Instituto Serendipidade e CIAM promovem aulas de iniciação esportiva para crianças com deficiência intelectual; atletas paralímpicos contam como esporte ajuda na inclusão

Quem vê o sorriso da nadadora Ana Karolina Soares, exibindo com muito orgulho uma medalha de bronze, conquistada no último dia 28 na Paralimpíada de Tóquio, não imagina as dificuldades pelas quais ela já passou. A atleta já sofreu muito bullying por conta de sua deficiência intelectual, apenas uma de suas diversas características. A jovem de 21 anos, que brilhou no revezamento 4×100 livre misto S14, diz que só superou as barreiras que costumava encontrar graças à prática esportiva. “O esporte ajuda muito na inclusão. O atleta passa a acreditar cada vez mais em si mesmo e no próximo, pode conviver com todas as pessoas, mostrar seu potencial”, diz Ana Karolina, atleta da Associação ParaDesportiva JR-SP.

Promessa para a próxima Paralimpíada, a nadadora Stephanie Ariodante, também da JR-SP, concorda com a colega de piscinas. Para a jovem, o esporte foi o local em que ela conseguiu desenvolver suas habilidades e, mais importante ainda, sentir-se bem. “O esporte, principalmente o paralímpico, faz a pessoa se amar mais. Foi nele que achei meu lugar no mundo. Antes da natação, eu era muito perdida, tinha muita dificuldade na escola, em tudo”, diz a jovem, que também tem deficiência intelectual.

Cotado para os próximos Jogos, Kaio Martins Bianco, de 20 anos, engrossa ainda mais o coro. “Esporte é ferramenta para inclusão, ainda mais quando é coletivo, quando você convive com uma equipe. Meus amigos da piscina me ajudam em todo o resto”, diz.

Como Ana Karolina, Stephanie e Kaio, o empreendedor social Henri Zylberstajn também nunca duvidou que o esporte é uma ferramenta para a inclusão e desenvolvimento de crianças com deficiência intelectual. Por isso, o Instituto Serendipidade, entidade que ajudou a fundar, criou o Programa de Iniciação Esportiva, voltado para meninos e meninas com síndrome de Down em situação de vulnerabilidade social. A ideia é que eles se mantenham ativos e possam estar preparados para a prática desportiva no futuro e, quem sabe, se quiserem, até para competições.

Através de uma parceria com o Centro Israelita de Apoio Multidisciplinar (Ciam), entidade beneficente criada em 1959 e que atende atualmente, de forma gratuita, 300 bebês, crianças e jovens com deficiência intelectual, o projeto inicia em setembro, mês em que se comemora o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência (21) e o Dia Nacional do Atleta Paralímpico (22), uma nova turma. Serão 32 vagas, voltadas para crianças entre 3 e 9 anos atendidas pelo Ciam.

Uma equipe multidisciplinar irá ajudar no desenvolvimento neuromotor, social/comportamental, e intelectual das crianças, que, por causa da síndrome de Down, costumam ter musculatura mais frágil e frouxidão ligamentar. Elas precisam fazer desde cedo a estimulação de habilitação e de fisioterapia para aprender a postura e a andar. Mas, assim que recebem alta da fisioterapia, muitas perdem sua curva de aprendizado por falta de continuidade.

O projeto surgiu para suprir esta lacuna. “Crianças com síndrome de Down podem ter maior tendência para ganhar peso. Deixar para iniciar atividades esportivas com apenas 8 ou 9 anos pode acarretar barreiras maiores para a inclusão esportiva, já que, nesta idade, as crianças sem deficiência já estão se exercitando. Levar um menino com síndrome de Down com 9 anos de idade para uma aula de futebol, por exemplo, com outras dezenas de meninos ou meninas sem deficiência que já praticam o esporte há anos pode gerar exclusão e bullying ao invés de inclusão. A ideia do projeto de iniciação esportiva é que não haja mais esse hiato entre a alta da fisioterapia e o início do esporte, oferecendo às crianças todos os ganhos que o esporte proporciona desde muito cedo”, diz Henri Zyberstajn.

Para o presidente do Ciam, Marcelo Muriel, a iniciativa vai ao encontro da missão da entidade de identificar e desenvolver as potencialidades de pessoas com deficiência intelectual, por meio de atendimento multidisciplinar e de oficinas socioeducativas. “Com essa parceria no campo da iniciação esportiva, as crianças vão ampliar suas oportunidades de desenvolvimento, interação social e autonomia de um jeito bem divertido e estimulante. É uma nova porta que se abre para um futuro com mais inclusão e participação”, afirmou.

As aulas, que seguirão todos os protocolos em relação à prevenção da Covid-19, acontecerão duas vezes por semana, às segundas e quartas-feiras, das 13h às 17h, na sede do Ciam, no bairro Jaguaré, em São Paulo. Segundo Roberto Levi, coordenador do programa, os alunos farão uma espécie de circuito, com equipamentos especializados, nos quais passarão por vários tipos de estímulo. A equipe de educadores físicos será coordenada por Rodrigo Gorgen, também idealizador da iniciativa. “No nosso programa, desenvolvemos a mobilidade para que a criança tenha base para o melhor aproveitamento do esporte pelo qual se interesse, facilidade para brincar e independência para se movimentar”, diz Gorgen.