O último suspiro

O que poderíamos pensar sobre “O ÚLTIMO SUSPIRO” ? O que vem na mente ?

Aquela respiração profunda antes da morte ? Uma respiração mais longa de desabafo ? Ou o que sobrou em uma mesa de festa ?

Várias vertentes…

Porém, uma delas poderia ser como um último lamento. O fim de um ciclo para começar outro. Uma sequência de suspiros para que haja um último e assim sermos direcionados a um outro caminho, a uma outra situação ou até a mesma, mas de maneira diferente.

Quem nunca sentiu que não iria suportar uma dor, uma perda, uma tragédia ? Quem perdeu o gosto pela vida em que tudo ou quase tudo foi perdendo o colorido e a cada dia um suplício para respirar, agir, reagir, sobreviver… parando no tempo, no tempo que não passa, porém… passa.

A pessoa se entrega, não vê saída para o que vive ou sente, acredita que vai morrer de tanta dor, mas acaba vivendo mais 20 anos e nada aconteceu, suspirando e morrendo um pouco a cada dia. E o que fez ou pensou não passou de um vácuo (e claro, sabemos que um luto, seja pelo que for, deve ser respeitado sim, só não deve ser eternizado).

Presenciamos muitas vezes nos atendimentos que, diante de tantas perdas, a perda da visão é mais uma delas e o foco se perde. A resistência a um tratamento, a uma busca de alternativas ou Reabilitação precisa ser compreendida, desejada e assumida.

Casos

Geralmente, segundo observado, as fases até uma procura de ajuda costumam seguir algumas ordens.

Perda – Negação da perda – Busca de Alternativas para revertê-la – Frustração – Recolhimento, isolamento – Ação

Nos atendimentos na Reabilitação verificamos que a maioria dos casos chega após 1 ano e meio após passar por alguma situação  de perda vivenciada. O trabalho de profissionais da equipe juntamente com a família colabora para que a pessoa seja também um agente de sua própria evolução (autorresponsabilidade).

Um trabalho árduo, porém gratificante, é uma somatória de estratégias que são utilizadas para que, por meio de atividades da Reabilitação, possamos ouvir um último suspiro que podem ser também uma série de vários últimos suspiros.

Juca (ou Juquinha) – uma pessoa extrovertida, divertida, que influenciava a todos que o rodeavam com suas brincadeiras. Após um trauma que o fez perder a visão, perdeu também a visão da vida, dos objetivos, dos sonhos tão sonhados, a alegria de viver. A vida tornou-se repleta de incontáveis suspiros entristecidos diante de tantas dificuldades físicas e emocionais. Houve o isolamento social. Após o contato, foi iniciado o processo de Reabilitação. Foi um desafio o processo para a autonomia em relação ao aprendizado do Braille, ao uso da bengala, reeducação postural, independência nas atividades de vida diária (Terapia Ocupacional), adequação comportamental, enfim, etapa por etapa sendo conquistada.

Durante uma das atividades desenvolvidas no processo de reabilitação (realizadas por um tempo sem ânimo, porém ciente da necessidade), aconteceu o que era desejado por todos que estavam presentes. Foi possível ouvir um suspiro prolongado e a partir desse momento novas realizações foram conquistadas…e celebradas.

Um suspiro pode ser de várias formas, não necessariamente pela respiração. Pode ser em forma de lágrimas, de um “basta”, um “chega” e também por atitudes que podem ser reconhecidas pela mudança de comportamento da pessoa.

A possibilidade de descobrir um horizonte já perdido e a busca em resgatar o que se havia perdido e uma nova criação de objetivos e sonhos é o início de uma nova jornada.

Juquinha ? Juquinha permanece no processo, caminhando, se desenvolvendo, cada vez mais perto de horizontes perdidos e outros sonhados (e alguns já foram resgatados e comemorados).

Pergunta: Independente de qualquer situação… Qual o suspiro que encontramos hoje nas pessoas que atendemos, as que estão ao nosso redor e qual é nosso suspiro hoje ? Qual a atitude em relação a isso ?

Então… que o ÚLTIMO SUSPIRO não seja para o fim, mas para um começo, um impulso à vida. Um último suspiro para alavancar o primeiro passo, de uma série de tantos outros.

Buscar ajuda não é uma proposta de “aceitar a situação”, mas descobrir como conviver com as ferramentas que temos hoje e, assim, prosseguir.

Viver o hoje, “como se não houvesse o amanhã” é uma frase bem conhecida. Podemos pensar em Viver o hoje sabendo que o amanhã pode até ser incerto, mas depende da nossa ação no hoje.

Por isso, viver o hoje como se fosse hoje… (e é hoje)… e não volta. Amanhã será e é um novo dia. Um dia de cada vez.

Vamos dar um “suspiro” para comermos um suspiro ?


Font Resize