Olha o Facão !

* Por Roberto Rios

“Cuidado com facão”… Que frase mais triste, muito usada nas décadas de 1970, 1980 e até mais recente, que queria dizer: “não apareça muito dentro da empresa porque na hora das demissões ou o corte, como se dizia na época, o facão passa no nível, cabeças mais altas rolam”.

Nível baixíssimo de capacidade dos gestores que comandavam pelo medo uma multidão de coitados medíocres que não podiam opinar, fazer críticas construtivas ou organizar uma tabela de prioridades com indicadores de produtividades, por exemplo.

Se alguém, desavisado, ousava ajudar em algum processo, escutava de volta alto e em bom som: “Tá querendo meu lugar? Cala sua boca! Aqui manda quem pode, obedece quem tem juízo”…

Mais triste ainda, era saber que esse pensamento fazia eco em toda a empresa, desde o “chefinho incompetente” na linha de produção até o incompetente presidente sentado em sua cadeira de encosto alto, tipo rei.

Só quem era um grande puxa-saco ou exímio e grande traidor, não importando seu nível de inteligência, ganhava espaços de comando. E a empresa girava na mesmice e seguia seu curso lento, sem nada de novo, zero de inovação.

Como a parábola da caverna de Platão, todos os funcionários se viam acorrentados em suas necessidades primárias de manter o emprego e ali ficavam até receber o relógio, símbolo, na época, do bom funcionário que se aposentava após 35 anos de trabalho e silêncio. O resultado se vê hoje nas brincadeiras de saudosismo que rolam todos os dias nas redes sociais: centenas de grandes marcas que desapareceram, evaporaram sem deixar vestígios, nem ao menos saudades de quem por elas passaram.

Hoje, infelizmente, ainda existem alguns poucos chefetes incompetentes, inseguros que camuflam seus medos aterrorizando os subordinados que precisam de seus empregos.

Dentro de todo esse universo que é o mercado de trabalho, felizmente agora, caminhando a passos largos em direção a uma relação mais justa e atenção às potencialidades, existe um componente novo: a pessoa com deficiência que muito recentemente conseguiu seu espaço. É até justificável e muito compreensível que essa galera seja acometida de receios e dúvidas sobre seu novo mundo.

Todavia, jamais aceitar que as dúvidas sejam sobre suas potencialidades, que seus receios sejam de mostrar uma forma diferente de fazer e que os olhares de lado dos preconceituosos intimidem quem tem perseverança e vontade de gritar: “aqui estou eu e vim para ficar !”

As PcD terão que enfrentar empresas modernas e as empresas velhas, rançosas, cheirando a mofo que teimam em permanecer vivas. Sofrimento sim, ansiedade sim, erros também acontecerão, engolir um sapo de vez em quando faz parte, mas nunca, de forma nenhuma, se comportar como um vaso.

O direito de ganhar a vida honestamente é de todos. E que isso fique bem claro.

Que existe uma corrida para crescer dentro de qualquer corporação. É claro que existe, e é necessária para melhorar a qualidade da gestão e, por consequência, a qualidade da empresa, mais ainda, a valorização da marca. Mas, a corrida tem que ser justa, dando espaço para quem tem capacidade, responsabilidade, amor no que faz e, principalmente, saber trabalhar em grupo.

Um dos principais avanços dentro das empresas modernas, foi a prioridade dos gestores em preparar seu sucessor. Com isso, as pessoas com deficiência podem ficar mais seguras em mostrar sua potencialidade, sua capacidade de comando, a sua simpatia, saber compreender e até esperar o outro porque já é escolado nesse assunto, e mais, a grande capacidade de convergir.

ROBERTO RIOS

Qualquer empresa que diga que respeita a diversidade humana, que é uma empresa inclusiva tem que estar ciente de que todos (eu disse todos) os cargos estão disponíveis aos mais capacitados.

Portanto, vamos em frente, meus irmãos, o caminho começa a ficar livre para mostramos quem somos. E que viemos para ficar!

*Roberto Rios é jornalista, cadeirante e apresentador de TV.
E-mail: [email protected]

** Este texto é de responsabilidade exclusiva de seu autor, e não expressa, necessariamente, a opinião do SISTEMA REAÇÃO – Revista e TV Reação.