Mãe que sofreu discriminação com filho autista em avião diz que nada vai apagar a humilhação

Taise Pereira, de 29 anos, foi impedida de embarcar em um voo de Recife (PE) para o Rio de Janeiro (RJ), no último dia 16 de maio. O motivo da expulsão foi porque seu filho, Bernardo, de 3 anos, não usava máscara facial de proteção contra a Covid-19. Segundo ela, apesar de apresentar o laudo médico em que explicava que o pequeno era autista, não teve jeito. Taise e Bernardo tiveram que deixar a aeronave, que estava prestes a decolar, por pressão da equipe da companhia aérea Azul, e da Polícia Federal.
“Nada vai apagar a humilhação e o constrangimento. Eu não sabia o que fazer. Estava em uma cidade desconhecida com o meu filho de 3 anos. Não adiantou de nada apresentar o laudo. Ninguém me ouviu, a vontade que eu tinha era de gritar”, relembra a mãe, emocionada. Três dias antes do ocorrido, Taise e o filho embarcaram para Campina Grande (PR), onde a família da supervisora mora. A visita teve um motivo especial: o aniversário de 100 anos de sua avó.

“O voo da ida também fazia conexão em Recife. Até então a ida foi tranquila, não tive problemas. Na volta, embarquei de Campina para Recife e também foi tudo certo, Bernardo estava sem máscara, nem questionaram. Mas quando fizemos a última conexão para pegar o voo para o Rio, a aeromoça me abordou questionando a idade dele e perguntou por que ele estava sem máscara. Eu expliquei que ela era autista e não conseguia usar”, conta ela.

Conforme a Lei federal (14019/2020), o uso de máscaras em espaços públicos e privados não é obrigatório para autistas, deficientes intelectuais, deficientes sensoriais ou outras deficiências que impeçam o uso adequado da proteção. No entanto, Taise afirma que isso não foi respeitado.

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“Entrei na aeronave e depois de um tempo a aeromoça perguntou se eu tinha como comprovar que ele era autista. Eu apresentei o laudo médico do Bê, mas ela voltou e perguntou se eu estava com o atestado negativo dele para Covid-19. Ninguém tinha me pedido isso antes”, afirma a mãe de Bernardo. Em seguida, ela logo foi informada que por ordem do comandante da tripulação, não seria possível seguir o voo sem o tal atestado. “Eu me recusei a sair da aeronave, falei que era inaceitável, que estavam infringindo a lei federal”, rebateu.

Já acomodados, Taise ainda tentou fazer com que o filho usasse a máscara. Hoje ela diz que essa é a única atitude da qual se arrepende. “Eles estavam me pressionando. Foi uma situação bem humilhante e constrangedora. Forcei ele a usar a máscara, mas ele chorava de soluçar”, conta. Após a chegada da Polícia Federal, a mãe se sentiu coagida e aceitou descer da aeronave.

“Os passageiros que estavam ao meu lado ficaram me olhando, querendo falar alguma coisa, mas ficaram intimidados. Alguns deles até pegaram meu telefone”, afirma. Um vídeo gravado por uma das passageiras foi publicado na rede social da sobrinha de Taise, Giovanna Araújo. A gravação indignou muitos internautas. “Como uma companhia tem a capacidade de retirar uma mãe que tem um filho de 3 anos, autista, de um voo só pelo fato dele não querer usar máscara?”, escreveu a prima de Bernardo na publicação.

Depois de ser obrigada a sair do voo, Taise precisou fazer uma declaração a mão comprovando a isenção do filho ao uso de máscara.  Ela teve o voo remarcado pela companhia, após alguns esforços, e ficou hospedada em um hotel também por conta da Azul. No entanto, para ela, isso não apaga o trauma que ficou da situação.
“Dói muito. Eu como mãe estou destruída. Ainda não consegui dormir, comer. Fico lembrando toda hora. Meu filho sofreu discriminação. Onde está a lei nessas horas?”, lamenta. Agora, ela vai entrar com um processo de danos morais contra a companhia aérea.

* Azul volta atrás e reconhece erro de conduta com mãe de menino autista

Na primeira nota, a empresa afirmou que estava cumprindo a legislação da Anvisa que desobriga clientes com transtorno do espectro autista a usar proteção facial a bordo, mas argumentou que Taise não apresentou um atestado da criança, diferentemente do que ela contou ao Papo de Mãe, de que havia apresentado sim o atestado.
Neste sábado, a Azul voltou atrás em relação ao caso e declarou um novo posicionamento reconhecendo o erro de conduta dos tripulantes. Confira a declaração na íntegra:

“A Azul reconhece que houve um erro no tratamento à família no fato em questão e, para evitar que isso aconteça novamente, mudou seu protocolo interno e está orientando e treinando seus Tripulantes para permitirem o uso facultativo da máscara por pessoas autistas mesmo sem a apresentação do laudo comprobatório, que hoje é exigido pela lei federal 14019/2020. A companhia ressalta, ainda, que está em contato com a família para prestar toda assistência necessária.”

 

Fonte: https://papodemae.uol.com.br