O Luiz Milton, da Brasilândia

por JOHNNY SAVALLA

Eu chorei e acho que muita gente chorou. Não deu pra segurar. E quando ele parou eu pensei: o que aconteceu? Ele pegou e bandeira do Brasil com o pessoal dos serviços de pista e repetiu um dos gestos imortalizados pelo seu ídolo Ayrton Senna: percorreu a pista, ainda no cockpit segurando a bandeira brasileira.

Ontem ele foi o inglês mais brasileiro do planeta. O brasileiro que persiste. Largou em último lugar porque foi punido por suspeita de irregularidades e veio “quebrando pedra” e foi tomando posição e chegou em primeiro lugar. Não desistiu. Acreditou que conseguiria, lutou e persistiu, assim como a maioria dos brasileiros que dão o sangue, que lutam, que trabalham duro, e na hora da promoção o chefe promove o “primo” e o cara que mais faz não é reconhecido. Ele foi lá para baixo e voltou, ganhou e tiraram dele a vitória. Foi jogado bem no fundo do poço e emergiu e venceu. Os brasileiros torceram por ele porque a identificação foi imediata – subliminar, porém imediata: viram ou vimos nele um pouco do que cada um de nós, em algum momento da vida já passamos.
Quando ele parou e pegou a bandeira, o Autódromo de Interlagos veio abaixo: desde os agregados, os primos, parentes, vendedores de anúncios… A população toda pegou na sua mão. Ele se misturou à cena brasileira. Ele é negro, como a maioria da população brasileira.

Nossa gente misturada, miscigenada, bárbara, assim como ele. Em nenhum lugar do mundo é assim. Ele segurou nossas mãos. “Eu me sinto em casa aqui no Brasil”, disse emocionado. Ele se vê na rua, ele olha pela janela do carro, e se vê no outro carro, vai a um restaurante e se vê no restaurante, na calçada tem um cara igual ele!

por JOHNNY SAVALLA – JOHNNY SAVALLA É JORNALISTA NA TV CULTURA E É PESSOA COM DEFICIÊNCIA

Ontem, ele foi o brasileiro, ele representou toda uma nação que está perdida e desencantada e mostrou que um cara que foi o campeão mundial oito vezes, chegou aqui teve a vida de um brasileiro: foi lá para trás e voltou e ganhou. Foi injustiçado e sacaneado, mas venceu!

“Dá passaporte brasileiro pra ele!” Gritavam da arquibancada.

O rosto descontraído, mesmo depois da corrida. Parecia um garoto que acabou de sair do banho e tomou um belo café com leite e estava feliz e leve, estava à vontade, era como se fosse um garoto da Brasilândia.

O que aconteceu ontem em Interlagos, trouxe uma esperança a mais pra nossa gente tão sofrida e sem esperança. Os brasileiros ganharam um líder, alguém que eles passaram a admirar e o mais importante, a se espelhar. “O importante é nunca desistir! Eu nunca desisti.” Viva Luiz Milton, ou melhor, Luz Milton!