Mari Alexandre: Nocauteando o Preconceito !

Encontrar uma maneira de identificar Mariozane Machado Silva é bastante difícil. A partir do início da luta pelas causas da Pessoa com Deficiência, ela passou a ser chamada de Mari Alexandre. O nome veio por ser casada com o professor Alexandre, e pela forma com que as pessoas começaram a se referir a ela: “a Mari do Alexandre”… e assim ficou: “Mari Alexandre”, nome adotado por ela, que também é mãe do Guilherme, de 11 anos.

Com 40 anos e natural do Maranhão, Mari viveu parte de sua vida em Parauapebas, no estado do Pará. Alguns problemas fizeram com que ela morasse distante de seus pais. Na infância, com outros irmãos, viveu com o avô, que faleceu após um acidente de trânsito. Com pouco mais de 10 anos de idade não teve alternativa se não buscar trabalho para ajudar a manter alimentação e os irmãos na escola. Em certos instantes da vida contou com a ajuda de vizinhos e pessoas caridosas. A filha do senhor Mario e dona Emê carrega uma enorme batalha de vida. Aos 16 anos teve que enfrentar a morte de uma irmã, assassinada pelo marido. Desse fato triste, levantaria uma batalha de luta em defesa dos direitos da mulher.

Dos momentos mais difíceis encontrou energia para superar obstáculos e demonstrar garra. É formada na área de enfermagem e inglês. Já trabalhou em administrações públicas e em grandes empresas. Em 2004, retornando do trabalho, o veículo em que estava, por problemas mecânicos, capotou várias vezes. Os socorristas, quase uma hora após o acidente, encontram o seu corpo a vários metros de distância do carro. Eles acharam que estava morta. Em função da gravidade do acidente parte da perna precisou ser amputada e ainda teve – do lado direito – a perda de 50 % de audição e 90 % da visão.

Passados mais de 15 anos do acidente, hoje comenta com certa tranquilidade. “No impacto, o cinto de segurança se partiu, ferindo inclusive o meu ombro e fui arremessada por quase 10 metros, sendo encontrada quase uma hora depois. Inclusive acharam que eu estava morta. No hospital permaneci em coma por quase 10 dias, constatando a amputação da perna esquerda, fratura do quadril direito, costelas, ombro, quase todos os dentes, parte do rosto queimado e perda considerável da audição e visão direita. Os próprios médicos consideraram a minha cura um milagre”, afirma Mari Alexandre.

A previsão dos médicos não era nada positiva. “Diziam que eu estava ‘aleijada’. Foi quando respondi imediatamente que voltaria a andar, trabalhar e por aquele motivo não iria me aposentar. Ao optar pela vida, passei a lutar pelos meus direitos”. Ela precisou lutar para conseguir que o município destinasse uma prótese adequada a lesão. Após o acidente, em menos de cinco meses já estava andando e até pilotando motocicleta. E assim, um novo episódio em sua vida não demorou a acontecer. Em abril de 2007 enquanto pilotava sua moto, para desviar de crianças, sofreu outro acidente. “Acordei novamente no hospital. Quebrei o ombro e costelas”, lembra.

“Dias anteriores havia descoberto que estava grávida de quatro meses de uma linda criança que dei o nome de Guilherme, que significa ‘protetor’. Mais um milagre aconteceu em minha vida quando fiquei sabendo que nada havia acontecido com meu filho durante o acidente. Inclusive, no ultrassom, estranhamente aparece uma imagem parecida como uma mão envolvendo meu filho”, comenta.

Esses foram alguns dos obstáculos enfrentados por Mari Alexandre. Outros vieram de maneira silenciosa. “Quando voltei ao trabalho num primeiro momento percebia nitidamente um olhar depreciativo. Umas pessoas com dó, outras com a certeza de que eu não conseguiria cumprir com as obrigações pertinentes ao cargo que exercia. Poucas eram aquelas que acreditavam de verdade em meu potencial. Mas em pouco tempo, ao ver os resultados que eu apresentava, passavam a entender que eu não era de outro planeta”.

Mas Mari foi encontrando motivos para super os obstáculos. “Fico feliz ao ver, que principalmente nos últimos anos, existiram avanços no entendimento de que as pessoas com deficiência podem exercer, com competência, as mais diversas funções. Mas ainda temos que avançar muito. Infelizmente foi necessária a criação de Leis para estabelecer cotas, pois muitos gestores da atual geração, ainda trazem um pouco, ou muito, do preconceito extremamente presente nas relações profissionais do passado. Quando atuei na área de Recrutamento e Seleção, constatei de perto essa triste realidade”.

Ela cita o filme “O Extraordinário” como um exemplo. “O filme mostra nitidamente a realidade de uma PcD. Saibam que realmente ainda somos vistos com outros olhos, principalmente pelos adultos. Mas tiro de letra e brinco com isso, afinal estou viva e as pseudos limitações em momento algum comprometem o meu desempenho profissional e no lar. Inclusive digo aos amigos que meu marido é privilegiado em ter ao seu lado uma mulher que sempre levanta com o pé direito, afinal é o único verdadeiro que tenho (parte da perna esquerda foi amputada). Também tenho a possibilidade de deixar meu pé na manicure para fazer as unhas. Mas entristeço ao ver PcD com baixa estima e mergulhadas numa depressão que acaba comprometendo todas as dimensões das suas vidas. Quero muito contribuir para mudar este triste cenário”, afirma.

Hoje Mari tem no esporte uma mensagem de superação. “Encontrei no boxe a oportunidade para minha total recuperação. Perto de minha casa havia uma academia, mas praticamente só frequentada por homens e nenhuma pessoa com deficiência. Não me intimidei e entrei para conhecer e a lutar com eles. E justamente foi com o Mestre Orlando – proprietário e instrutor – que conheci a coragem, força e disciplina necessária para viver plenamente e vencer obstáculos quase que intransponíveis. Também passei a saber que praticamente sou a única lutadora com deficiência de boxe do Brasil, e sonho em breve contribuir para que o esporte (escolas de Boxe) possa abrir espaço para as pessoas com deficiência. Sonho ainda em ver o boxe transformado num esporte paralímpico. Não tenho dúvidas que muitas vidas serão transformadas. Inclusive com o apoio do meu marido já escrevemos o projeto que demos o nome de ‘Nocauteando o Preconceito’”, conta.

Por sinal, seu casamento aconteceu de forma diferente: “Foi um encontro inusitado no facebook, mas não foi com foco em namoro. Deparamos um com o perfil do outro e começamos a conversar sobre a minha história, inclusão e a minha vontade de através do meu exemplo, fazer a diferença na vida de outras pessoas. O Alexandre é palestrante e professor de Ética e Cidadania, com ampla formação em gestão de pessoas, e sempre esteve envolvido em projetos sociais. Realmente foi um casamento perfeito. Nos conhecemos em setembro de 2017. Como eu tinha férias para vencer em novembro daquele ano, me dispus a viajar para São Paulo ao seu encontro, pensando em ficar uns 10 dias em sua cidade, Amparo/SP. Acabei ficando quase um mês e voltei para o Pará para avisar minha família e a empresa em que trabalhava, que no final do ano viria definitivamente para Amparo/SP, para viver ao lado do Alexandre e iniciar uma marcante história de amor e de transformação de muitos sonhos em realidade”.

Desde então, Mari passou a acompanhar o marido. Tinha um espaço dentro do tempo das palestras dele, onde ela falava brevemente sobre sua história e os sonhos. “Mas logo já estávamos elaborando uma palestra para mim. Descobri que não tinha medo de falar em público e quando se fala a verdade fica tudo muito mais fácil. Também conheci amigos que, como eu, admiram a mexicana Frida Khalo, uma mulher, cuja história se assemelha a minha e com uma postura arrojada, através de suas obras, repletas de mensagens, impactou o mundo. Com eles me aproprie de conteúdos que passei a compartilhar e ter a aprovação dos mais diversos públicos. Hoje as palestras se adaptam aos mais diversos temas e ocasiões. Estamos trabalhando para fechar várias palestras associadas ao: Empoderamento da Mulher, Inclusão, Gestão Administrativa, Segurança do Trabalho e à Liderança e Motivação. Os resultados positivos sempre superam minhas expectativas. Quando falamos sobre aquilo que vivenciamos de fato e de direito, as pessoas prestam mais atenção”, comenta Mari Alexandre, que conta com o apoio da LIBRA- Liga das Mulheres Eleitoras do Brasil, entidade apartidária que reúne mulheres representantes dos mais diversos segmentos sociais.

Por onde faz suas palestras ou entrevistas, divulga incansavelmente o projeto “Nocauteando o Preconceito”. Segundo Mari: “é um projeto muito amplo e repleto de possibilidades. Sonhamos implantar escolas de boxe adaptado em todo o Brasil, com espaço também para outros esportes. A transformação do projeto em uma ONG também é um sonho”.

Mari Alexandre já esteve ao lado das mais altas autoridades políticas do Brasil durante um Congresso de Municípios, que aconteceu no litoral paulista. Nas Câmaras Municipais, Assembleia Legislativa, Federações e Prefeituras e Secretárias de Estado. “Participei de importantes reuniões. Conheci de perto as aspirações das mais diversas instituições e seus dirigentes. Também deparei com as dificuldades e desafios que

enfrentam. Passei a usar os espaços abertos para reivindicar os direitos das PcD”, conta.

Em breve, sua história estará nas livrarias de todo o Brasil. “Mari a borboletinha da perninha cor-de-rosa”, uma obra didática para o público infanto-juvenil, de autoria da escritora e terapeuta Cristiane Lenzi Beira e ilustrado por Stella Martins, conta a trajetória da boxeadora da vida. Toda a renda obtida com a comercialização do livro será revertida para entidades assistenciais.

A sabedoria com todas as dificuldades da vida e seus percalços dão a Mari Alexandre um sorriso contagiante. “Dos meus pais, herdei a simplicidade e a humildade, que passaram a ser os valores que sempre alicerçaram a minha vida. Também carrego comigo a coragem necessária para jamais me acovardar perante os inúmeros desafios impostos por uma sociedade que ainda precisa evoluir muito, principalmente no tocante ao respeito às diferenças. Quanto ao fato de inspirar pessoas, posso garantir que em pouco tempo já me sinto realizada. Principalmente o público infantil fica encantado com a minha prótese Pink. As crianças literalmente me veem com uma heroína. Olham e pedem para pegar. Percebem que essa diferença não me transforma num ser inferior. Pelo contrário, sorriem muito ao encontrar em mim uma pessoa que em momento algum se inferioriza pela deficiência. Pelo contrário, procuro fazer com que entendam que não existe ninguém igual a ninguém, e que se fossemos iguais, a vida não teria graça. No tempo que me for permitido ficar por aqui, pretendo continuar lançando sementes de esperança e deixar um legado promissor para aqueles que estão chegando”.