MIZAEL CONRADO

Presidente do CPB – Comitê Paralímpico Brasileiro conta qual é o planejamento do nosso País para Tóquio 2020 .

Mizael Conrado, presidente do CPB – Comitê Paralímpico Brasileiro, é um vencedor. Nasceu em Santo André /SP em novembro de 1977 e aos 9 anos de idade recebeu a notícia que perderia a visão. Com o apoio dos seus pais, seu João e dona Maria, Mizael frequentou o Instituto Padre Chico, na capital paulista, onde entrou em contato com o Futebol de 5. A descoberta de que poderia jogar futebol foi para Mizael a possibilidade de realizar os seus sonhos. Como paratleta, participou da Seleção Brasileira de Futebol de 5, que foi bicampeã mundial em 1998 e 2000. Em 1998, Mizael foi eleito o Melhor Jogador de Futebol de 5 do Mundo. Ele ganhou ainda duas medalhas de Ouro em Paralimpíadas: Atenas (2004) e Pequim (2008). Como no Futebol, o Brasil também é pentacampeão mundial no Futebol de 5, tendo vencido o título mais recente em 2018 em Madri, Espanha.

Após se aposentar como atleta, Mizael estudou Direito e formou-se pela Universidade de São Paulo (UNICID). Ao mesmo tempo, acumulou o cargo de vice-presidente do CPB, entre 2009 e 2017, enquanto a presidência era exercida por Andrew Parsons. Em 2017, Mizael foi eleito para a presidência do CPB e passou a ser o primeiro atleta a presidir a entidade que cuida do esporte paralímpico brasileiro.

Com 41 anos e há mais de um à frente do CPB, Mizael administra a entidade que tem como principal missão preparar o Brasil para a próxima Paralimpíada, a de Tóquio 2020, no Japão.

O presidente do CPB também administra o gigantesco Centro de Treinamento da entidade, cuja construção levou dois anos (2014-2016) e fica no Parque Fontes do Ipiranga, às margens da Rodovia dos Imigrantes, Zona Sul da capital paulista. O CT custou R$ 264 milhões (dos quais R$ 143 milhões vieram do governo federal brasileiro e R$ 114 milhões do governo paulista). O complexo possui capacidade para alojar 280 pessoas, instalações esportivas para 15 modalidades paralímpicas, entre atletismo, natação, futebol de 5 e futebol de 7, halterofilismo, basquete e tênis em cadeira de rodas, entre outras.

O CT fez com que São Paulo recebesse a partir de 2016 várias competições nos esportes paralímpicos, como os Jogos Parapan-Americanos de Jovens, em 2017, e o Circuito Loterias Caixa, no começo de 2018. Virou uma referência na América Latina. Para conversar sobre a sua trajetória, Mizael Conrado recebeu com exclusividade a Revista Reação.

Revista Reação – O senhor assumiu a presidência do Comitê Paralímpico Brasileiro em 2017. Qual é o principal desafio da sua gestão ? Preparar os atletas brasileiros para Tóquio 2020 ?

Mizael Conrado – Assumi a presidência do CPB no fim de março de 2017 e, desde então, estamos trabalhando em um planejamento estratégico que possa, ao mesmo tempo, colher os frutos da visibilidade e resultados que tivemos até o Rio 2016 e nos guiar para um ciclo ainda mais vitorioso até os Jogos de Tóquio 2020.

RR – Como o moderno CT construído às margens da Rodovia dos Imigrantes, na capital paulista, se traduziu em melhorias para os atletas ?

MC – O Centro de Treinamento Paralímpico Brasileiro, em São Paulo/SP, tem nos dado condições de otimizar a preparação dos nossos atletas e levá-la a outro patamar para seguir entre as principais potências do para-desporto mundial.

RR – Aos 9 anos, recebeu a notícia de que perderia a visão. Imagino que o impacto tenha sido enorme. Como lidou com a questão ?

MC – Inicialmente, foi uma situação difícil, onde você não tem muita ideia do que fazer. Felizmente, tive contato com o futebol de 5 em uma visita ao Instituto Padre Chico, escola que me recebeu em seguida. Saber que a pessoa cega poderia jogar futebol resgatou a minha autoestima e fez com que eu tivesse uma percepção diferente da minha deficiência e os desafios que ela me imporia.

RR – O seu sonho de infância era jogar futebol. Qual foi a inspiração – jogador, time ou seleção – que despertou sua atenção para o futebol ?

MC – O futebol apareceu na minha vida na década de 1980, principalmente porque eu acompanhava assiduamente o São Paulo Futebol Clube e tinha o atacante Careca como inspiração.

RR – O Futebol de 5 lhe abriu muitos horizontes profissionais e pessoais. Poderia destacar alguns deles ?

MC – O futebol de 5 abriu muitos horizontes, sem dúvida. À medida que a autoestima de uma pessoa com deficiência é resgatada por meio do futebol, há também a criação da resiliência. Estes são dois atributos fundamentais para a vida profissional e acadêmica de uma pessoa.

RR – Ser bicampeão Mundial e também bicampeão paralímíco, em Atenas e Pequim, no Futebol de 5, foi o seu maior sonho realizado ?

MC – Sim, certamente. Conquistar títulos paralímpicos e mundiais pela Seleção Brasileira de Futebol de 5 são os principais sonhos que eu realizei na minha vida.

RR – Quanto tempo levou para se tornar um atleta profissional no Futebol de 5 ?

MC – Foram 6 anos até que eu me tornasse um atleta profissional de futebol de 5.

RR – Na sua opinião, qual é o legado que ficou da Rio 2016 para o Brasil ? O esporte paralímpico brasileiro melhorou após o evento ?

MC – Sem dúvida alguma o grande legado que fica dos Jogos Paralímpicos é o Centro de Treinamento Paralímpico Brasileiro, em São Paulo/SP. Uma estrutura deste porte tem o potencial para ser o alicerce da preparação não só para os Jogos de Tóquio, em 2020, como também para os seguintes. Também nos cria uma série de possibilidades para o desenvolvimento do paradesporto no Brasil.

RR – Também houve uma evolução no Futebol de 5 brasileiro após a Rio 2016 ?

MC – A Seleção Brasileira de Futebol de 5 chegou ao Rio 2016 já como a principal potência da modalidade e, por meio de um trabalho sério, com jogadores extremamente talentosos, pôde se manter neste ponto.

RR –  O que gosta de fazer nas horas vagas ? É casado ? Tem filhos ?

MC – Gosto de assistir a jogos de futebol, tomar vinho e acompanhar esportes em geral. Não sou casado e tenho dois filhos.

RR No dia 26 de julho, foi assinado um termo de parceria com a cidade japonesa de Hamamatsu. O que significou este acordo ?

MC – Esta parceria, assinada com o prefeito de Hamamatsu, Yasumoto Suzuki, prevê que a cidade japonesa receberá nossa equipe de atletas que se aclimatarão no Japão para participar da Paralimpíada de Tóquio 2020. Tóquio está no nosso planejamento estratégico, que é manter o Brasil entre as 10 principais potências paralímpicas entre 2017 e 2024. O prefeito Suzuki ficou muito contente em oferecer as instalações da sua cidade para aclimatar a delegação brasileira porque Hamamatsu é a cidade onde vivem mais brasileiros no Japão.

RRE qual é o planejamento estratégico até 2024 ?

MC – A intenção do CPB é conquistar entre 60 e 75 medalhas em Tóquio 2020 e entre 70 e 90 medalhas 4 anos mais tarde, em Paris 2024. Seguir como a principal potência continental, por meio de Parapanamericanos, também é o intuito do CBP. Desde o Rio 2007, o Brasil liderou o quadro de medalhas em todas as edições do Parapan.