Livros de histórias infanto-juvenis dá protagonismo para pessoas com deficiência

Tente pensar no último personagem com deficiência física que você viu, ele era protagonista? Mesmo com milhares de pessoas com algum tipo de deficiência, essa parcela da população tem pouco destaque de visibilidade na sociedade. No entanto, o protagonismo das pessoas com deficiência, as discussões sobre inclusão e exclusão, o combate ao preconceito ganham luz com Carina Alves, que é psicóloga, escritora e doutoranda em Educação na perspectiva inclusiva pela UFRRJ.

Carina é idealizadora do projeto Literatura Acessível que é uma coletânea de livros infanto-juvenis. Seus personagens trazem a pessoa com deficiência como protagonista de histórias que revelam a dicotomia da inclusão x exclusão. A obra é em multiformato – libras, braille, audiodescrição, pictograma e leitura simples e multilinguismo, escrito em português e alemão, para atender filhos de refugiados de guerra e com o objetivo de sensibilizar crianças e jovens sobre a temática da inclusão de maneira lúdica e divertida.

“São 10 livros, todos com tramas que envolvem situações de discriminação, bullyng, educação inclusiva, paradesporto, cultura acessível, e respeito à diversidade humana. O projeto Literatura acessível roda escolas e bibliotecas públicas do Brasil, os exemplares são distribuídos gratuitamente, junto com um kit que contempla contação de histórias, bonecos inclusivos e material educativo”.

Carina conta que o projeto Literatura acessível planta uma sementinha nessas crianças e adolescentes, visando formar uma sociedade com uma mente mais inclusiva e menos preconceituosa.

“Queremos mostrar para nossa sociedade a potencialidade da pessoa com deficiência e quebrar o paradigma da ideia de incapacidade delas. A ideia é usar a ludicidade para falar de algo ainda tão estigmatizado pela nossa cultura que ainda vive a barbárie da exclusão”, afirma a psicóloga.

A doutoranda em Educação na Perspectiva Inclusiva salienta que o avanço no processo de inclusão ocorre a cada ano que passa, mas precisamos unir forças, junto ao poder público, privado e a sociedade civil. Segundo Carina, se as políticas públicas andarem na contramão do que a gente vem lutando por anos para mudar, não chegaremos a lugar nenhum, a não ser no retrocesso de tudo que já foi construído na educação brasileira em termos de inclusão. Um exemplo disso é a proposta do decreto 10.502/2020 que segue na contramão dos compromissos assumidos pelo Brasil na Convenção dos Direitos das Pessoas com Deficiência, na Constituição Federal de 1988 e na Lei Brasileira de Inclusão, já que o decreto prevê a matrícula de crianças e adolescentes com deficiência em classes e instituições especializadas, segregando esses estudantes.

“Não há como retornar ao modelo em que as pessoas com deficiência ocupavam escolas e espaços segregados. Na escola regular a diversidade é uma grande oportunidade para todos aprenderem mais. Construir um mundo mais justo para todas as pessoas passa, necessariamente, pelo encontro com a diferença na escola”, analisa Carina.