O que as Paralimpíadas ensinaram sobre inclusão para o mercado de trabalho?

Carolina Ignarra - CEO Talento Incluir
Carolina Ignarra - CEO Talento Incluir

* Por Carolina Ignarra, CEO da Talento Incluir

As Paralimpíadas de Tóquio trouxeram mais que medalhas e recordes conquistados por nossos paratletas. Em meio à pandemia que ainda aterroriza o mundo, o evento foi além do esporte e conseguiu fazer o planeta parar por instantes para assistir o que as pessoas com deficiência são capazes de realizar. Os números comprovam isso.

O Brasil alcançou a centésima medalha de ouro em jogos paralímpicos e superou o recorde de 21 ouros conquistados em Londres 2012. Chegamos à 7ª posição no ranking mundial com 72 medalhas, sendo 22 de ouro, 20 de prata e 30 de bronze. Tóquio também marcou a melhor participação das mulheres brasileiras de toda a nossa história. O Brasil subiu ao pódio em 14 modalidades, outro recorde. Quantas histórias e quantas vitórias!

Mais que conquistas, o evento trouxe ao mundo a representatividade que falta nos comerciais, nos filmes, na tela da TV e, principalmente no mercado de trabalho. Ver todo o esforço reconhecido é de fato o melhor sinônimo de vitória. Longe de ser super-heróis, o que eles querem é construir a autoconfiança. De repente, o talento ficou mais evidente que a deficiência do atleta paralímpico.

Assim como no esporte, essa também deveria ser a realidade no mundo corporativo. No entanto, o capacitismo e o preconceito ainda consolidam mecanismos que atrapalham a inclusão das pessoas com deficiência no mercado de trabalho, porque a exclusão estrutural ainda se guia por julgar o profissional por sua deficiência e não pela sua real vocação e capacidade de realizar suas tarefas.

Vivemos num planeta onde 15% da população (1 bilhão de pessoas) tem alguma deficiência. No Brasil, são cerca de 46 milhões de pessoas, segundo o último censo do IBGE (2010). Mais de 530 mil atuam no mercado formal, o que representa apenas 1,1% da classe trabalhadora – segundo a RAIS/2019, do Ministério da Economia.

Ainda segundo a RAIS, há 7 milhões de pessoas com deficiência aptas ao mercado de trabalho, mas que apenas 486 mil estavam registradas em empregos formais. O mundo corporativo reflete o comportamento da sociedade com relação à inclusão, ainda contaminado por crenças limitantes que impedem uma inclusão mais produtiva.

A Lei de Cotas, que completou 30 anos em julho, tem sido fundamental para abrir oportunidades. Porém, as barreiras que impedem que a inclusão ocorra de forma natural ainda precisam ser quebradas.

A obrigação e imposição da lei é o primeiro motivo para começar a inclusão, mas sabemos que esse não é o melhor caminho. A inclusão real acontece quando há convicção de que esse é o desejo real da corporação, refletido nos seus propósitos, nos seus produtos e serviços.

Promover um ambiente mais ‘diverso’ gera mais inovação e admiração por parte da sociedade. Também atrai novos negócios e visibilidade. Segundo uma pesquisa da McKinsey, empresas diversas apresentam um Ebit (lucro antes de juros e impostos) 53% acima da média de seus pares. Ainda assim, 46,98% das empresas no Brasil não cumprem a Lei de Cotas.

O que de fato aprendemos nesses instantes que paramos para assistir as Paralimpíadas? Quantas vezes ficamos espantados com a capacidade do atleta com deficiência? Quantas vezes pensamos e escutamos a palavra “superação”?

“Deficiência a gente não supera, a gente vive!”, disse Jessyca Oliveira, atleta com deficiência da natação, de 16 anos. Enquanto os ‘coitadinhos’ virarem ‘super’ apenas por driblar suas limitações, não alcançamos ainda uma sociedade inclusiva.

Podemos e devemos ter curiosidade para entender como uma pessoa sem braços, por exemplo, trabalha, cuida de filhos, faz esporte etc. Assim, aprendemos e formamos uma cultura em que pessoas com deficiência possam nadar sem os braços, jogar sem enxergar, saltar sem a perna e ninguém se espantar com isso!

* Carolina Ignarra é CEO e fundadora da Talento Incluir, consultoria que já incluiu mais de 8 mil profissionais com deficiência no mercado de trabalho. Está entre as 20 mulheres mais poderosas do Brasil da revista Forbes em 2020. Em 2018 foi eleita a melhor profissional de Diversidade do Brasil, segundo a revista Veja da editora Abril. Desde 2004, atua em programas de implantação de cultura de Diversidade e Inclusão nas organizações e desenvolve a inclusão socioeconômica de profissionais com deficiência.
Para mais informações: https://www.talentoincluir.com.br.