Moda inclusiva: dos uniformes paralímpicos às roupas adaptadas para pessoas com nanismo

Atletas desfilam durante lançamento de uniformes do CPB em 2019
Foto: Daniel Zappe/Exemplus/CPB
O conceito da moda inclusiva vem ganhando força no Brasil nos últimos anos. Sua proposta é incluir a diversidade de corpos que a indústria hoje não contempla. Sabemos dos rígidos padrões da moda tradicional (que vem sendo questionada e desconstruída), na qual apenas um tipo bem específico de corpo é olhado e valorizado: pessoas magras, altas e sem deficiência. Na prática, funciona quase como a antítese de uma proposta inclusiva. É altamente exclusiva.

O que se busca através da moda inclusiva é a representatividade, da criação às vendas, do maior número de corpos possível, inclusive os das pessoas com deficiência. Afinal, estamos diante de uma expressiva parcela da população brasileira que possui algum tipo de deficiência. Como não ter roupas pensadas e confeccionadas para um quarto da população?

Felizmente, esse cenário está mudando! Há vários coletivos, comunidades, influenciadores que estão impulsionando o mercado brasileiro sentido a uma moda mais inclusiva. Também temos o caso do próprio Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), que lançou sua própria linha inclusiva de uniformes em 2019, na ocasião dos Jogos Parapan-Americanos de Lima 2019.

Para este artigo, convidamos duas pessoas que estão fazendo a diferença para a moda inclusiva no Brasil: a influenciadora digital e modelo com nanismo, Rebeca Costa, do perfil Look Little, e Thaysa Torres, designer do CPB e responsável por liderar o projeto dos uniformes paralímpicos, para compartilharem suas experiências com o mercado.

Crédito: acervo pessoal –  Descrição da imagem: Rebeca está em frente a uma parede de pedras retangulares, ela é uma mulher de pele branca, cabelos castanhos ondulados compridos. Usa uma camisa marrom com listras em laranja e rosa.

 

O nanismo é um detalhe 
Essa é a frase de apresentação de Rebeca, que criou sua própria empresa de moda adaptada, iniciativa que vem ganhando cada vez mais visibilidade no mercado brasileiro. Look Little, nome da sua página, está presente nas principais plataformas online, Instagram, Youtube e Facebook, com dicas de moda e beleza, principalmente, para seguidores com nanismo, que se identificam com Rebeca.

Ela explica a importância de ter uma iniciativa voltada para esse público. “A moda inclusiva abrange todos os corpos. É bem diversa. Ela atende cada corpo conforme ele necessita. Você dá liberdade para a pessoa ter acesso. Eu acho que a moda hoje em dia, ainda não é inclusiva. Ela é bem exclusiva. Mesmo no meio tido como inclusivo, acaba que abrange só alguns tipos de corpos diferentes.”

Liberdade de escolha

Poder escolher uma roupa porque você gostou da peça e não porque é a única opção disponível parece algo tão natural hoje em dia, mas para pessoas com deficiência isso é ainda uma novidade. Se vestir bem é algo que está intimamente ligado à autoestima. Para muito além da moda, é para isso também que nasceu a Look Little.

“A ação que eu costumo fazer é: como não existe acesso a essas roupas adaptadas para pessoas com nanismo, eu costumo adaptar e mostrar a minha realidade para outras meninas com a mesma condição. Então eu costumo compartilhar lojas. Compartilhar coisas que faço de adaptação, sem que eu precise costurar ou sair da realidade da roupa.”

A moda inclusiva não se resume apenas em criar e costurar peças de roupa adaptadas. A inclusão precisa se fazer presente na comunicação também, no acesso e, sobretudo, na representatividade. Talvez esteja na comunicação simples e direta com o público, a chave para conciliar teoria e prática. Não faltam estudos sobre os impactos positivos da inclusão e acessibilidade na comunicação. A questão é como fazer isso se tornar uma realidade no mercado.

“Eu acho que o estudo e o conhecimento são a base de tudo. E a prática também. Eu vejo um grupo muito interessado em somar, em alavancar a moda inclusiva. No meio teórico. Mas na prática, a gente não assiste muito isso. A gente não tem esse acesso. Penso que o que falta muito é colocar o conhecimento em prática”, explica Rebeca.

Inovação na prática: uniformes do CPB

Sem dúvida, particularmente nesse segmento, a teoria só tem razão de ser quando aliada à prática. Isto é, quando gera impacto real na vida das pessoas. Com certeza ainda há muito a ser feito nesse sentido, mas já podemos celebrar essas conquistas mais recentes! A moda inclusiva tem ganhado espaço e alcançado mais pessoas, seja nas prateleiras e vitrines, na comunicação direta e empática, ou em ambientes onde o que se busca é a excelência técnica e alta performance, como é o caso dos esportes paralímpicos.

Pensando na performance dos atletas que se preparam para Tóquio 2020, Thaysa Torres, líder do time de design do CPB, busca integrar aos uniformes as tendências de moda mais atualizadas, assim como, tecnologia de tecidos e engenharia na construção de modelagens. A designer relata a importância de utilizar de forma criativa elementos que já são utilizados na industrialização das roupas, mas com funcionalidade inovadora para atender as demandas dos atletas. Para Thaysa, tão importante quanto o uniforme promover o melhor rendimento possível, é que também promova o bem-estar e autoestima dos atletas.

“Essa moda pode ser mais inclusiva quando mantém como seu principal objetivo oferecer moda up-to-date, bem-estar para as pessoas com deficiência, pois elas também querem andar na moda e se sentir bem com as roupas que vestem.”

Ela nos conta que as modelagens dos produtos foram criadas com engenharia de construção para que atendessem os atletas de forma funcional sem deixar de ser elegante e natural, ou seja, todos podem usar esses produtos independente de ter uma deficiência ou não.

A principal finalidade de quem faz moda inclusiva é oferecer roupas confortáveis, simples e práticas para as pessoas com deficiência. Ou seja, com a intenção de facilitar o ato de se vestir, mas sem deixar de lado os designs modernos, tecnológicos e inovadores que, afinal de contas, todos nós procuramos ao vestir uma roupa.

Contemplar tantos requisitos e exigências em uma peça de roupa é com certeza um desafio e tanto. São muitos detalhes para levar em consideração. E cada um deles pede uma inovação: todos os uniformes da linha passeio do CPB, por exemplo, possuem uma etiqueta interna em braille, para que os atletas com deficiência visual identifiquem as cores do produto.

Os zíperes dos uniformes passaram por adaptações e assumiram funcionalidades diferentes, principalmente as calças para os atletas que usam próteses. “Utilizamos de modo geral nos zíperes, puxadores ergonômicos, para que os atletas, independente da deficiência, utilizassem de forma fácil”, explica Thaysa.

São inúmeras as inovações, assim como os lugares de onde vêm as inspirações. É preciso bastante criatividade, mas também um conhecimento técnico rigoroso para dar conta de atender bem cada singularidade.

“Usamos tecnologia de construção em algumas modelagens de produtos para garantir a funcionalidade da peça na prática esportiva, um bom exemplo disso é a legging com pé, que garante conforto e segurança nos movimentos durante o exercício.”

Para cada um, de acordo com sua necessidade

Outra função da moda inclusiva é a busca pela criação de roupas que atendam às necessidades diversas das pessoas com deficiência, ou seja, aplicando o Design Inclusivo. Um conjunto de conceitos que propõem que todos produtos e serviços sejam projetados de forma a promover o acesso para o maior número de usuários possível. Os produtos são desenvolvidos visando atender de forma equânime a toda a diversidade humana.

O trabalho de aplicar os diferentes tipos de necessidades em um único design é um dos grandes desafios da moda inclusiva. E muitas vezes ele é superado! Mas quando se trata de diferenças mais específicas é preciso um olhar mais atento às características de cada indivíduo ou grupo. Cada um deve receber o que precisa, de acordo com sua necessidade própria e singular. Os corpos são diferentes entre si e devem ser atendidos de maneira diversa, respeitando as necessidades ao mesmo tempo, promovendo o melhor desempenho.

Para que isso ocorra, Thaysa explica que “além de todas as tecnologias têxteis que utilizamos, tivemos que usar tecidos adequados para cada tipo de modalidade esportiva garantindo conforto e funcionalidade, podemos citar como exemplo as bermudas para cadeirantes que não derrapam nas cadeiras de rodas.”

Fonte: Assessoria de Comunicação do Comitê Paralímpico Brasileiro

 

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