Nesse mundo “nada se cria, tudo se copia”… Mas que isso seja feito pelo menos com ética !

Quando a gente é bom e começa a ser imitado é a prova que realmente o trabalho feito ganhou notoriedade e reconhecimento público. É assim com tudo no mundo, com remédios – os chamados “genéricos” – é assim na indústria em geral, basta ver os produtos chineses principalmente, que dominam as prateleiras em todo o planeta, e no mundo da arte também, e como exemplo, não podemos de citar o grande comunicador Silvio Santos: o melhor de todos os tempos e a pessoa mais imitada desse País. Ser imitado é uma honra, dependendo da forma como essa imitação é feita. Se é com ética e respeito, realmente é muito gostoso e saudável. Assim, como em todos os ramos de negócio, uma concorrência é uma prática saudável também.

Mas quando a “imitação” é tosca e carrega com ela a falta de ética, se torna bastante desagradável. Quando a Revista Reação nasceu há mais de 20 anos, não existia nenhuma revista voltada para pessoas com deficiência, seus familiares e profissionais do setor no Brasil. Depois disso, com o sucesso da Revista Reação – que nasceu se chamando Revista Nacional de Reabilitação – surgiram várias publicações no mercado tentando seguir o mesmo caminho. Porém, por um motivo ou por outro, praticamente todas morreram, acabaram em nada. E a Revista Reação permaneceu, firme e cada dia mais forte. Dela, inclusive, nasceram praticamente todos os eventos que marcaram as principais mudanças nesse nosso setor, como a REATECH, a ABRIDEF (entidade patronal do setor de Tecnologia Assisitiva) e a Mobility & Show, dentre tantas outras conquistas que a Revista Reação encabeçou ou ajudou de alguma forma o movimento da pessoa com deficiência a conquistar.

O que me deixa triste e indignado não é o surgimento de publicações com o tema “pessoas com deficiência” não… muito pelo contrário, acho que quanto mais mídia para o tema melhor ! Mas me pergunto: por que os novos produtos que aparecem não vem com ideias novas ? Não tentam ser criativos, inteligentes, diferentes ? Não… preferem o caminho mais fácil, o da “cópia descarada”. Mas mesmo assim, volta e meia, mesmo sendo “cópias baratas” do que já está no mercado, vem sempre com um discurso de que estão sendo “pioneiros” ou “fazendo diferente, como jamais se fez”… é tanta pobreza de espírito que chega a dar pena. Principalmente porque o mercado sabe e percebe esse tipo de jogada malcaratista que beira até uma certa sandice.

O que me deixa triste também é perceber que às vezes nos “imitam” descaradamente e pior ainda, usando para isso, mentiras e intenções escusas, e até com fundo político/eleitoreiro às vezes, forças ocultas por trás de ações e atitudes que “tentam” levar louros sobre o trabalho realizado por outras pessoas que já atuam há anos e anos num segmento, ajudando a construí-lo. Como dizem, é mais do que “pegar o bonde andando e sentar na janelinha”. Chegam a ser atos quase que criminosos.

Isso que estou comentando aqui não é um desabafo de alguém indignado não… é um alerta mesmo, não só para as próprias pessoas com deficiência não se deixarem levar por promessas milagrosas, mas também para as empresas desse nosso setor pensarem muito bem onde investem a sua verba de marketing, pois existem por aí muitos “lobos em pele de cordeiros” agindo sorrateiramente, tentando comer o mercado pelas beiradas, como se fossem ratos, prometendo mundos e fundos, sem pudor, sem ética, sem responsabilidade.

Nada no mundo dos negócios é feito “de graça”. Pensem nisso. Alguém tem sempre que pagar a conta, de uma forma ou de outra. Não achem que estão “levando vantagem” quando estão “ganhando” algo que, de uma forma “normal”, vocês pagariam. Foi com esse pensamento brasileiro de “levar vantagem”, é que chegamos no estágio que o Brasil está hoje. Pensem nisso… Se queremos um Brasil diferente, temos que pensar e agir diferente. Começa de nós.

Todo produto tem seu preço. Isso acontece com tudo, com cadeiras de rodas, automóveis, revistas, feiras e eventos, muletas, próteses, órteses, um imóvel… tudo.

Ninguém vai te dar um carro de graça vai ? Uma casa de graça ? Um pastel de graça na feira, que seja. Se isso acontecer, você tem que ficar, no mínimo, desconfiado. Procure saber se esse “pastel”, por exemplo, é feito por quem conhece o que está fazendo, se conhece o mercado… se respeita as regras e a ética que regem o seu segmento de atividade. Preste atenção: esse “pastel” pode estar sem recheio… com o recheio estragado ou quem sabe até, queimar a sua boca !

Cuidado com os aventureiros que te usam e depois desaparecem, deixando para trás um rastro de manchas num setor inteiro e o seu bolso. Principalmente quando estamos falando de pessoas com deficiência e um setor restrito e segmentado como o nosso. Fiquem atentos aos aproveitadores, ao “conto do vigário” que só dá certo se a gente deixar. Nosso mercado tem gente boa e honesta, gente que a gente conhece, que atua nele com responsabilidade há muito tempo. Devemos valorizar isso e não dar chance para filmes que já assistimos no passado e com personagens que já vimos que não atuaram bem. Para fazer parte do nosso setor tem que ter capacidade para isso !

Hoje em dia não podemos nos dar ao luxo de cometermos os mesmos erros mais de uma vez.

Depois de tudo que assistimos o Brasil passar e passamos juntos, espero que tenhamos aprendido, afinal, a separar o joio do trigo também em nosso dia a dia pessoal e profissional !

 

 

* Rodrigo Rosso é diretor e editor da Revista Reação, fundador da REATECH que deixou em 2012, promotor e organizador da Mobility & Show, fundador e presidente da ABRIDEF – Associação Brasileira das Indústrias e Serviços de Tecnologia Assistiva.

E-mail: [email protected]