João Maia: fotógrafo e palestrante !

LIÇÃO DE VIDA

Aos 43 anos, ele conta como os esportes e a fotografia o ajudaram a recomeçar a vida após perder a visão

Atleta, fotógrafo e com uma grande sensibilidade – estas palavras ajudam a definir João Batista Maia da Silva – fotógrafo e pessoa com deficiência visual de 43 anos, piauiense de nascimento e radicado em São Paulo/SP desde 1995. A trajetória de João Maia também é de uma luta marcada pela persistência, que o levou a superar vários desafios na vida. O fotógrafo criou o site e projeto Fotografia Cega – ele também é palestrante e percorre escolas e universidades, onde conta a sua experiência de vida e ensina a fotografia.

   Aos 28 anos, João Maia ficou cego. Ele teve uma uveíte grave – uma inflamação na úvea (parte dos olhos que inclui a íris, corpo ciliar e coróide) – que levou à perda total da sua visão do olho direito e a uma lesão no nervo óptico esquerdo, que reduziu e deixou a vista que sobrara totalmente desfocada. João também descobriu no Hospital das Clínicas (HC), na Zona Oeste da capital paulista, que tinha Catarata. A operação contra a doença não obteve sucesso. Na época, em 2004, João era carteiro nos Correios. Uma situação que para muitas pessoas poderia significar o fim da carreira e das aspirações da vida, para João Maia foi um novo aprendizado. Ele passou a se dedicar aos esportes e mais tarde, após fazer um curso no Senac-SP, passou a fotografar de maneira profissional – cobriu a Paralimpíada do Rio 2016 e a Corrida de São Silvestre, na capital paulista, entre vários outros eventos esportivos.

  “Após o fracasso da cirurgia, caiu a ficha. Eu percebi que tinha uma deficiência visual. Aprendi Braile, tive o apoio da Fundação Dorina Nowill. Outro apoio muito importante foi o da Universidade Cidade de São Paulo (UNICID). Um dos donos da UNICID era cego e decidiu me ajudar. Estudei lá e tive uma professora cega. Isto foi importante. No início da deficiência, você precisa conversar com pessoas que passaram por isto. Foi isso que começou a me devolver a vontade de viver”, lembra João Maia.

   Nascido em Bom Jesus do Piauí/PI, município a 500 Km da capital do estado, Teresina, em 1974, João tem 10 irmãos, dois deles com deficiência, sendo que um tem deficiência intelectual grave e mora no interior do Piauí com os pais até hoje. O fotógrafo conta que cedo se deparou com situações de preconceito por causa do irmão que tem deficiência, no interior do Piauí.

   “Naquela época não se falava em inclusão da pessoa com deficiência. Na passagem da década de 1980 para a de 90, comecei a sentir que existia preconceito com as pessoas com deficiência, com o meu irmão. As pessoas não respeitavam”, conta João. “Em 1995, eu concluí o ensino médio e decidi mudar para São Paulo/SP. Um irmão já vivia na capital paulista e foi importante porque me acolheu. Vim em busca de melhor qualidade de vida. Já em São Paulo, fiz concurso público, passei e virei carteiro dos  Correios”, diz.

   Em 2004, após ficar cego e ter frequentado a Fundação Dorina Nowill e a UNICID, João descobriu o esporte. “Um colega me convidou para fazer natação no ‘Panelão’ da Polícia Militar de São Paulo. Eu topei e comecei a nadar… Eu não me saí bem na natação, mas lá fiz outro amigo e ele me levou para o atletismo”, conta João.  O ‘Panelão” da PM de São Paulo é o prédio e complexo onde fica o Centro Administrativo da Polícia Militar paulista, na Avenida Cruzeiro do Sul, centro da capital. O prédio é chamado informalmente de ‘Panelão’ por causa da sua forma redonda.

   “Eu adorei o atletismo. Entrei em uma equipe de rendimento. Naquele tempo, fazia atletismo e comecei o curso de Fotografia na Universidade do Senac, no bairro de Santo Amaro”, conta João.  “Eu fiquei na Universidade de 2008 a 2013. E foi então que comecei a fotografar meus colegas de atletismo. Uns colegas gostavam das fotos e sempre me chamavam para fotografar batizados, casamentos, eventos. Muitas vezes eu pedia ajuda para outras pessoas quando ia fotografar uma prova esportiva. Elas me ajudavam a me posicionar em um local estratégico para fazer as fotos e ao mesmo tempo não atrapalhar os atletas na pista. Eu tinha um medo enorme de atrapalhar algum atleta”, lembra João. “Inclusive, aprendi que geralmente existe uma área bem definida onde ficam os fotógrafos”, lembra.

João também praticava arremesso de disco, além do atletismo. Em 2015, ele decidiu parar com o atletismo, mas fotografava muitas provas. Foi em uma das provas que ele perguntou a um amigo, o também fotógrafo e cadeirante Vitor Young, onde poderia alugar uma lente fotográfica melhor. “Eu não tinha dinheiro para comprar uma lente boa para fotografar. O Young me ajudou e foi em uma produtora onde os caras alugavam as lentes. Ele levou as minhas fotos das provas de atletismo e eles adoraram.  Daí a coisa foi toda muito rápida: logo depois, com o apoio da produtora e também da Apple, eu estava me preparando para cobrir os Jogos Paralímpicos do Rio em 2016”, conta.

   Durante a Paralimpíada no Rio, João chamou a atenção dos jornalistas e dos atletas. “Não é todo dia que você vê um cara cego fotografando. Isto chama a atenção, é lógico. Bom, eu dei uma entrevista para uma jornalista da Agência France Press (AFP) e ela publicou uma matéria contando a minha história. Essa matéria correu o mundo, foi lida em mais de 30 países, em francês, inglês e espanhol. Foi uma coisa impressionante porque fiquei conhecido mais no exterior do que aqui dentro do Brasil. Choveram jornalistas pedindo entrevistas”, diz João. “Eles queriam saber como é que uma pessoa com deficiência visual pode fotografar. E eu vou dizer que é fantástico isso, porque você pode falar sobre inclusão social, sobre superação, sobre competência profissional. Muitos colegas me disseram na época: “João, deixa isso para lá, não deixe subir na sua cabeça porque um dia vai acabar”.

  “Não acabou e nem subiu na minha cabeça. Eu voltei para São Paulo e tive a ideia de montar o Fotografia Cega”, comenta. Hoje, além de fotografar, ele dá palestras e ensina as pessoas com deficiência visual que elas podem fotografar. Elas podem ter acesso à Fotografia e mudar as suas vidas.

Segredo – João diz que o segredo para fotografar bem é sempre conhecer o lugar onde vai fotografar e seu ponto estratégico. “Quando eu fotografei a Corrida de São Silvestre, me posicionei na esquina da Rua Brigadeiro Luís Antônio com a Avenida Paulista. Porque ali é perto do final da prova. Os atletas sobem a Brigadeiro e chegam muito cansados à Avenida Paulista. Você faz as melhores fotos se souber o momento certo de disparar a máquina”, diz.

Futuro – “O que eu quero é trabalhar. Fazer as minhas palestras, fazer oficinas de Fotografia para pessoas com deficiências visuais. Este projeto que eu criei, o Fotografia Cega, já me levou a fazer palestras na Universidade de São Paulo (USP), na Universidade de Campinas (UNICAMP), e em Santiago do Chile. O trabalho dá dignidade, estou feliz”, diz João.

Para saber mais sobre o trabalho do fotógrafo no site: www.fotografiacega.com.br.