O QUE TE DÓI ?

 

* Por Suely Carvalho de Sá Yanez

 

Está doendo, dói às vezes, ainda dói…  Existem dores. As dores podem ser de diversas formas. Dentre várias, existem dores físicas, dores emocionais com alguns desdobramentos. Seja qual for a dor, sabemos que muitas vezes interfere em um processo de Reabilitação. 

Como atender um paciente, cliente, usuário que está com dor ou sensibilizado por alguma dor ? Fará alguma atividade, terá concentração, terá aberturas para descobrir seu potencial e sua independência ? Terá participação no seu planejamento de plano de atendimento ? Terá desenvolvimento satisfatório ?

Considerando que dores físicas costumam ser avaliadas e medicadas com tratamentos a curto, médio ou longo prazo, dependendo de cada situação, é importante ser respeitado o tempo de cada pessoa para uma reabilitação, pois resultados não são imediatos. Mas, será que isso é respeitado ?

As dores emocionais podem ser visíveis ou “mascaradas” no início. Porém, podem ser traduzidas com o tempo por expressões faciais, por mudanças comportamentais e até mesmo por outras dores, só que físicas. 

A dor por uma perda de um membro do corpo ou por uma área sensorial pode causar desconforto e desencadear uma dor emocional. O lamento por uma perda ou situação, seja qual for, é humano e totalmente natural. A maneira como lidamos com uma dor é que trará possibilidades ou impossibilidades em um processo de Reabilitação.

A dor emocional pode resultar em prejuízos, mas também em descobertas.

 

Considerações

 

Uma dor, não raro, pode paralisar uma vida. A dor pode trazer passividade, paralisação de atividades, medo do futuro ou um super apego ao passado. A dor pode comandar uma vida inteira. 

 

“Eu fazia…” “Eu tinha…” “Eu ia…”

 

Essas falas ditas (acima) com lamentos contínuos, sem mudanças, pode levar a um ostracismo ou a uma busca de refazer, ter novamente, ir novamente … (e existem possibilidades para isso).

 

Caso 1

 

Já vimos casos em que a perda de um ente querido paralisou a vida de uma jovem. Em todo atendimento semanal ela revivia o dia em que aconteceu essa perda (que já fazia 10 anos). Com a partida de quem ela amava, foi-se junto toda a sua força. Passaram-se meses até que se permitiu re-significar essa dor para focar em algo que valorizasse a relação perdida. Começou a realizar atividades expressivas, construtivas e atividades de vida diária.  Com a satisfação que começou a sentir nessas realizações, conseguiu enxergar seus dons, talentos e uma forma de realizar outras atividades. Em pouco tempo descobriu o quanto poderia realizar coisas, mesmo que aquela perda ainda significasse muito. Porém, não mais paralisada, nem deixando “a vida me levar”, mas vivendo.

 

     Caso 2 

 

A dor da perda da visão era a menor, perto de outras perdas de trabalho, estudo, relacionamento, independência. “Acabou a vida pra mim”… era a frase constantemente dita após procurar inúmeras alternativas na área médica e outras. Esse discurso durou cerca de 2 anos. Esse foi (e é muitas vezes) o período de elaboração de um “luto”. Costuma ser elencado na seqüência de choque, negação, ira, busca de alternativas, isolamento, depressão, …, paralisia …até chegar a iniciativa de procurar (ou ser levado) a um serviço de Reabilitação, por si ou por indicação de familiares ou amigos.  Esse rapaz levou quatro meses para entender que não precisaria “aceitar” a situação que vivia, mas utilizar-se de estratégias para uma vida independente que tanto queria (ele dizia que “aceitar” era atitude passiva e era como optar pelo sofrimento). A desconstrução das impossibilidades para a construção das possibilidades foi um processo repleto de “altos e baixos” .        Com muito incentivo, dedicação e persistência de todos os envolvidos (profissional, grupo de atendimento, família e o próprio rapaz atendido), pudemos obter resultados positivos e também emocionantes. A gratificação da Reabilitação não foi apenas pelo seu retorno aos estudos, a buscar cursos, realizar tarefas em casa e investir em relacionamentos, casar, ter filhos, mas pela volta do seu sorriso sincero no instante em que acreditou no seu potencial de vida, o que fez toda a diferença. 

 

A dor pode comprometer humor, atividades e muitas outras situações. Não sendo considerada nem tratada, pode comprometer um processo de Reabilitação.

Re-significar cada dor colabora para voltarmos à vida de uma maneira diferente, mas certamente com perspectivas maiores, melhores e com realizações. 

Existem várias atividades no setor de Reabilitação (Terapia Ocupacional) que auxiliam cada pessoa a entender as situações, se entender e superá-las. Isso acontece por meio de atividades específicas, terapêuticas. 

Bom ressaltar que NUNCA, NUNCA devemos subestimar ou desprezar qualquer dor de quem atendemos. Alguns podem avaliar que a dor do outro é um exagero ou “frescura”, porém… o limite de cada um é pessoal e a dor mais doída é a que sentimos no momento (“empatia” define).

Uma dor pode até se parecer com uma “pandemia”…  Ela vem, retorna com variantes, mas também gera anticorpos para que possamos lidar e sermos cada dia mais resistentes a ela. Não apensas resistentes, mas imunes. Não significa sermos frios ou inatingíveis, mas sermos equilibrados e não controlados por ela.

Pode voltar a doer ? É uma probabilidade menor. Mas, se assim acontecer, os caminhos já temos… 

“A alegria embeleza o rosto, mas a tristeza deixa a pessoa abatida” (Provérbios de Salomão)

 

  • Suely Carvalho de Sá Yañez é Terapeuta Ocupacional especializada em Orientação e Mobilidade para pessoas com deficiência visuaL e atua na área de reabilitação e Consultoria. suelydesa@hotmail.com

 

……………

Font Resize