Francesca ficou cega, mas é sobre um novo olhar da vida que seu livro fala. Escrita das névoas: literatura retrata dores e superação

Foto: Divulgação

Cinco anos separam dois cenários vividos por Francesca, protagonista da obra Escrita das Névoas. O primeiro é a vida de uma prestigiada advogada em São Paulo, já o outro é a realidade como deficiência visual em Ouro Preto, Minas Gerais. O lançamento digital é da artista e escritora paulistana Denise Courtouké.

Aos 35 anos, completamente cega e entregue a depressão após a perda da mãe, a sensível personagem reencontra sua tia Gioconda, descendente de italianos, que resgata a sobrinha e a leva para Outro Preto, Minas Gerais, para morar com ela.

Gioconda alimenta Francesca com afeto, com comidas tradicionais da região do Vêneto, na Itália, com sabedoria ímpar. Aos poucos, a cegueira passa a ser uma guia que leva Francesca a ver a vida de outras formas e abre sua sensibilidade para seus outros sentidos. É dessa forma que a personagem encontra a presença da natureza, uma via para que Francesca possa redescobrir a beleza, amor, afeto, empatia pelo outro e o desejo de ser escritora, sonho que abandonou ao se tornar advogada.

A narrativa dos antepassados italianos e gregos da família, apresentada por meio das estórias de Gioconda e Aliki, avó grega de Francesca, resgatam memórias que a protagonista teme perder entre as névoas da cegueira. Os fatos históricos envolvendo várias etnias que formam o mosaico do Brasil são apresentados por meio das escritas da personagem. Francesca reflete em sua criação sobre o legado dos imigrantes no Brasil, a comida como herança histórica, preconceito racial, intolerância, discriminação de gênero, mitos sobre a deficiência visual, além de outros assuntos que compõem momentos históricos da realidade brasileira.

“Cheguei a pensar que toda aquela teoria, tudo o que eu lia e pesquisava era uma estratégia de fuga, que eu temia encarar minha condição real e que por isso, me refugiava em teorias para escapar da doença, da dor e do desespero que tomavam conta de mim. Pensei em deixar tudo, em queimar tudo que eu tinha escrito, em queimar todas as bibliotecas que me serviam de conforto, pensei que o que me restava era tatear corrimões, móveis, paredes e calçadas em busca de saída, porque as respostas do mundo, tão óbvias para os outros, não chegavam até mim. Até que percebi que estava agindo como uma tirana comigo mesma, como podia ter pensado em queimar o que tinha escrito? Como tinha pensado em queimar bibliotecas?”

(Escrita das Névoas, pág. 00)

A relação de amor entre Francesca e o pianista negro Josias faz com que a personagem se aventure mais uma vez em uma cultura que não conhece. O relacionamento entre os dois é tecido por meio de referências sobre música e arte, além de conversas acompanhadas por reflexões sobre mitologia, plantas e animais.

Escrita das Névoas foi inspirado por relatos de deficientes visuais que Denise conheceu em sua trajetória como artista. “Eles tocaram profundamente a minha vida, então dei forma às experiências e relatos que ouvi deles por meio da personagem Francesca”, conta a autora. “Esse sentimento inicial se ampliou e se transformou em um livro que fala sobre preconceito e intolerância de maneira muito própria, com delicadeza e clareza.”

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