho, falei tudo e me responderam que o curso era para o Gabriel, que ele poderia frequentá-lo e que, para que o curso acontecesse, precisaria de outros alunos. Postei o folder em vários grupos de zap e do Facebook, fiz muita propaganda e no dia da entrevista, no final de fevereiro, estávamos lá, meu filho, eu e o pai. Além do meu filho, haviam mais dois alunos. Ao fim da entrevista, a coordenadora falou que iria entrar em contato com os aprovados. EPA! Peraí! Não tinham me falado que a entrevista tinha caráter eliminatório! Tive a nítida certeza que aquela fala era para o meu filho.

E como infelizmente já sei como a banda toca, perguntei à professora porque o meu filho não seria aceito no curso. Ela disse que iria se reunir com os outros professores e avaliar. Uns dias depois, recebi o telefonema de um professor que ele poderia frequentar as aulas, por um mês, como experiência e era para eu não efetuar a matrícula. Tudo bem! Passado esse período, recebi a cobrança e a notícia que meu filho poderia se matricular!

Logo depois, a coordenação determinou que ele não poderia assistir às aulas de uma determinada professora, às terças das 13h às 15h e outra aula, às quintas-feiras, das 15h às 17h, onde eu nem cheguei a conhecer a professora. As aulas do curso são às 3ª, 4ª e 5ª-feiras, das 13h às 15h. No início de maio, fui levá-lo à Universidade. Que ambiente lindo! Que jovens lindos! Meu filho chegava e já ia comprar o kitkat (chocolate). Estava todo orgulhoso que estudava lá, sem mesmo ter noção do que era uma universidade. Os funcionários falavam com ele, sorriam, os alunos tinham aquele olhar de empatia, de carinho, um ambiente de inclusão fora do curso ele estava feliz.

Quando chegamos à sala, às 15h, a professora estava cortando uma maçã e os alunos num canto, conversando. Ela não nos cumprimentou. Ficamos invisíveis! Gabriel esperou por 40 minutos, parado, em pé. A aula que ele poderia assistir era para começar às 15h! A ordem para ele não assistir a aula, era porque ele comia as frutas antes da hora! Poxa, professor não é para ensinar? Não é um curso? Ele não é o aluno? Ele não estava ali para aprender? Ensina, que o moleque aprende! Passados os 40 minutos, saí da sala e liguei para um professor. Ele disse para eu conversar com a professora. Tentei. Perguntei por que meu filho não poderia assistir à aula dela, falei que além da Regina, eu também ficaria na sala com ele. Ela foi ríspida, falou que não, que ela não queria, não sabia lidar com ele, não podia, NÃO para tudo. Esse monte de NÃO, despertou minha ira. Peraí, eu não estou pagando? Meu dinheiro é diferente dos outros? Por que você não cumprimentou meu filho? Por que você não o trata com educação e respeito? Pronto! Motivo dado para ele ser expulso uma semana depois do curso. Ah, mas eles vão devolver o que eu paguei! Mas, eles vão devolver as lágrimas que escorrem do meu rosto quando eu escrevo esse texto? Eles vão devolver as expectativas que eu criei? Eles vão devolver o sorriso do meu filho entrando na universidade? Vocês são os donos de lá? Determinam quem pode frequentar seu curso? Vocês fazem uma seleção no grau da deficiência dos alunos?

Até agora não sei o que eu vou falar quando ele olhar para mim e perguntar. Me diz? Falo o quê? Olha, coordenadora, meu filho estava feliz, graças a Deus, ele não compreende olhares e cochichos. Ele está, além disso, e, no curto período, aprendeu até gírias com os outros meninos do curso. Ontem eu, arrasada, deitei com ele e ouvi repetindo em alto e bom som: FOI MAL! Olha, Gabriel, FOI MAL também! FOI MAL você viver no mundo que o curso de inclusão é na verdade, de exclusão. FOI MAL também você ter sido expulso de terapias e outros cursos, por ser grande e forte, mas não fazer mal a ninguém. FOI MAL, meu filho, você pode tanto! Basta alguém querer ensiná-lo. FOI MAL, coordenadora e professores do curso, vocês perderam a oportunidade de conviver com o meu moleque, o rapaz mais lindo que eu conheço!! Vocês poderiam se tornar pessoas melhores como eu me tornei. FOI MAL, alunos do curso, vocês ficaram privados da companhia de um ser humano maravilhoso, puro, inocente, que tem a voz mais linda do mundo e que canta sempre! FOI MAL, Gabriel. Fico te devendo oportunidades, universidades, crescimentos, inclusão, estudo, empatia. FOI MAL!


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